7.12.08

Sobre as aves-do-paraíso

Conta um pai à filha:

- Quando eu era pequeno, do teu tamanho, papai uma vez me levou a uma feira que tinha ali perto do campinho, e que hoje não existe mais. Tinha venda de tudo: pedras vindas com os trovões, bichos que se alimentavam de vento, tecidos trançados a partir de gemas preciosas, remédios contra a saudade, quadros vivos, vagalumes para se colocar no cabelo, e tantas outras coisas. E claro, tinha o usual, temperos, galinhas, roupas, peixes, e tudo o mais.
- Eu andava fascinado com tudo aquilo - às vezes quando passo pelo campinho, lembro desse dia. Fazia um certo calor, mas não me incomodava, e eu sei que o calor também não te incomoda, deves ter puxado isso de mim. Havia também muito barulho de gente gritando, animais cacarejando, outras crianças correndo, outras carregando as compras para as madames, enfim, a feira pulsava no apogeu de cada dia.
- Mas sim, aonde quero chegar: teve um momento em que eu, distraído com uma caixa cheia de humaninhos, perdi da mão do pai. E enquanto fui procurando por ele pelos corredores da feira, e tinha tanta coisa a se prestar atenção, que de súbito, em minha frente, revoou um bando de pássaros de cores todas em cada um. Fiquei um tanto estarrecido do susto e da beleza, e acompanhei-as com o olhar até sumirem em vários pontos diferentes. Voavam algumas apressadas, outras apenas planavam com poucas batidas de asas, até sumirem dentre as árvores que tem até hoje perto do campinho.
- Surgiu então um sujeito meio gordo ao meu lado que disse que aquelas eram aves-do-paraíso. Pensei que tinham esse nome por serem tão bonitas, mas ele explicou porque elas tinham esse nome. O inicío da explicação foi uma pergunta: 'reparou nas patas delas?'. Respondi que não, que eu só tive tempo de ver quantas cores cada uma tinha. Ele explicou contando que elas não tinham pata alguma, os únicos membros eram as asas. Já imaginando minha dúvida, continuou a explicação. Disse que por isso elas eram do paraíso, por nunca pousarem. Voam sempre, e que talvez fosse até aves divinas, tendo contatos apenas passageiros com a terra. Continuou explicando que elas colocam os ovos sobre as costas das outras durante o vôo, e assim servem de ninho umas às outras até que o pequeno pássaro tome conta de si.
- 'E por que elas estão aqui?' perguntei. Meu pai chegara há pouco, e, já na intenção de repreender-me por ter solto da mão dele, desistiu da idéia (ou esqueceu) ao ouvir o que o homem gordo contava sobre as aves-do-paraíso. O homem finalizou a história contando que aquele bando aparece por onde quer que ele vá, sempre ao meio-dia, há pouco mais de vinte anos. Tendo dito isso, papai tomou minha mão novamente e despediu-se do homem. Fomos comprar vinagreira em uma outra barraca, e de lá, rumo de casa.
- Durante o caminho, meu pai falou que essa foi a história mais besta que ele já tinha ouvido, e que história por história, prefere a da raposa, que ele me contava sempre - e que eu já te contei também, mocinha.
- Pois é, essa é a história que eu tinha pra contar hoje. Amanhã te conto o que realmente são as aves-do-paraíso.

E beijou em boa-noite a filha. Ao sair da margem da cama, o pai teve a intenção controversa de não contar que as aves-do-paraíso são na verdade pessoas tão iguais a ela, a filha, que nascem do céu e no céu, que são alheias ao mundo, que trazem todas as cores em si, e que até levam outras pessoas todos os dias ao paraíso. Eis o que ele tinha sobre as aves-do-paraíso.
Mas no dia seguinte planejava inventar outra história para filha, porque saber das aves-do-paraíso é mais sonhativo quando se tem os pés na terra.

11.10.08

Doença e cura (II)

2.

(poderia ter quarenta anos, poderia ter cinquenta, poderia ser católico, poderia ser ateu, poderia ter dois filhos, poderia ser filho único, poderia ser corretor, poderia ser prefeito, poderia morar na periferia, poderia trabalhar no centro, poderia ir embora, poderia pedir pra que ninguém fosse, poderia, poderia. mas não podia)

Alguns dias depois deparei com um sujeito fitando a imagem de Nossa Senhora que ficava no corredor que desemboca no balcão de admissão de pacientes. Reconheci como sendo o filho de uma senhora que também aguardava ser operada naquela semana.
Armava as mãos na cintura e repousava olhar perdido nos olhos da estatueta. Quando os pensamentos tiravam-lhe os pés do chão, o olhar estancava numa única direção indefinida no sentido à imagem; quando era reconectado à realidade, passava a analisar cada detalhe da vestimenta da santa, e a observar as cartas que se acumulavam ao pé de Nossa Senhora. Talvez imaginasse o que haveria nelas. Além disso, havia algumas fotos três por quatro anexadas às mensagens.
Agora dependia da estatueta sorridente de Nossa Senhora para enganar o medo de perder a mãe. Procurar quase desesperadamente um detalhe novo a cada segundo, isso mantém a mente ocupada. Religião, não, ele não era religioso. Suplicar por amor, rebaixar-se ante alguém ou algo, isso é para os submissos por natureza, não ele.
Mas aqueles quarenta centímetros de gesso instigavam-no a não pensar assim. A mãe dormindo no leito e ele ali, no corredor, conversando sozinho. Precisava de ajuda - não queria, mas precisava. Querer, poder, precisar. Nada disso é controlável. Não sabia se era pior depender de pessoas, deuses, ou do gesso. Não sabia por quê. Não sabia de nada, aliás. E se a mãe fosse embora? A mãe vai embora? É isso, acabou? Tudo isso pra acabar assim? Nossa Senhora, me diga.
Teu manto parece mais azul do que em cinco minutos atrás.

30.9.08

Doença e cura

1. Na ala 3 da clínica cirúrgica do Presidente Dutra, fui ter com seu Raimundo Bastos, um senhor de figura magra e barba por fazer - e ainda assim, um senhor que despertava a simpatia. Perguntei-lhe como estava, se ansiava pela cirurgia que faria no dia seguinte, se tinha alguma queixa além da registrada no momento da internação, e qualquer outra pergunta de uma visita normal que um funcionário do hospital faria ao paciente. Seu Raimundo respondeu a todas as perguntas sem qualquer sinal de incômodo, mas alguma sutileza do momento que não me chegou ao consciente, fez pensar que ele não estava totalmente à vontade ali.
Perguntei-lhe quando receberia visitas de parentes, para que eu - em tom de brincadeira, como faço de praxe com meus pacientes - pudesse contar a eles todas as contrariedades que Seu Raimundo fazia ao que lhe era pedido para que tivesse bom pré-cirúrgico. Da mesma forma que se conta a uma mãe o que o filho anda fazendo de errado, ou que um colega de escola vai denunciar o amigo para a professora. O faço para que a sobriedade da visita ao paciente seja dissipada.
Mas Seu Raimundo disse: não tenho ninguém. E chorou.
O choro de um idoso é mais pesaroso que o de uma criança, e aquilo me pegou desprevenido. Aquela figura simpática e risonha que eu via antes disso, foi substituída no mesmo instante por um senhor de estampa tão débil quanto um filhote de qualquer mamífero, cego e desnudo ao mundo.
Não tenho ninguém. Essas palavras tiveram acesso direto ao meu íntimo, antes que eu percebesse. Compartilhei da dor dele, mas não deixei que isso resplandecesse pra fora. Apertei-lhe o ombro e disse que ali, pelos menos ali, ele tinha alguém. Disse-lhe mais algumas outras coisas que não recordo agora, mas eram todas com esse sentido. Seu Raimundo pareceu reconfortar-se, e permaneceu em conversa com o outro paciente no leito ao lado, o qual acompanhou tudo, e continuava a confortá-lo e a relatar a própria experiência com familiares. Um tanto constrangido, um tanto desarmado, pedi licença aos dois e continuei com o intinerário de visitas aos pacientes.
Ao sair da enfermaria, entretanto, deparei comigo indagando a mim mesmo e lamentando por não ter dito o que queria ao Seu Raimundo. Não ter dito que a dor dele fez conexão instantânea com a minha naquele instante, e que, se tivesse tempo para achar as palavras certas, poderia ter-lhe dito tanto e tanto sobre não ter ninguém. Que na verdade poderia ter escrito páginas e livros sobre o que é a solidão. Mas assim, em assalto, não pude fazer nada além de fingir. E remoer pensamentos os que serão ração do meu rotineiro desligamento da realidade.
Que fique comigo, então: minha doença que apenas eu sei o diagnóstico.
Estou transgredindo as recomendações do pré-operatório.

19.8.08

*

Perceberam a invasão de borboletas amarelas na cidade?
Estou me sentindo em Macondo.

17.7.08

Minha querida Satellite

Ao voares céu afora, me escute na chuva do amanhecer: quando eu a tiver perto de mim, cantarei uma canção sobre uma menina que corre num campo, entre trevos e florezinhas amarelas. E tu serás uma dessas flores, minha querida Satellite.
Destilarei, a cada três vezes que o sol sumir no teu horizonte, cinco gotas de meu sentimento, e esperarei que evapore e alcance teus poros. Assim não deixarás de me sentir no frio sideral.
Satellite, minha querida, se as nuvens de chuva hiemais construírem entre nós uma barreira, não esqueça: sorria como o sol te ensinou. E então eu também sorrirei.
E no cair da noite, cubra-se com o azul e o verde, e tenha sonhos em que sejas a rainha do castelo de São Jorge, e cavalgue pelos bosques lunares.
Minha querida Satellite, quando quiseres descobrir como te vejo e te tenho na memória, apenas leia aquele poema o qual nunca entendi, mas sempre gostei. E soará pra ti como lufadas roucas de um saxofone.
Durante nosso jantar, quando as arraias douradas voarem por nós como fossem pássaros noturnos, não te espante e ainda me convide a conferi-las e a achar qual delas é a maior ou a menor. Depois que chegarem ao destino, elas voltarão fartas de terem se alimentado de estrelas.
Guarde pincéis e tintas para que tu pinte as auroras quando eu acordar. Nas cores que quiseres, mas pinte sempre uma estrela cadente de verde. Porque verde é tua cor que guardo em mim. E nunca esquecerei da cor verde, nem de ti, mesmo em cegueira.
Por fim - mas não por nosso fim - quando o teu sentimento brotar, minha querida Satellite, sorria mais uma vez, e deixe que a chuva daquelas nuvens caia em mim, mas dessa vez, em chuva ensolarada.
E ela escorrerá sobre o campo das florezinhas amarelas, que brotarão com a tua chuva do amanhecer, minha querida Satellite.

14.6.08

Ponteando

Sempre achei que uma folha de papel rabiscada fosse um universo vasto para exploração tão como um quintal é para uma criança. Qualquer pedaço solto de versos copiados, as anotações de uma aula no caderno da moça, o caderno de composições daquele cabeludo que mora ali à frente, o primeiro diário que a menina acaba de ganhar dos pais. Cada dessas peças é um ecossistema; um banquete diverso com vários convidados, que opera harmoniosa, hirerárquica e dinamicamente
É só reparar bem: veja como se porta o ponto de exclamação! Está ali, sempre de pé, mantendo o ânimo dos convivas. É o anfitrião de tudo isso, bastante criativo, faz bom uso da empolgação e das idéias que ele tem. Fala alto e gesticulando no centro da sua roda de amigos, fazendo a taça de vinho que traz na mão dançar. Corre na família uma velha frase que o descreve bem:o ponto de exclamação vai direto ao ponto.
As pessoas mais contidas acham ele um tanto chato; inoportuno, por assim dizer. A efuvisade do ponto de exclamação afasta quem prefere esconder-se na racionalidade. Ele às vezes anda por aí na companhia de sua irmã ponto de interrogação. Isso mesmo, irmã!
Por que seria o ponto de interrogação uma mulher? Imergindo um tanto nas figurações poéticas, é possível ver a mulher como um dos símbolos bastante misterioso, senão o mais, não é verdade? O ponto de interrogação deve ter esse nome porque, convenhamos, ponta de interrogação não é um nome nada elegante para uma dama enigmática como ela. Sua forma sinuosa e atrante, como um móvel vitoriano, convida os mais atrevidos a decifra-la, não apenas a personalidade, mas também as curvas. O ponto de interrogação se resguarda a um canto, onde fuma calmamente uma cigarrilha. Observa o movimento na sala e de quando em quando lança olhares aos destraídos. Ah, o ponto de interrogação... Me diga, o ponto de interrogação não te atrai? Correlacionando ao que foi dito do ponto de exclamação, pode-se dizer que o ponto de interrogação dá voltas e voltas antes de chegar a um ponto.
E em se falando de ponto, não esqueçamos de não um, mas vários: as reticências. Essas acompanham bem o ponto de interrogação. Diz o dicionário, cidade das palavras, que reticência é uma omissão intencional de algo que se poderia ou deveria ser dito. Reticências são sementes de dúvidas que o ponto de interrogação joga. As reticências não são pessoas. São pedras, destroços de pensamentos, destroços de vontades... Nos dias em que existe tanto a dizer, mas não energia suficiente para construir o que se diga, as reticências cumprem seu papel: três pontos desconexos por natureza. São suspiros, em que são exaladas as cinzas de idéias queimadas.
E as crianças, o ponto e a vírgula, estão, claro, correndo por todo lugar. A vírgula, poderia-se dizer que é a filha do ponto de exclamação, já que é também bastante criativa. Gosta de falar em público; é daquelas crianças que gostam de mostrar as qualidades próprias. Entoa perfeitamente nos recitais da família, e tem preferência pelos poemas, e isso a difere do ponto, que quase nunca se exibe nos recitais.
O ponto é uma criança introvertida, e é o queridinho daqueles que não gostam do ponto de exclamação. Vive com a cara em livros de todo tipo, mas prefere livros didáticos e manuais. Às vezes, quando distraído brincando com a vírgula, forma combinações interessantes como o ponto e vírgula; os simpáticos pelo bom estilo de escrita vêem aí um ótimo recurso.
De tanto se retrair, o ponto não é de considerar muito a opinião dos outros, o que faz com que ele seja teimoso e não queira sair antes de conhecer tudo à última palavra. E nem teime contra ele em relação a isso, a palavra final pertence-lhe.

26.4.08

Meias-Noites

Levantou no meio da noite e sentou-se no canto do sofá da sala de estar, depois ter se revirado de todas as formas possíveis em sua cama, e tentado fingir para si mesmo que dormia. Consultou o relógio e constatou que já eram quatro e quarenta, e a senhorita insônia não aparentava querer ir embora ainda.
Ainda no escuro, tateou em busca do controle da TV. Ao encontrá-lo, porém, desfez-se da idéia de assistir a alguma coisa. Aquela escuridão de certa forma era confortável. Recostou a nunca no sofá e olhou pela janela, observando a ausência de nuvens no céu, que já começava a atenuar suas cores em algum lugar no leste.
Incrível, nenhuma nuvem. Só céu, céu para todos os lados. Não gostava disso, parecia uma tela em branco. Foi até a janela e se projetou um pouco para fora, e verificou que não havia mesmo nada no céu, nem as estrelas. A lua minguante reinava suprema.
De tanto procurar por nuvens - ou um raio, um ovni, um avião, qualquer coisa - e não ter tido sucesso nas suas tentativas, tentou procurar uma razão para aquilo. Mas foi arroubado por uma outra percepção: percebeu então que não gostava daquele momento da noite, as horas mais altas. Era o nascimento silencioso de um novo dia, e os nascimentos, como se sabe, não são silenciosos. São barulhentos, vida barulhenta. Choro e tudo mais. Portanto um dia nascer assim, sem nuvem alguma, sem barulho nenhum, e o que é pior, com as estrelas todas apagadas; nada disso fazia sentido.
Esse fluxo de pensamentos levou-o a uma idéia que parecia estar latente em na sua mente: resolveu que a indiferença que todos sentem pelas horas da noite morreria nele ali mesmo. De agora em diante não gostaria mais das altas horas da noite. Apenas o início lhe bastava.
Sorriu com a idéia; aquilo o alegrou mais do que esperava. Olhou para trás, como se buscasse a aprovação de alguma pessoa imaginária que acompanhava tudo o que ele pensava.
Voltou para o quarto bastante empolgado e sutilmente acordou a América, que há pouco havia deitado: trabalhava como secretária de uma daquelas empresas do Distrito Industrial que funcionam realmente no turno da noite para madrugada.
- América, acorda, tenho uma proposta boa pra te fazer!
- O quê? - perguntou América de olhos ainda fechados; seu tom de voz ainda estava desanimado e grave. Nada combinaria melhor com ela.
- Vamos dividir a noite entre nós.
Explicou então tudo o que havia pensado, e América, apesar de cansada e de manter os olhos fechados, ouvia tudo com atenção. Gostava das idéias dele. E ele sabia que ela prestava atenção. Falou da insônia, das nuvens, do céu e da lua. Combinaram então que ele ficaria com a noite que ia até às doze horas, e ela, desse ponto em diante.
América, que agora estava sentada ao lado dele, coçando os punhos adormecidos, aceitou de bom grado a sua meia-noite. Mais desperta, falou com a voz ainda um pouco arenosa e lenta:
- Que bom então que eu fico com a parte mais calma da noite. A tela em branco me parece servir pra imaginar bastante coisas. Ah, já que tu falou nisso das nuvens, vou te falar: quando eu tava voltando pra cá, tinha uma única nuvem no céu. Bem pálida, ela; destacava demais. Ela era fina e contorcida. Ninguém me tira da cabeça que aquilo era um dragão. Lá no alto. Talvez estivesse se contorcendo de frio. - e ao dizer isso, bocejou. Não estava irritada por ter acordado.
- Eu prefiro olhar o que já vem pintado na tela. Aliás, prefiro olhar as cores. E as nuvens também, tem bastante quando o sol se põe. - Ele começou a brincar com os botões do controle, o qual ainda segurava na mão esquerda.
- Então eu fico com o nascer do sol e tu fica com o sol poente. Vamos então ver o meu primeiro nascer do sol.
América segurou a mão dele e foram ambos para o sofá da sala. Era o lugar preferido dentre as poucas opções que tinham naquele pequeno apartamento.
Agora os ponteiros fosforescentes do relógio acima da tv anunciava as cinco e doze da manhã. A escuridão já se dissolvera quase totalmente, deixando apenas um leve véu cinza na vista do casal.
Esperaram calados até que a claridade os envolvesse de vez. Até que América apontou:
- Olha, o dragão tá lá embaixo agora. Foi se aquecer no sol.
Ele limitou a sorrir. Até que a segunda meia-noite não era tão ruim assim.
Ficaram parados, os dois na janela. Ele ainda teimando em procurar algo no céu, ela acompanhando o dragão.
Quando o sol mostrou-se inteiramente acima do horizonte, ela perguntou:
- E o dia, o que faremos com ele?
- Claro que vamos dormir.

20.3.08

É assim

Nariz de clave de fá
Sono de relva ao vento
Cabelos de selva tropical
Risos de presente de natal

Voz de violão náilon
Desculpas de cinco versos
Olhos de sol nascente
Suspiro de arco do violoncelo

Dedos de poleiros de beija-flores
História de tempestade de janeiro

Choro de tinta de Monet
Abraço de torvelinho
Sopro de sereno no capim
Queixo de passarinho

Sorriso de cordilheiras
Pele de tempo perdido
Perninhas de argila molhada
Andar de borboleta mornaca

23.2.08

Retrato em cores

Dois pontos

Quando eu te convidava pra pizzaria
e tu me dizia que era lugar de idosos e casais com crianças barulhentas
embora tu sempre aceitasse a um segundo convite

Quando tu treinava comigo as apresentações dos trabalhos da faculdade
mesmo sabendo que o real motivo de eu estar ali
era o lanche que a tua mãe preparava

E que falando nela,
tu gostava de me deixar sem graça na presença dela
falando de como eu achava o sotaque dela engraçado

Quando te ensinei a dirigir, e tu estancava o carro
sempre que eu dizia "não olha pra marcha"
e me reclamava que ficasse calado, e eu replicava que tu era telepática

Eu acariciava os polegares nas tuas sobrancelhas
e tu ria sem motivo nenhum,
porque na sobrancelha ninguém tem cócegas

E te ensinei a tocar o violão,
e gostava de ajeitar a posição dos teus dedos
e tinha até pena de vê-los marcados pelas cordas

Achei graça até quando tu resolveu banhar na chuva
e passou a semana seguinte gripada
mas pelo menos eu gostei, tu me disse

Quando eu reclamava que a água era gelada demais para me barbear
e não sei de onde tu veio com um balde de água mais gelada
e me molhou, e achei aquilo desconfortável, mas fantástico

E de tanto me ouvir cantar músicas do Jobim
passou a gostar dele também
e deixou de achar os peixinhos a nadar no mar ridículos

E me cobrava tanto e tantas cartas de amor
no que eu dizia que a inspiração não tinha hora
e eu achava minha resposta tão ridícula quanto os peixinhos

Sem falar na minha foto três por quatro que tu mantinha na carteira
e eu nunca entendi por que guardar algo tão sem sal
que me lembrava formulários ou filas de banco

E hoje onde estou sem eiras, e cheio de beiras
Recorro ao retrato de nós dois e um desconhecido que me cobriu a metade
Feito no dia em que te conheci

No dia que o sol me pareceu ter brilhado um pouquinho mais

10.2.08

A longa viagem (ou A morte das borboletas)

O sol incendeia o céu enquanto cortamos a estrada ao meio-dia rumo à cidade de Santa Inês. A vegetação marginal à estrava mostra seu fulgor decorrente da época de chuva que o início de cada ano propicia, e assim, toda a vida inicia o ano com plenitude, logo que as sementes vindas com as chuvas são germinadas.
Lagartos, formigas, palmeiras, pássaros, flores.
No calor do meio-dia vinham as borboletas provindas do capim, e atravessavam a estrada a todo instante, num belo espetáculo. Celebram o vento, o néctar, o sol.

E assim morrem no pára-brisa.

Há de se pensar que elas não deveriam morrer, acabar uma cena tão vistosa assim, com mortes sem sentido, inesperadas. No pára-brisa, toda a poesia se esvai. Pára-brisas não podem entrar de jeito nenhum em qualquer expressão artística.
E tal espetáculo, como fica? Pra quê então chuva? O que fazer parar acabar com isso? O carro não pode parar, a viagem urge para que cheguemos logo ao destino. O que nos resta a fazer, nós, que estamos vivos, é simplesmente se conformar e limpar o pára-brisa, e aguardar as próximas borboletas, num ciclo contínuo, até que cheguemos ao fim da longa viagem que é a de São Luís e Santa Inês.

- Júnior, te arruma, teu oitavo irmão morreu.

Há de se pensar que ele não deveria morrer, acabar uma trajetória tão vistosa assim, com uma morte sem sentido, inesperada. Em Santa Inês, toda a poesia se esvai. Não me ocorre nenhum poema ou conto situado na cidade, ou mesmo que a mencione.
E como nós ficamos? Pra quê então tanta lágrima? O que fazer parar acabar com isso? Ninguém pode parar, e a vida urge para que cheguemos logo ao destino. O que nos resta a fazer, nós, que estamos vivos, é simplesmente se conformar e enxugar as lágrimas, e aguardar que as sementes deixadas brotem, num ciclo contínuo, até que cheguemos ao fim da longa viagem que é a vida.

21.1.08

Sete e vinte e cinco

Em uma dessas tantas ruas do centro de São Luís que desembocam em escadarias incansáveis, andava eu acompanhado de meu primo rumo a uma marcenaria para que o cavalete onde meu pai pinta suas telas fosse consertado. Para acelerar o tempo e nossos passos, conversávamos sobre diversos assuntos, e na altura em que debatíamos sobre a necessidade do uso de lâmpadas incandescentes nos postes tradicionais das ruas por onde passávamos, um sujeito que observava o movimento da rua lançou-me:
- Tem as horas aí, pai?
Respondi as devidas horas, e no desconectar da conversa que mantinha com meu primo, observei uma senhora que parecia dormir sentada ao lado de sua banca de ervas e condimentos na calçada oposta à qual estávamos. O sujeito das horas, reparando minha súbita e tênue consternação, respondeu à pergunta que eu ainda não havia formulado:
- É uma feiticeira.
Achando aquilo muito interessante, meu primo parou e quis saber mais. Fiquei um tanto irresoluto, mas acabei descansando o cavalete na parede, ao lado de onde o sujeito - julguei que vigiava os carros estacionados -, também estava enconstado. Meu primo perguntou se ele a conhecia. Ele não conhecia, mas disse que o pai dele sempre o advertiu para que não mexesse com ela, caso contrário ela o transformaria em toco de árvore, como o pai mesmo já havia visto acontecer com duas crianças, na sua juventude. Tendo dito isso, explicou que niguém sabia a idade dela, e que ela sempre mateve a mesma aparência, desde os tempos das advertências do seu pai. O próprio sujeito das horas afirmou ter encontrado, certa vez enquanto voltava para casa, três tocos de árvores enfileirados, em um local onde nunca houvera árvores.
Meu primo se empolgou bastante com isso, e mantinha a conversa empolgada com o vigia, o qual não parecia nem um pouco incomodado com isso, visto que a iniciou sem ter sido solicitado. Eu comecei a prestar atenção na senhora enquanto ouvia a conversa dos dois. Ela tinha a pele um tanto enrugada e sombreada por causa do sol, e usava um lenço comprido que cobria-lhe os cabelos. Tinha as unhas pintadas de uma cor escura que não pude distinguir, e usava uma esparsa saia estampada além de sandálias rasteiras. Estava dormindo com as mãos cruzadas sobre as pernas, como se esperasse a resposta de alguma pergunta intimidadora.
Apesar disso, não vi nada muito anormal nela; se eu precisasse algum dia de um punhado de cominho, não hesitaria em comprar com ela.
- Tá vendo aquele lenço ali? É pra esconder os chifres dela.
Virei pro sujeito só pra ver a cara dele quando disse isso, e ele, percebendo que ganhou minha atenção, continuou:
- Eu não sei, mas me disseram que ela vira bicho também. É o que nego fala por aí, mas olha que eu não duvido não...
Fiquei pensando como é que as pessoas podem criar uma imagem tão bestial de uma senhora tão... normal. É, normal como ela. Iria me enconstar junto ao vigia na parede, mas meu pé bateu no cavalete, o que me lembrou do dever a cumprir. Chamei meu primo e nos despedimos do guia cultural no qual o sujeito das horas se transformou. Olhei mais uma última vez para a senhora a fim de satisfazer meu inconsciente desejo de querer saber mais sobre ela.
Feito isso, continuamos até chegarmos na marcenaria, onde fomos recepcionados pelos dois marceneiros que ali trabalhavam, e que nos informaram que estavam no horário do almoço. Então lembrei que já passava do meio-dia, e que eu também devia almoçar. Deixamos então o cavalete lá para buscar no outro dia, e fomos eu e meu primo almoçar num bar ali perto que servia refeições preparadas na hora.
Tendo almoçado e feito a sesta em um banco de praça, decidimos voltar logo para casa e avisar ao pai que o cavalete só ficaria pronto no dia seguinte. Por uma sugestão que mais parecia ordem de meu primo, voltamos por onde viemos. Não me dei ao trabalho de divagar o porquê, estando este tão estampado no rosto dele. Assim, percorremos o caminho desta vez mais rápido, pois como se sabe, a volta é sempre mais ligeira que a ida, ainda mais quando não se sabe pra onde se vai.
Ao alcançarmos a calçada onde conversamos com o vigia de carros, notamos não um toco, mas um frondoso biribá na rua perpendicular à que estávamos, e isso foi espantoso, pois tínhamos uma certeza - que se revelou míope - de não haver árvore nenhuma ali antes.
Meu primo muito observador e curioso, depois de soltar - para que não citemos os palavrões - cinco interjeições de surpresa, denotou uma anormalidade apontando para os frutos da árvore, e estes não eram amarelos como deveriam ser, mas arroxeados como beterrabas. As pontas sobressalentes dos frutos naquela cor lembraram-me das unhas da senhora, e ao me virar para verificar se ainda estava no mesmo lugar, não havia nem ela nem sua banca na calçada agora coberta pela sombra dos sobrados que margeavam a rua. Confesso por uns minutos me assustei, e até senti um leve arrepio na nuca. Mas minha razão dizia que era apenas uma árvore que não tínhamos notado antes, no ínterim da história com o sujeito das horas. Expliquei isso ao meu primo para que parasse de repetir a cada segundo que a história era verdadeira, o que não adiantou muito. Falei para que continuássemos o caminho rumo à nossa casa, o que fizemos em seguida.
Um pássaro furtivo nos apareceu enquanto descíamos uma ladeira que desemboca frente ao terminal de ônibus da Beira-Mar e se pôs a nos seguir.
- Mas que porra é essa?
Claro que foi o meu primo o autor da frase, dita enquanto enxotava o pássaro a pedradas, até que finalmente conseguiu fazê-lo voar a sumir de vista. O pássaro se foi, mas assim como eu já havia pensado na hora do almoço - "a cada esquina, uma surpresa" -, ao chegarmos na rua principal que é cortada pela ladeira, deparamos novamente com a senhora feiticeira na mesma posição, porém usando um lenço agora roxo na cabeça. Sem abrir os olhos, nos ofereceu cominho,
- Ei
ao passo que eu, depois de hesitar uns quinze segundos, respondi que não e agradeci, e imediatamente, junto ao meu primo, andei o mais rápido que pude para a avenida onde o Terminal
- ... atrasado!
se localiza, quando encontramos novament
- Não te chamo
e com o sujeito das horas rindo desesperadamente de nós, o que nos deixou tão confusos a ponto de parar nossa correria. Meu primo soltou novamente sua célebre pergun
- 7:25

Caralho, já são sete e vinte e cinco!