23.12.07

A lua, a chuva e o elefante

Mas para ele, quando era necessário entrar nalgum cômodo do coração dela, parecia-lhe que era como andar na mata em noite de lua cheia. A lua era como o sol no céu desnudo de nuvens, tornando tudo disponível aos olhos, mas ainda assim, cobrindo os contornos da paisagem com cinzas e azuis fantasmagóricos e desvívidos.
As folhas das palmeiras gentilmente cumprimentavam-se enquanto ele passava pela trilha de areia batida que parecia brilhar à desmaiada luz da lua.
Caminhava, não com medo, mas com receio e ainda curiosidade, quando ouvia o farfalhar das borboletas noturnas, festejando silenciosamente o vento que as carregava. Confudiam-se às estrelas no céu que iam e vinham no calor morno das noites de agosto.
O calor que habitava no coração causava chuvas convectivas, que eram bem-vindas aos seres e inânimes daquela terra.
A chuva refrescava o suor insone de um solitário e imóvel elefante que descansava no descampado; o elefante fechava os olhos para protegê-los da chuva, e vez ou outra mexia uma das orelhas. Parecia sorrir.
Era até ali uma das mais belas cenas que havia visto na vida.
Toda aquela água ressonava ao bater na superfície do mar, que espumava brumas que amaciavam o solo do coração, enchendo o ambiente da tranquilidade igual ao sono das águas-vivas .
O coração parecia-lhe às vezes uma ilha ou uma sala, em que ela o convidava para apreciar as constelações do hemisfério sul, ou ainda para afogar as pernas no mar, enquanto contavam fábulas um ao outro, vigiados pela lua, pela chuva, e pelo elefante.

4.12.07

Prelúdio em Dó Maior

- Lá me vem tu com essa conversa de novo, Daniela!
Eu sei que ela prefere - e até eu prefiro - chamá-la por Dani, mas fazer o quê, escapuliu.
Ela me olha meio desconfiada por isso, se cala um pouco, e vira o rosto pra janela do carro. Eu continuo dirigindo e prestando atenção aos buracos da rua. Quando começo a pensar - não, nem isso! Quando começo a pensar em pensar, ela me corta:
- "Nhé nhé nhé de novo, Daniela!" - e me imita de um jeito que eu só teria falado se tivesse me faltando mais da metade dos dentes na boca. Olho pra ela e solto um riso, e também reparo que alguns fios do cabelo dela estão mais curtos. Será por causa do penteado ou ela cortou mesmo? Vamos saber, né:
- Tu aparou teu cabelo?
Não termino de articular "lo" do "cabelo" quando ela já me corta de novo:
- Nossa, - me diz bem séria, me apontando o indicador que estava antes descansado dentre os braços cruzados - engraçado tu ter reparado isso quando ele já tá quase do tamanho de antes!
E volta a cruzar os braços. Não preciso dizer que não teve nada de ameaçador na cena. Eu e ela sabemos disso. Dani gosta desses teatrinhos. Eu também.
- Fazer o quê, se eu tenho visão Thundercat... (Essa eu aprendi com meu professor de química).
Ela se dana a rir e me dá um tapa de leve; poderiam dizer que foi carinhoso, mas eu tenho minhas dúvidas.
Tô brincando, tô brincando.
Volto a vista para a via mais uma vez ("Vozes veladas, veludosas vozes" haha), e mudo a música do CD. Isso tem que ter uma trilha sonora, nada mais natural.
Ao som da música, pensei: Daniela, daniela, quem eu já conheci por dani, e me esquecia sempre se terminava em "A" ou "E". Depois da terceira noite, ou melhor, a Terceira Noite, minha dúvida foi embora. Entendeu o motivo das letras maiúsculas, né?
Pois é. Na época que eu perambulava em sonhos doidos e talvez inalcançáveis, Dani me puxou os pés e disse "Tô bem aqui!" Nossa...
Ela sou eu, sabe? Minha versão telúrica, com uma bela pele e sorriso. Vive falando besteira, e é muito inteligente. E fala tanto que dá bom-dia até pra cavalo, como diria minha mãe. Eu gosto de atentar ela, gosto mesmo. E além do mais,
- Continua falando, Tio Cabeça! - Me chama que nem minha sobrinha de dois anos diz. Já disse que ela fala demais? Concluo que ela puxa meus pés mais uma vez à Terra.
Sorrio e aperto a ponta do nariz dela com a palma da minha mão.
- Tua cara. - respondo sorrindo. - Mas me diz, o que eu digo? Pera, já sei: me diz... ah, forçando assim não sei! Finge aí que tu não perguntou nada.
- Tá bom. - ela entra no jogo. Aí já gosta de uma brincadeira...
Quatro ou cinco segundos depois, lembro de um assunto. Ergo o dedo, e digo com uma boa impostação:
- Lá me vem tu com essa conversa de novo, Daniela!

3.12.07

Mais um conto simbólico

O Marcelo era um garoto azul, como algumas divindades hindus. Azul daquele jeito. E por mais estranho que isso soe, e realmente seja, poucos reparavam que ele era azul. Perceber, todos percebiam, como se percebe que alguém é vesgo ou manca levemente um pé. Mas poucos realmente prestavam atenção à sua cor.
Marcelo tem uma vida social normal, e às vezes congue ficar até da cor das outras pessoas, e ser mais normal ainda. Mais normal. O "normal" de todo mundo, claro. Marcelo sabe que não se pode viver isolado de toda essa gente, e nem faz questão de tal. Gosta de estar entre os outros, os que são diferente dele, na verdade quem é diferente é o Marcelo, mas ele não liga pra isso. Não quando está em outra cor.
Mas quando é azul, Marcelo se isola, e gosta disso. E se põe a pensar sobre tudo, e a escolher as matizes de seus raciocínios e idéias. Menos dos sentimentos. Estes não têm cor nenhuma para Marcelo. Nem mesmo preto ou branco. Ele tenta entender o porquê disso, mas não consegue, não consegue mesmo.
Ah, o Marcelo ganhou óculos no início da infância. Mas ele tem a vista boa, em qualquer cor que esteja sua pele. Ele tentou usá-los para tentar ver as matizes dos sentimentos, mas não resultou em nada. Também nunca o jogou fora, sabe que vai precisar dele. Na verdade, trata os óculos com o maior zelo, como se realmente tivessem importância, mas não têm. Às vezes tem vontade de jogá-los fora, mas sempre acha melhor não. Devia vir com um manual de instruções. Aí sim ele veria todas as matizes, e saberia usar os tais óculos.
Marcelo, quando está entre azul e qualquer outra cor, pergunta para os míopes como usar os óculos. Aprendeu tudo, mas não consegue aplicar à pratica. Sabe das distâncias focais, espessura, grau da concavidade, e tudo mais. Sabe até mais de quem usa os óculos. Mas Marcelo, não. Marcelo nunca entendeu e incorporou seus óculos.
Esse é o Marcelo, pele azul e com óculos inúteis nas mãos.
Desenhá-lo seria fácil. Seria preciso só fazer um rosto triste e pintar de azul.

14.11.07

O subconsciente

O sujeito do andar de cima está arrastando os móveis mais uma vez. Acho que já devem ser umas onze da noite, mas ele insiste em manter esse hábito de arrumar, creio eu, a sala nesse horário, toda quinta-feira.
Deve morar sozinho, como eu. Penso se ele também prepara apenas pratos refinados, como eu faço. Jantares e almoços solitários que não são refinados por vontade, mas por necessidade - os editores deveriam saber que algumas pessoas que compram revistas de culinária querem saber apenas comida básica para o dia-a-dia, e não risoto de macarrão ao molho búlgaro.
Ao andar de cima, poucos vão, eu mesmo fui raras vezes. A vista de lá permite ver o que não é visto dos outros andares. O parque atrás do estacionamento, onde casais bricam no meio da noite; na rua se vê meninos roubando bolsas de executivos, valises de crianças e doces de senhoras, dentre outros crimes que ninguém observa; a mulher quem realmente amo, apenas a vejo passar quando estou porventura no andar de cima, nunca no meu.
O sujeito do andar de cima me engana sempre que o vejo, faz um gesto tão sutil que nunca chego à conclusão se é um cumprimento ou apenas minha imaginação. Tem minha idade, mas não cuida da aparência. Pudera, nunca o vi fora do prédio, nem saindo, nem entrando. Apesar da aparência envelhecida, ele tem minha idade, e isso é uma certeza que me foi embutida desde a primeira vez que o vi.
Ele continua a arrastar os móveis, e já são onze e quarenta e cinco. Mas ele arrasta os móveis nalguma melodia estranha. Alguma melodia fora do nosso sistema musical. O ritmo é bem marcado, e fato esse que fico com sono quase toda onze da noite de quinta-feira, o que quer que eu esteja fazendo. Às vezes penso se não é um ensaio, ou que ele talvez seja um inventor de instrumentos musicais. As paredes do meu apartamento ressoam em uma frequência silenciosa e confortável, e lá no térreo as crianças bricam com os pingos metálicos que caem do andar de cima. Riem bastante, misturando as risadas com o vago som de cítara das paredes.
A quinta-feira dura até a meia-noite, e tudo acaba assim que o primeiro minuto da sexta-feira se exibe nos relógios. Então, ligo a televisão e me pergunto se o sujeito do andar de cima também está assistindo ao canal de culinária, ou algum programa de bricolagem. Sabe, quem mora só precisa assistir a essas coisas.

Um parágrafo

Tu foste uma das coisas mais reconfortantes que eu pude ver naquela noite. De tão parada que tu estavas, enquanto todos seguiam as músicas, chamou minha atenção. Polegares enfiados nos bolsos da calça enquanto olhava às vezes para o palco, às vezes para o lado; cabelos presos num rabo-de-cavalo; e vez ou outra descansava os pés apoiando-se nas laterais deles. Além do mais, tu era a única ímpar no teu grupo de amigas (o que te incomodou um tanto), que estavam todas acompanhadas dos namorados - e que reclamavam também do fato de estares tão alheia ali onde todos se divertiam tanto. Mas eu te entendo, endendo sim. Entendi até a mania de puxar um pouco o lábio inferior com o polegar e o indicador, e que tu deixaste escapar e pensou que não houvesse ninguém vendo. "A menina como uma flor", isso ia e vinha na minha cabeça. Eu estava ali vendo e aquecendo a alma nos teus modos. E também não deixei de notar quando todos levantaram as mãos e aplaudiram, tu foste a única permaneceu com os polegares no bolso. Eu não deveria estar escrevendo isso, mas estou, e te confesso que desde de aquela hora minha vontade era de ir embora dali e alcançar o caderno e lápis mais próximos para te jogar nessas linhas, apenas isso, te guardar nessas linhas.

6.11.07

As argolas que só eu reparei

Sétima série, era hora do intervalo. Lá estava você, extraordinariamente linda. Lá estava eu, pensando se isso poderia ser possível.
Engraçado, naquele dia eu não tinha te visto lá lanchonete onde tu sempre aguardava o começo das aulas. A Camila faltou? Aquele dia de aula seria apenas um dia de aula se tu tivesses faltado, e realmente foi, até a hora do intervalo.
Só que agora era hora do intervalo, e eu estava na sétima série, assim com você. E eu não sei se sou atrasado pra essas coisas, mas tu foste meu primeiro amor. Ali, na altura da sétima série. Naquele dia da sétima série, naquele intervalo da sétima série.
E agora? Eu tinha que passar na tua frente. O caminho para o pátio estava adornado pela bela estátua de Camila.
Não sei o que tinha acontecido, mas naquela época a gente já não se falava mais. Eu e meu magnífico dom de puir minhas relações mais importantes e construir perfeitos casos mal-acabados.
E lá tu estavas no corredor e - meu Deus -, como aquela gente toda conseguia passar sem reparar em ti? Naquele dia tu usavas brincos de argola, e o cabelo preso. Eu nunca tinha te visto daquele jeito, usando aquelas argolas que só eu reparei.
E esse caso mal-acabado me deixava sem saber como agir. Eu queria passar como mais um daqueles alunos que passavam como se fosse um dia qualquer em suas respectivas séries, e nem sabiam da tua existência. Só que eu sabia muito bem da tua existência, e aquele não era um dia qualquer na minha sétima série.
Aquele meu dia não era mais um dia de aula. Era mais até que um dia normal. Era o dia em que eu te vi mais linda que sempre, o dia em que faz com que um primeiro amor seja memorável pelo resto da vida.
O que eram aquelas argolas? Naquela época eu nem sabia que tinham esse nome, achei que aquelas coisas tinham sido criadas só pra Camila. Não sabia nem que depois de tanto tempo, elas continuariam me chamando a atenção inclusive nessa lembrança repentina de ti.
Aliás, não lembro bem o que pensei ali. Acho que até esqueci de fazer isso no momento. Pensar pra quê, se tu estavas ali, ainda me olhando, brincando com minha timidez?
Afinal, era um intervalo da sétima série, e na sétima série eu apenas esperava o futuro que não veio, assim como tu sempre esperavas as aulas naquela lanchonete.

Soneto do Amor Platônico

O amor soturno, sombra em temores
Não sabes que resignas-te em vão
Pelo anjo protetor que conforta noites
E deseja tua serena iluminação

Se choras a solidão, o frio e o abandono
Saiba que meus olhos procuram com fervor
O sorriso onde aqueço meu outono
Mas sequer sabes da existência desse amor

Um coração que se alegra com teu sorriso
E se entristece com tuas lágrimas
Nesse eterno espelho a refletir teu brilho

Uma alma que sofre com duas feridas;
De carregar a tristeza desse amor
E por tu não saberes que és tão querida

O espelho

Eu estava sentado na calçada, descansando um pouco as pernas enquanto tomava mais um gole do refrigerante. Faltavam apenas umas poucas horas pro sol nascer novamente, e todo mundo buscava o caminho de casa. E sempre existem aqueles que mesmo após um show exaustivo procuram outro lugar pra se cansar mais ainda. Pra eles não se trata de canseira nenhuma, claro.
Enfim, sentei-me na calçada e reparei que tinha a moça mais linda sentada ao meu lado, mas não tão perto que alguém nos visse e julgasse que fazíamos companhia um ao outro. Não tentei, e nem tive a intenção de me aproximar dela. Admirá-la já me satisfazia naquele momento. E que fique claro que minha admiração se resumia a poucos olhares furtivos que desviavam dela, caso fossem descobertos.
Nisso, veio um rapaz e sentou-se próximo a ela. Não disse "oi" nem nada, ela tampouco. Mas percebia-se que eram conhecidos. Depois de cinco ou dez minutos de silêncio, para surpresa dela (e minha), ele perguntou:
- Como tá o teu coração?
Ela não respondeu de imediato. Ficou confusa entre entender a pergunta ou achar uma resposta, pensei. Ele percebeu a situação, que me pareceu um tanto premeditada, e continuou:
- Não precisa responder. Na verdade sempre quis te perguntar isso, e sempre imaginei o que tu responderias. Nessa tua extroversão, tu pareces tão misteriosa, teu coração é tão misterioso... não sei o que me deu agora, mas não faço questão que me diga como está o teu coração. Acho que o que eu queria mesmo era te perguntar isso, só. "Como tá o teu coração"... Pra mim, tu responderias se abrindo totalmente comigo, e contando o que te aflinge e o que te alegra. Mas não sei, não faço mais questão disso. Não que tenha perdido a importância, mas vejo que é melhor deixar subentendido. Além do mais, tu sabes que eu sou calado, gosto do silêncio e tal, mas pra falar a verdade, eu odeio o silêncio. O silêncio assim, a dois. Minha cabeça trava num silêncio com alguém do lado, ainda mais você.
Ela olhava curiosa pra ele, acho que ele nunca se comportou daquele jeito. Não, aquilo não foi premdeitado. E ele definitivamente não estava bêbado. Percebi que tentava falar olhando nos olhos dela, mas falhava a cada cinco palavras. Identifiquei-me um pouco com ele. Ou muito, não sei. Na hora não deu pra pensar muito sobre isso.
Não havia terminado ainda:
- Acho que essa minha pergunta foi só pra quebrar o silêncio. "Como é o teu coração", "como tá o teu coração"... O coração não é algo que se revela desse jeito.
- Engraçado, acho que os papéis se inverteram, olha só. Eu, o calado, tô aqui falando mais que devo; e tu, que sempre fala e fala, só me ouve.
Então ele calou-se e engoliu seco. Pareceu se dar conta de que falara demais mesmo. Afinal, seriam eles namorados? Fiquei tentando agora descobrir a relação entre eles.
A essa altura eu tinha esquecido do refrigerante, o qual já havia esquentado.
Ela limitou-se a apoiar a têmpora na mão e a abrir um sorriso tão lindo quanto ela. Era um sorriso maternal.
Antes que qualquer coisa a mais pudesse acontecer, levantei-me e limpei a poeira da minha calça. Ele me olhou pelo movimento repentino que fiz, mas logo viu que não se tratava de ameaça alguma e voltou a fitar o vazio. Eu, fui ao encontro de amigos para ir embora. O que ele queria dizer já havia dito, e o que me interessava eu já tinha ouvido.
Ali percebi que eu não era o único nesse mundo.

2. Um sussurro

Pois assim mesmo eu te mordi, do jeito de comer. É, te arrancar um pedaço e saborear, depois engolir.
(risos)
Mas claro que eu tô brincando, imagina.
(Silêncio muito confortável, e os dois fecham os olhos; ele continua a sentir o morno do pescoço dela, e ela sorri).
Mas te abraçar eu posso, não posso? Oh céus, como eu te amo, que diabos... Ops! Que frase essa, a que eu disse.
Considera só até o "eu te amo", só até o "eu te amo". E não solta não, me dá aqui tua mão.

1. Um suspiro

Um verso mal-cantado. Pelo menos afastam os males, as músicas; ou menos ainda, deveriam. Esse que canta sabe o que diz, e o que escuta já tentou saber ouvir alguma vez.
Não, parece difícil demais saber ouvir.
Sinceramente me pergunto o porquê disso tudo. Uma hora acaba, não é? E depois vem de novo, e outra vez, e sempre é a primeira vez; e por isso não se ouve, nem se aprende.
Cansa, cansa mesmo.
Os que desistiram pareceram pra mim até certo tempo eram esquisitos e distantes. Mas eu entendo-os. Eu não queria entendê-los, mas fatalmente entendo-os. E os nossos desejos também formam o que somos. Apóio-me nessa linha, antes que ela parta.
...Talvez seja melhor continuar com as palavras no vidro embaçado.

Encomenda para a senhorita Denise

É inocência que se mostra em um homem que achar saber sobre as mulheres, ou pior; controlar esse conhecimento. Mas já que ele caiu nessa besteira, é interessante acompanhar o que inevitavelmente vai acontecer, da mesma forma que se acompanha uma novela (que aliás, trata tanto disso).
A categoria do que vai acontecer, naturalmente, depende da categoria da mulher envolvida na história. Não vou me reter citando e comentando cada tipo e categoria; indo direto ao ponto, o tipo mais "produtivo", mais passional (por quê não?), mais instigante, é a mulher - escolhendo bem o adjetivo - retaliadora . Nos mesmos quinhentos, a mulher vingativa.
Só em dizer a "a mulher vingativa" vem à mente uma moça voluptuosa com uma arma na mão, a qual se vê no rosto que não hesitaria em puxar o gatilho. Aliás, ela procura o menor motivo para isso. A diabólica, como eu também gosto de chamar (pois também imagino-a às vezes com cauda de seta e chifrinhos, ateando fogo em tudo o que vê), tira o sono do coitado do nosso amigo, deixa-o à beira da loucura com pequenas armadilhas que se enquadram bem no conceito de "tortura", persegue-o sem precisar sair do lugar ... enfim, um espetáculo que lotaria a casa, e eu pagaria para assistir da primeira fileira. Assistir acontecer com os outros, é claro.
Ainda tem aquelas que arquitetam planos infalíveis de vingança; estas poderiam ser roteiristas de filmes de suspense. A imagem dessas já seria a bela de terno, do alto de seus saltos, e óculos harmoniosamente repousados em seu nariz. Segura ainda uma maleta (quem sabe não é lá que os planos estão guardados?). Causam destruições imensas com duas palavras. As melhores, com apenas uma. Palavras escolhidas cuidadosamente que encaixa como peças de quebra-cabeça na cabeça (quebrada) e no coração do sujeito. Não há quem diga que elas são capazes das mesmas proezas que as diabólicas que incendeiam o circo, já citadas. Essas são sutis, resumindo. Mas realizam espetáculos tão bons quanto.
O homem enrascado nessa teia nunca pôde imaginar que havia tanto mais a se aprender com essas figuras angelicais. Figuras. Se se olhar o lado positivo, existe a esperança de já ter aprendido e não cometer o mesmo erro. Não mesmo.
O final do espetáculo, a novela, ou do filme de suspense se dá quando ela bem entender. A personagem manda na história. Para o bem de quem o assiste, ou o mal do pobre-coitado que se viu vilão do enredo escrito por tão adorável criatura. É, no fim das contas uma criadora/criatura adorável, a qual ele está sempre disposto a cair na trama tecida por ela.(*)

*Final número 1.

Crônica do quarto escuro

O sono não veio. As cortinas abriram-se, e as contrações de quem quer nascer logo são sentidas.
É à noite, e no silêncio que se desenham os esboços e as artes-finais de idéias, aforismos, esperanças, desilusões, teorias e todo pensamento que bater à porta da mente e parecer uma visita de boa conversa.
À noite é quando se ouve melhor, no escuro é onde se sente mais, e o silêncio torna-se audível.As únicas testemunhas desse momento são as paredes que se perdem na escuridão. Assistem quieta e atentamente as projeções inquietas e desconcentradas do protagonista de uma peça que se encerra logo que o sol do dia seguinte desponta na janela.
Enquanto ele não chega, os pensamentos paridos lançam-se sem cerimônia ao ar; e se ainda não estão aptos a voar, caem e se acumulam ao redor da cama, onde esperam sobreviver até o próximo dia. Lá ainda misturam-se às lagrimas e risos, que porventura escorregam, já que foram impedidas de sair na claridez.
E as paredes continuam lá, acompanhando o capítulo da noite. Reverberando velhos e teimosos devaneios que insistem e retornar à ópera. O protagonista é o mesmo de sempre, mas a peça ainda está longe do seu fim. Às vezes ele mira o infinito, quem sabe tentando escapar do brilho ofuscante dos holofotes e enxergar a platéia que se protege nas trevas. Mal sabe ele que a casa está vazia, apenas um aqui e outro ali assistem à exibição.
Depois do parto da ninhada de pensamentos, o gerador repousa seu merecido descanso; o ator fecha as cortinas do próprio espetáculo, e ambos - mesmo que sejam a mesma pessoa - são surpresos ocasionalmente com um teatro de bonecos.
O que importa agora é apenas assistir aos bonecos e quem sabe acordar no dia seguinte com um sorriso inexplicável no rosto.

Balsas

Algumas vezes passamos por experiências que nem sonharíamos que fossem algo de produtivo, ou mesmo algo que traria um adendo à nossa vivência nessa tal Terra. Pois bem, explicando o porquê dessa reflexão, contarei sobre uma viagem que fiz à Balsas há bem pouco tempo. Fui para lá a cargo de proferir palestras, e como prediz a primeira frase desse texto, esperei nada mais do que lecioná-las.
Eis que ao chegar na cidade, vi que a estadia traria algo a mais.
Cheguei às algumas horas da noite de um domingo no que parecia ser uma das principais ruas da cidade, onde havia uma sorveteria e uma pizzaria em cada lado desta. Ah, essa cidade é interessante, sim senhor! As mulheres que povoavam aqueles estabelecimentos traziam um brilho diferente em suas auras, fato que também notado por meus companheiros masculinos.
Incrível como elas movem-se graciosamente, desviando-se com facilidade entre as investidas de seus conterrâneos do sexo oposto, que cá entre nós, acho nem sequer possuem brilhos nas auras; não o digo com certeza, pois quase nem percebi a existência deles. Mulheres de pele macia, e cabelos viçosos; olhos e bocas maravilhosos por si sós, ainda mais deslumbrantes emoldurados por belos rostos. Assiti a tal cena como uma criança em uma loja de doces.
Como sempre existe um "porém", este resolveu dar as caras agora. Infelizmente não pude ter o deleite de poder conhecê-las melhor naquele momento. Nem de ouvir os doces timbres de vozes que pude perceber apenas de longe.
O motivo do porém, de tão banal, não convém à história, bem o sei. Sei ainda que novamente me imaginei a criança na loja de doces, mas uma criança diabética.
Prosseguindo, no dia seguinte - "hora da palestra, afinal". A caminho do auditório, ainda andando pelas ruas da cidade pude confirmar minha primeira impressão. Encantava-me em qualquer esquina com um rosto surgido sabe-se lá de onde. Francamente isso foi um tanto demais para o meu pobre coração que não se adaptou a tão forte sobrecarga. Mas em tudo dá-se um jeito, até mesmo nesse danado. Dizem que ele pode suportar mais do que se pode imaginar. Ali, sem dúvida, seria um bom local para verificá-lo. Maldito futuro do pretérito.
Ah, Balsas, onde até as mulheres feias são bonitas, e até as mulheres que não são feias, nem bonitas, são desejadas. Sei que não estendeste, pude senti-lo. Infelizmente não há outra maneira de colocar a sentença, creio que apenas passando por essa experiência para compreendê-la plenamente.
Gonçalves Dias uma vez disse "não permita Deus que eu morra sem que eu volte para lá". Tenho pra mim que não foram exatamente essas palavras, e muito menos que ele se referia à Balsas, mas pelo que há de perceberes nesse texto, é exatamente o que sinto nesse momento. Se o poeta já não houvesse criado esse verso, acredito que ele brotaria nesse instante através agora das teclas de um computador. E eu voltarei sim, claro, hei de voltar ainda em vida para Balsas. Permita Deus.

Para Mercedes, é claro

Ela me faz sentir um humano incompleto. Não que qualquer humano seja completo, mas dessa essência humana, que por si só é incompleta, sinto que ainda falta-me chegar à essa não-totalidade. É incrível como assim mesmo, ela me leva a achar que posso tornar-me uma pessoa completa (ainda na condição de incompleto).
Simplificando, seria ela a deusa, e eu o religioso. O religioso que aspira chegar à condição de deus, apenas para poder ficar próximo dela.
Nada mais humano.
Ainda a acho inalcançável. Mas pra quê desistir?

*

Agora, a deusa coroada, não confudis. A única coisa que trago dela é a lembrança. Como um Florentino Ariza, aguardo e mantenho os pés no caminho, para enfim alcançar a deusa coroada. A deusa coroada, que não é desde sempre deusa, e os pés, que nem sempre se mantêm no caminho. Como disse, só existe, agora, a lembrança. Como um verso mal-entendido que nos impede de prosseguir no livro. Mas pra quê fechar o livro? e pra quê deixar de ler outros? (Acho que todos temos ou tivemos deusas coroadas na vida; alguns trazem para si o paraíso, outros permanecem humanos.)

*

E se fôssemos a deusa coroada de alguém? Sempre alguém há de nos vir desse modo, assim como nós, os outros. O religioso tornaria-se deus? * É o desejo, afinal, de qualquer um capaz de amar. Existem humanos fabulosos, que vivem como se não fosse humanos, muito menos deus, ou deusas coroadas. Encantei-me por uma quando procurava ser um deus. Foram belos aqueles dias, como são aliás, os dias em que somos encantados por qualquer ser. Os humanos fabulusos encantam, e eu soube então que não encantam apenas a um só. Mas o encanto, esse não se sabe ainda como o desfazer.
.............
Querer ser melhor. Querer criar, talvez um universo; e que seja todo para ela. Querer proteger, e ser protegido, e me proteger. Sorrir em lembranças presentes. Sentir o peito encharcar a dor escorrida.
E ainda mal se consegue falar.

Receita de Chá

Pergunte a alguma pessoa que consideres muito, muito mesmo, o que ela acha de ti. Sinceramente.
Feito isso, não julgue que ela esteja equivocada em algum ponto o qual não concordas, nem que esteja absolutamente correta em um ponto certo.
Então depois de algum dias, ou algumas horas, faça um julgamento.
-
Pergunte a alguma pessoa que não te conheça muito, um conhecido apenas, o que ela acha de ti. Sinceramente.
Feito isso, não julgue que ela esteja equivocada em algum ponto o qual não concordas, nem que esteja absolutamente correta em um ponto certo.
Então depois de algum dias, ou algumas horas, faça um julgamento.
-
Pergunte a si mesmo, não qualquer sujeito, o que achas de ti. Sinceramente.
Feito isso, não julgue que estejas equivocado em algum ponto o qual não concordas, nem que esteja absolutamente correto em um ponto certo.
Então depois de algum dias, ou algumas horas, faça um julgamento.

26.10.07

As pessoas incríveis que chamam "Família, família!" (ou Ode to my family)

Família, meus caros, família. Difícil é a vida de quem não tem uma. Eu, apesar de não demonstrar direito, me impressiono e me fascino freqüentemente com a minha.
Não a família toda, primos, avôs, tios e todos os galhos árvore genealógica, falo da família que convive comigo. E não que os outros ramos da árvore não tenham valor, mas é do convívio diário que se percebe a importância daquilo que temos. Creio que todo mundo acha a sua simplesmente a melhor e com algo especial. É um pensamento besta, mas eu penso assim também. Minha família tem algo à parte.
Meus pais: pense em dois sujeitos que eu não consigo traduzir o quanto admiro eles. O pai, de quem peguei o nome emprestado, tem uma história de vida que merece sem dúvidas um registro biográfico. Só para constar aos desconhecidos, meu pai nasceu em Jaguarana, interior de Caxias, um dos onze (eu acho) filhos de um lavrador e uma quebradeira de coco. Hoje é diretor de redação de um jornal da capital que ele talvez nem pensasse em conhecer. Que upgrade, hein, Seu Borges?
Papai tange a vida de maneira invejável; tange-a tão bem, que chega a parecer que a vida o leva consigo, e não vice-versa. Como um vaqueiro que tange o gado sem precisar de bastão, chicote, nem cachorro, nem nada: o gado simplesmente sabe seu curso. Tem um dom especial nas suas relações com as pessoas, e ama cada filho de forma especial. Assim é meu pai.
A mãe, quem eu chamo de "sióra" ou dona Elda, vejo-a como a Úrsula de Cem Anos de Solidão. Põe a ordem na casa, e simplesmente estaríamos todos perdidos sem ela. É a mãe, oras. Ela quem marca as consulta dos filhos, quem impõe os limites, quem diz que estamos gordos ou magros, quem se preocupa, e quem tem o famoso sentido sobrenatural dado às mulheres assim que dão à luz o filho. E é pra ela quem eu peço conselhos quando a vida me aperreia o juízo. E a pouca altura que Deus lhe deu, creio ter sido para que os filhos a vissem como uma amiga, uma pessoa próxima - a menos que suba no salto. Ou que o exiba ameaçadoramente na mão se fizemos algo errado.
Bruno, se não fosse meu irmão, juro que não ia conhecer ele nunca na minha vida. Talvez, no máximo de vista. E possivelmente, eu não iria concordar com nada da personalidade dele. Sabe o bon vivant? Aproveita a o aqui e o agora ao máximo, mas não liga muito pro futuro nem pro passado? Assim é o sujeito que me influencia massivamente. Admiração de irmão mais novo. Analisando num acesso psicológico, o Sensing da personalidade dele (ISTP) complementa meu Intuitive (INTP). Ou seja, o pé no chão dele completa minha cabeça nas nuvens. E embora possua o eixo "ST" e não "SJ", o torna um guardião tal qual minha mãe, e protege todos seus queridos como um pai protege o filho.
E minha irmã. A irmã mais nova. Eu poderia continuar a explicação na psicologia analítica e analisar nossa relação, mas colocando em pratos de plástico, ela é sentimento e eu, razão. Por isso às vezes enchemos o saco um do outro. E eu faço questão de atentar a paciência dela sempre que posso. Talvez seja minha forma de dizer "estou aqui pro que der e vier". O sentimento de Juliana me faz tentar entendê-la em cada ação, fato que não consigo e me deixa sempre curioso. Como um quadro em que todos os dias se descobre um novo e belo detalhe. E isso me faz admirá-la tanto, e talvez ela nem imagine isso.
Agora fui prestar bem atenção ao título: Pessoas Incríveis. Lembrei da família da animação "Os Incríveis", conhece? Pois é, mais ou menos por aí: superpais, superfilhos. Se bem que lá só tinha dois filhos. O terceiro é o que assistiu tudo pra contar no blog.

20.10.07

As histórias de Dagoberto - Parte 1

Enquanto eu tava tomando uma cerveja sentado na mesa da calçada do bar, o Dagoberto me volta do banheiro com a idéia mais maluca:
- Ricardo, olha só o que eu tava pensando: vai que eu esteja no banheiro, tranquilo, e tal, e me chega uma nifomaníaca linda e me "força" a deixá-la fazer sexo oral em mim. Entendeu? Ela tipo me rende e começa o serviço... Eu fico pensando, pô, em algum lugar do mundo isso deve acontecer; já deve ter acontecido! Quem sabe esteja acontecendo nesse momento!
- Mas que sacana de sorte, que diabos! Por que as probabilidades mais ínfimas não acontecem com a gente? Tem que ser com outra pessoa! Que droga, fiquei com inveja desse cara agora...
Eu, surpreso, mas nem tanto, com a história - afinal, era o Dagoberto, e dele se pode esperar esse tipo de conversa -, tentei analisar a situação proposta, mas tive que comentar antes:
- Dagoberto, meu filho, o que diabos tu tá falando? Presta bem atenção, te coloca como ouvinte do que tu acabou de falar: Tu me chega aqui com essa história doida, e ainda fica indignado com uma situação que tu mesmo criou, e nem na tua imaginação tu te deu bem!
- O negócio tá brabo! Isso é falta de mulher, rapaz? - Até onde eu sabia, o Dagoberto tinha um bom relacionamento com a namorada, falei pra curtir mesmo - Haha, tá bom. O que tu quer que eu fale sobre essa tua história?
Ele caiu em si e tomou um gole da cerveja e se calou, depois de ter solto um "sei lá".
Dagoberto é um bom sujeito, gosto dele. De vez em quando tem esses "insights" meio fora de contexto, mas que pra ele faz o mais perfeito sentido. Eu acho até interessante isso, de viver nas idéias.
- Mas tem alguma mentira no que eu falei? É perfeitamente possível o que eu falei, não é? - Emendou ele.
Era possível mesmo, tive de concordar.
Quem sabe a loira que acabou de passar dirigindo um sedã fosse a tal nifomaníaca. Pelo menos linda ela era. Mas não falei nada pro Dagoberto, tenho certeza que ele ia demorar pra sacar a ironia.

Meus queridos natimortos

Meus queridos natimortos,

Pena vocês não cruzarem vida de ninguém; só hão de existir na minha lembrança agora. Queridos, a espera é igual para todos nós. Vida e morte. Só resta-lhes agora esperar a imortalidade dos seus irmãos.

Saudades, Júnior.

7.10.07

Letras minúsculas

Eu não sei escrever cartas de amor. Eu não sei nem demonstrar amor. Relações são sempre complicadas. A nossa começou nem lembro como, não é da infância. Mas o que parece é que somos desde crianças ligados, como dois pequenos que sempre jogam no mesmo time de rouba-bandeira. Como na música da Alanis, "Joining You".
E infantil mesmo é a nossa relação, parecemos duas crianças que disfarçam a todo custo os sentimentos, porque... sei nem porque. É como o guri que vive atentando a paciência da menina, só pra chamar a atenção dela, e quem sabe, por algum milagre, ela perceba nas brincadeiras sem-graça o significado real delas.
Nós nos comportamos assim, e não somos crianças. É só te ver citando versos de músicas em inglês carregados de romantismo, a ponto de serem bregas. Mas o inglês tira o impacto inicial da mensagem, e quem sabe, a intenção de quem a repete. É só uma música, afinal.
Por quê esconder? Eu não entendo isso. Não mesmo.
E mesmo sem entender, confesso que faço isso também. Às vezes me calo esperando que tu fale comigo; às vezes rasgo elogios para outras mulheres que nem me impressionaram tanto, só para ver tua reação - algum ciuminho reconfortante e outras bobagens do gênero. Mas se eu me calo, tu te calas; e se falo de outras, tu permanece indiferente. É um jogo que conhecemos bem a regra, e que, em uma dessas citações bregas, "para ganhá-lo, é preciso perder".
Seja verdade também que eu odiaria te ver com alguém, e eu sei o quanto te incomodou saber que conheci alguém realmente interessante e nunca te falei sobre. Pois isso signifaria termos de seguir nossas vidas, mas um para cada lado, e não é isso o que queremos. Seguir, senão a vida, mas alguns bons dias, será bem melhor estando nós dois no mesmo time de rouba-bandeira.

15.9.07

Cinco da tarde

1. Ele embarcou no ônibus e se pôs a ler sua revista, daquelas revistas de heróis americanos. E já não era mais nenhum adolescente, mas um homem barbado - barbado mesmo, sem força de expessão. Um homem jovem, beirando os 30. Usava óculos de lentes grossas e armação quadrada e fina. Não era desses óculos de armação grossa plástica que alguns usam para aumentar a inteligência; ele usava os óculos por necessidade mesmo. E usava-os agora para ler sua revista, alheio do mundo. Capitão América, talvez.
Tinha a introversão estampada no rosto. Na minha cabeça, deduzi que fosse estudante ou recém-formado de algum curso das Ciências Exatas. Algo relacionado a informática, se me permite o palpite. Pois, estava ele sentado próximo à janela, enquanto os outros passageiros buscavam os últimos assentos livres.
Então sobe uma moça, mais ou menos da mesma idade - quem sabe uns meses mais nova. Escondia os olhos atrás dos óculos escuros. Era esbelta, com cabelos alisados; tinha a aparência padrão das moças de classe média. Não era bonita, mas vaidosa, enganava os desavisados. Parecia uma jovem viúva, embora usasse blusa vermelha com calças jeans escuras. Muito séria, ela. E já que falamos de um suposto curso para o rapaz, falemos para a moça também. Odontologia lhe cairia bem.
Não percebi se havia algum outro assento livre no ônibus, mas aconteceu que o que estava ao lado do nosso míope estava livre, e então, o que já se poderia deduzir ocorreu: a jovem não-viúva sentou-se ao lado do adolescente-adulto. Ora, fato mais trivial em um ônibus é o de pessoas desconhecidas sentarem próximas umas às outras, e não importa a duração, elas sempre seguem o rumo de suas vidas no fim da viagem. E de fato, o par ali formado era apenas mais um entre tantos outros. Ele lia os quadrinhos e não se importava com mais nada; ao passo que ela imergia nas preocupações, enquanto descansava os olhos na paisagem da janela.
Mas eram cinco da tarde, e nesse horário é possível olhar para o sol sem machucar os olhos. Os dois intuitivamente olharam, então, para o sol que pintava o céu no fim da tarde. Ele então percebeu a presença da moça, e virou-se para ela.
Às cinco da tarde também é possível ver os olhos escondidos atrás de lentes escuras, e ele olhou os dela. Ela de início rejeitou tal atitude, e o ignorou. Mas ele que insistisse, ela acabou por ceder à curiosidade que mora em nós sempre que somos alvos de algum par de olhos, e um sorriso curto apareceu-lhe nos lábios antes que ela pudesse evitar.
Odontologia? Acho que não errei. Conversas e risos encabulados, e claro, alguns minutos de silêncio que os faziam desesperadamente procurar um novo assunto para retomar a conversa e a companhia naquele ônibus.
A parada em que ele desce já estava há muito para trás. Nas mãos do moço, a revista fechada e dobrada em cilindro. Eles são bons em achar assuntos. Ele chegava a gesticular em alguns momentos. Enfim, decidiu descer duas paradas depois da dela. Pra despitar talvez - que bobagem. Depois que ela havia descido ele ainda conservou um sorriso teimoso.
Eu desci onde deveria e segui meu caminho.
Semanas depois, ainda o vejo algumas vezes no ônibus, ela um pouco menos, mas ainda a vejo. Nunca mais juntos. Sem a barba, sem os óculos escuros.
Sentem falta das cinco horas.

18.8.07

As tardes e os navios

O vento me incomodava, é verdade. Mas eu não cansava de ir todo fim-de-tarde observar aqueles dois admirarem os navios no horizonte. Era meio mágico, sabe? Não gosto muito da palavra "mágico", mas é o que aquilo parecia de fato. A praia, o sol poente, os navios inalcaçáveis, e os dois acompanhados apenas de suas longas sombras desenhadas na areia.
Não me coloque nessa conta. Eu era, digamos, o pintor desse quadro. Além do mais, o vento me incomodava um tanto. Não a ponto de me expulsar dali, mas incomodava. E o incômodo não era algo presente naquele momento. Nem pro sol, nem pros navios, muito menos praqueles dois. Ora, então eu fingia que não me incomodava também.
Engraçado era que sempre havia navios pra serem observados, e vez ou outra um dos dois apontava pra algum detalhe que eu ficava tentando achar. Outra coisa intrigante era que eles sempre chegavam antes de mim. Eu também não fazia questão de chegar antes. Mas que me intrigava, intrigava.
O melhor era quando eles levantavam de repente pra correr um atrás do outro, chutando a água. Ou então riscavam a praia inteira com aqueles vegetais com forma de pincel que a maré traz. Uma vez riscaram tanto, que o mar se atrasou na tarefa de apagar tudo durante a noite, o que surpreendeu os dois e eu no dia seguinte. Eu gostava mais dos dias assim.
Anos e anos nisso. Depois de alguns, apenas uma pessoa continuou a compor o quadro, e essa já não apontava mais, nem escrevia, nem corria. Às vezes passava minutos esquecida de que estava ali. Pra mim ainda era um quadro, e ainda tinha sua beleza, mesmo já sem aquelas duas pessoas e suas sombras. Uma sombra só não dava conta de cobrir a área que as duas cobriam.
Daí a sombra solitária daquela pessoa pareceu perder a cor; e os navios já eram mais tão freqüentes. Apenas o vento era o mesmo. Insisti mais uns meses naquela cena, mesmo com o vento.
E no primeiro dia em sete anos que não houve ninguém, senão eu, na praia, o sol julgou melhor esconder-se nas nuvens e tentar de novo no outro dia. E os navios finalmente chegaram em seus destinos. As sombras, creio terem embarcado nos navios.
Pois, isso era basicamente o que eu fazia nas tardes do meu octagésimo primeiro ano de vida. É, o vento me incomodava.

17.8.07

Baixo-falante

O baixo-falante fala por si só, poderia ser um autofalante. Mas não é essa a sua principal característica. O baixo-falante fala por si só, entretanto fala baixo. Quem reparar direito verá que ele sempre emite suas mensagens. Em meio a tanto barulho, as ondas emitidas pelo baixo-falante são perdidas. Ou refletidas.
Ora, sente-se perto do baixo-falante e ouvirás o que ele diz. As consonâncias e dissonâncias. E de tão baixo que fala, tenha certeza de que ouviu todas as notas. Isso, meu amigo, pode mudar totalmente o teu entendimento.
Talvez seja melhor ter um alto-falante? Suas ondas são ouvidas por todos, e menor atenção é requerida. São ouvidas, mesmo quando não são desejadas. Mesmo quando sentimos dor-de-cabeça.
Com suas polegadas, o baixo-falante talvez emita ondas além da audição humana. Ou aquém. Ele não se importa, é apenas um objeto destinado a emitir suas mensagens. Mensagem que talvez apenas uns alto-ouvintes possam ouvir.
O baixo-falante, não esqueça, será sempre falante, e falará sempre por si só.