23.1.15

Incêndio

Um fogo desastrado e errante percorria todo o chão, ameaçando a mobília e as cortinas. Eriçava-se o vento. Explodia nas janelas, oferecendo as cortinas e as pequenas coisas ao acaso. Ele continuava ali, sentado na poltrona, pescoço e mãos fundidos ao móvel, comprimido pela escuridão. Ladrava pesadamente o cão para sua sombra, que fugia de um lado a outro na parede ao fugir das chamas. Cantava em algum lugar da sua vaga cabeça uma lenta música sobre o irremediável. Um pé secretamente tapeava o andamento da canção. Um, dois, três, quatro. A mandíbula do cão movia-se com mais velocidade do que poderia acompanhar naquela luz bruxuleante. O calor o envolvia, o perigo estava além. "Corta o caminho, impede o retorno... martela o vidro nascido no fogo..." Um, dois, três, quatro. A mesa cedeu uma perna para o monstro flamejante. O vento estapeara três vasos para o chão num só arroubo. O cão agora latia raivosamente para a janela. Aquele animal não sabia para onde ir. De certa forma, nunca soube. Por que tão desesperado agora? A madeira da mobília agora claqueava confortavelmente no fogo. Talvez seja o toque de marcação de quando tudo começa a se desfazer. Detritos vagalumeados festejavam por todos os lados, silenciosamente. A música permaneceu constante e irrefreável. Um, dois, três, quatro. O vento engrandeceu. O vento engrandeceu o fogo. Homem de lata paralisado. Ora, com um pensamento paciente percebe-se que o esfacelamento de algo é o engrandecimento de outro. Até o cão engrandeceu no seu pavor. Ele por outro lado estava impassível em seu estado quase meditativo. O pensamento rareava conforme os minutos passavam. Ansiava, porém, por algo. Sentiu as chamas atingirem seus pés ainda mansamente compassados. Era bom. Não o assustou. A lata não era combustível perfeito, pelo contrário: alimentava-se do calor. Pouco a pouco subia o metal do seu corpo, embrasando-o. Sentia o calor atravessar a pele, sentia a vida emergir do caos e convergir no seu corpo.
A música parou. Levantou-se.
Ainda estava em chamas. Era um pequeno sol no centro da sala. Deixou de sentir seu natural frio metálico, reverbérico. A casa não emitia mais os suspiros, passos e cochichos formidáveis anteriores ao incêndio. O vento aplaudia as janelas contra a parede, o cão empurrava a porta de saída próximo ao sucesso, o fogo... Engrandeceu. Sentiu a vida ofuscante, o brilho minar do seu corpo. O som quente dos estalares. Fechou os olhos e limitou-se a sentir. Era agora inteiramente o ato de sentir. Apetite inflamado. Medo animal. Desgoverno ventilado. Ardia o coração.

6.1.15

Triangulando alguma evolução

Ali, no vão de um espaço absoluto, I dançava incessantemente os braços no ar enquanto fitava um ponto fixo adiante. Abaixo dele, alguma curiosa. Em sua frente, algum alheio. Dignamente atrevida, a empreitada se deu de surpresa. Até ao próprio I; decidiu por realizá-la nos poucos minutos antesequentes, para inflar(-se d)a súbita resolução em fazer algo de sua vida, qualquer coisa, qualquer coisa. Havia gasto tanto tempo estancado... poça d'água parada e perniciosa. Romper essa inércia foi mister tão logo  percebida paralisante. Agora alçava voo ali, entre dois prédios. Não houve noticiamento do fato, nem se percebeu seus preparativos. Da geração antiga dos prédios do Renascença, os dois edifícios comerciais apresentavam um acesso fácil a qualquer um que se apresentasse como cliente destinatário a algum escritório locado nestes e mudasse o rumo como bem entendesse. Assim I o fez. Sentia algo de criminoso, algo de um heroísmo pessoal. Fazia-o pelo desafio, para sentir o balançar da fita seguir à sua vida. O desafio de cumprir um simples trajeto retilíneo era totalmente revertido quando se estava a metros e metros de altura, numa frágil fita. A vida não é linha reta, e se alguma palavra pode caracterizá-la honestamente é a instabilidade. O pé articulava-se com tanto controle ao pousar na fita que lembrava uma lagarta ondulando. Agora, tentando não se importar com o vento que espalhava o suor por sua pele, I esforçava-se em esvaziar a cabeça. O esforço de não pensar em mais nada era crucial, e por isso, cruel: I era zombeteado por tudo que queria ignorar. Já avançava uns bons dez passos. Braços abertos como uma cruz, pernas vacilantes como numa dança, barriga enrijecida como uma parede, pele molhada como em chuva, olhar fixo adiante...


Quanto vento. Não tem como parar agora. 

 


Onde olhar? 
Devia ter avisado alguém disso. Não desse pessoal embaixo, mas alguém lá de casa.



São só pensamentos. Não se fixe em nenhum.

Será que já sabem? será que tem TV lá embaixo? Por que eu me importaria com isso? Não é meu propósito chamar a atenção (será mesmo?).



Vêm e vão... vêm e vão. Olhar adiante. Naquele cara...? O que poderá uma pessoa  fazer a uma hora dessas ali? Eu hein.

Respira. Cada músculo sob controle. O cara pode esperar. Já tô na metade.
É impressionante como o pensamento se gera rápido. E morre rápido. Quando eu tento acompanhar, me perco.

...


Recostado na casa de máquinas do topo do prédio destino de I, P recolhia a cabeça entre os braços e joelhos. Estava perdido, ansioso, destacado. Perdia a disposição nos segundos do tempo, e os pensamentos embaralhavam na cabeça. Estava fechado a tudo e alheio a certa empreitada em percurso. Se alguém o perguntasse, diria que estava exausto; não era a palavra correta, mas uma analogia sensorial aproximada do que estava a bagunça de seu ser. Ele sabia disso, e até entretinha-se procurando a palavra exata para cada situação. Agora, em meio à corrente e contracorrente, não tinha ânimo em caçar palavras e nem mesmo se importava com isso. O que importava, não sabia mais e era isso o que o incomodava. Poderia dizer que era a família opressora, o relacionamento descarrilado com B, ou qualquer clichê, mas nada disso era verdade. Não tinha também a intenção de se jogar dali (outro clichê), nem de acabar com a vida. Pelo contrário, queria desafiá-la. Estava ali pela busca de um lugar sossegado e aberto. Queria que o sossego permeasse a cabeça inundada de pensamentos soltos. Talvez estivesse apatizando como um inseto prestes a virar pupa. Respirava com dificuldade mantendo cabeça baixa. Braços e joelhos cerrados como gaiola, cabeça densa como uma pedra, ombros soltos como cordas, olhar vidrado adiante...

Aqui nesse lugar longe de tudo, aqui nessa cabeça longe de tudo... (acho que essa não seria hora de fazer poesia).


Nem graça.



Essas coisas saem tão espontâneas...


Por que as coisas haveriam de mudar comigo (e emigo) aqui em cima?



Aqui em cima tá tão ventilado. Me faz sentir um pouco bem. Me faz sentir culpado por me sentir bem, talvez não esteja querendo isso. O que eu quero?


B trabalha aqui perto, se ela aparece (não!), o que eu digo?

Devia ter trazido um caderno pra rabiscar, me achar um pouco. 

 


Quanta ponta solta, queria mesmo atar cada fio de pensamento e seguir tranquilo meus dias. 




Respirar. Essa posição tá me fazendo mal, mas não quero mudar. Respira fundo. 


...

Sentada na calçada, B impressionava-se com a peripécia do I. Parecia um pássaro contra o céu quente do meio-dia. Não o conhecia, mas imbuiu-se de empatia por ele, pela sua luta. Ele estava tão longe, sentia-o tão perto. Dava pra perceber que fazia aquilo por um desafio a si próprio, nada além disso. Não chegava a ser um ponto, mas sim um vulto lá no alto, bailando leve como pluma e  vento. O prédio não era tão alto assim. Apesar de leve, B o enxergava numa controversa atenção, similar aos bailarinos que concentram-se em sorrir descontraidamente durante o número. B tentava não pensar tanto no que sentia e apenas apreciar aquela aventura. Alongou o pescoços para os lados, cansado de estar curvo há tantos minutos para trás. Fechou os olhos enquanto fazia isso, sorriu e se imaginou lá em cima. Não se importava com os outros que também estavam assistindo ao equilibrista; tampouco os outros a notavam ante algo tão notório acontecendo acima. Para ela o dia havia melhorado consideravelmente, quiçá o mês; sentia-se agora muito bem, nessa interrupção inesperada do seu horário de almoço. Esticou-se e deitou na calçada que, pelo menos nessa área da cidade, era larga o suficiente para isso. Manteve as pernas dobradas para cima e os pés encostados na sarjeta. Mãos na cabeça como uma almofada, braços abertos como uma borboleta, sorriso nos lábios como uma criança, olhar atento adiante... 



Como pode, né? Cada doido nessa cidade... e que doidice legal!




Será que se importam de que eu fique deitada aqui? E se alguém do escritório me vir?

Ele parece tão sério daqui... Será que alguém aqui conhece? Talvez eu deva me inscrever numas aulas de dança. Acho que vou fazer isso ao sair daqui. Senão perco a coragem. 





É maravilhoso termos a capacidade de contágio de vontade, sentimentos, mesmo assim, tão distantes...

Acho que vou me atrasar na volta pro escritório. Vai lá, cara, estamos juntos nessa.


...