24.6.09

Versos para a bailarina ladra

Bailarina furtiva
Invadiu-me casa
na ponta dos pés

Trouxe o hálito da noite
E folhas para o tapete
Com um sorriso cerrado
Rodopiou porta adentro

Silenciosamente
Passeou por dentre a louçaria
Trilhou o carpete
No topo das ponteiras

Fouetté
Os grilos cantavam a valsa
A noite brilhava ao palco
Bailarina furtiva

Sorriu para o reflexo na tv
Saudou as poltronas
E girava a cada vez
Que sentia o silêncio
Dos porta-retratos

Madrugada
Num descuido qualquer
Não entreviu o aplauso
Do expectador insone

No alarme teu, bailarina
A sopeira foi ao chão
Destruiu o silêncio e a porcelana
E o espetáculo foi ao fim

Fugiu perdida, trôpega
Deixando-me na questão
Se era sonho ou divina realidade
Imagine, uma ladra dançante

Os cacos no chão
Meu coração na mão
Pedem que ela volte

23.2.09

Ataque Cardíaco

Dia desses, sem mais nem menos, Sabirá me chega alterado, disparando palavras sem o mínimo cabimento. Estava chateadíssimo, irritado com algo que no momento não pude discernir a natureza. De tão nervoso que estava, embargava a voz de modo que eu não pude entender nada; sua ânsia ultrapassava a capacidade de algum tipo de comunicação comigo.
Entretanto, notei que Sabirá realmente estava agindo de forma estranha por esses dias, mas confesso que não me importei muito com o caso. E posteriormente fui entender que justamente foi o descaso o estopim para falatório. A indignação chegou a tal ponto que pensei que, já que não pôde se expressar verbalmente, Sabirá fosse me machucar fisicamente. Felizmente não foi o caso; o Sabirá enfim conseguiu conectar as palavras e me disse:
- Parou, parou. Acabou. É sério. Que droga, tu não dá a mínima atenção pra cá, pra onde eu tô, pras coisas que eu faço, ah, não; falo e falo e tu não ouve! Tá certo, eu sei que existem pessoas desligadas, mas isso já é demais. Como se o que eu te falasse fosse te levar a algo humilhante, ou danoso, ou qualquer coisa que não seja boa; mas não é, não é! O que eu te digo é única e exclusivamente pro teu bem, nada mais que isso. E tu ignorando. Diz que estou errado, e sei lá quê mais, essas tuas coisas sem cabimento. Não sei o que eu te fiz.
- Sabirá – interrompi o discurso tentando ser o menos incisivo possível –, vamos lá: respira. O que foi?
- É isso, não ouviu? Acho que não, né.... não sei porque ainda pergunto. Aliás, não sei por que ainda tento te explicar alguma coisa.
- Escuta, eu já percebi que tu estás chateado por causa da minha falta de atenção contigo, e tudo o mais - peço desculpas até -, mas para e pensa o que acabou de acontecer aqui: tu acha que isso tudo tem muito sentido?
- Que sentido?! Lá me vens tu e a danada dessa razão! Não pare e pense, apenas pare de pensar!
- Eu não consigo! Só em tu falares isso, já me faz pensar!
- Então fica aí pensando, eu já vou indo.
E foi mesmo. Desbocado, esse sujeito. Sai falando o que vem à telha, depois estranha porque às vezes não considero muito o que ele diz. Vez ou outra tenho meus desentendimentos com ele, mas sempre o considerei muito. O pior é que, apesar de ter feito esse discurso todo contra a razão, ele tem alguma. Tenho que parar com isso de pensar demais. Devia ter dito isso pra ele, mas acho que não é a melhor hora. Melhor deixar o ânimo de Sabirá esfriar um pouco, e então vou pensar num jeito de voltar ao assunto com ele. Esses ataques do Sabirá me fazem ficar um tanto desconcertado. Sempre fico pensando no quanto preciso dele.