O sujeito do andar de cima está arrastando os móveis mais uma vez. Acho que já devem ser umas onze da noite, mas ele insiste em manter esse hábito de arrumar, creio eu, a sala nesse horário, toda quinta-feira.
Deve morar sozinho, como eu. Penso se ele também prepara apenas pratos refinados, como eu faço. Jantares e almoços solitários que não são refinados por vontade, mas por necessidade - os editores deveriam saber que algumas pessoas que compram revistas de culinária querem saber apenas comida básica para o dia-a-dia, e não risoto de macarrão ao molho búlgaro.
Ao andar de cima, poucos vão, eu mesmo fui raras vezes. A vista de lá permite ver o que não é visto dos outros andares. O parque atrás do estacionamento, onde casais bricam no meio da noite; na rua se vê meninos roubando bolsas de executivos, valises de crianças e doces de senhoras, dentre outros crimes que ninguém observa; a mulher quem realmente amo, apenas a vejo passar quando estou porventura no andar de cima, nunca no meu.
O sujeito do andar de cima me engana sempre que o vejo, faz um gesto tão sutil que nunca chego à conclusão se é um cumprimento ou apenas minha imaginação. Tem minha idade, mas não cuida da aparência. Pudera, nunca o vi fora do prédio, nem saindo, nem entrando. Apesar da aparência envelhecida, ele tem minha idade, e isso é uma certeza que me foi embutida desde a primeira vez que o vi.
Ele continua a arrastar os móveis, e já são onze e quarenta e cinco. Mas ele arrasta os móveis nalguma melodia estranha. Alguma melodia fora do nosso sistema musical. O ritmo é bem marcado, e fato esse que fico com sono quase toda onze da noite de quinta-feira, o que quer que eu esteja fazendo. Às vezes penso se não é um ensaio, ou que ele talvez seja um inventor de instrumentos musicais. As paredes do meu apartamento ressoam em uma frequência silenciosa e confortável, e lá no térreo as crianças bricam com os pingos metálicos que caem do andar de cima. Riem bastante, misturando as risadas com o vago som de cítara das paredes.
A quinta-feira dura até a meia-noite, e tudo acaba assim que o primeiro minuto da sexta-feira se exibe nos relógios. Então, ligo a televisão e me pergunto se o sujeito do andar de cima também está assistindo ao canal de culinária, ou algum programa de bricolagem. Sabe, quem mora só precisa assistir a essas coisas.
quarta-feira, 14 de novembro de 2007
O subconsciente
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6 comentários:
deve ser mesmo, acho que essas carinhas expressam muito.
Crônica do quarto escuro e o espelho, gostei bastaante :d
preciso de um tempo pra te acompanhar...
to lendo os outros textos que perdi.
hahaha :*
gosto muito dos teus textos, ainda mais como descreve as pessoas, principalmente as mulheres :)
ai, mundico, tu é um artista. Tem sempre algo de banal, misterioso e reflexivo nos teus textos...
Fora que tu escreve muito bem!
Pq tu não fez letras? ou jornalismo?
Às vezes os blogueiros ganham leitores por uma única frase e tu ganhaste uma por essa aqui:
"(...) O parque atrás do estacionamento, onde casais bricam no meio da noite; e na rua se vê meninos roubando bolsas de executivos, valises de crianças e doces de senhoras; (...)"
És um privilegiado por conseguires produzir narrativa tão bela quanto essa. Parabéns!
[ah, sou amiga de Letícia Carvalho ;)]
;**
cara... muita gente quer morar só, mas dps que consegue muda de idéia, deve ser muito solitário...
deve ser bom morar com os amigos...
hehehe
muito bom o texto... leve e aconchegante...
abraços
Ou Polishop, quem sabe. É um bom programa pra se assistir sozinho, e depois da meia noite.
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