O sono não veio. As cortinas abriram-se, e as contrações de quem quer nascer logo são sentidas.
É à noite, e no silêncio que se desenham os esboços e as artes-finais de idéias, aforismos, esperanças, desilusões, teorias e todo pensamento que bater à porta da mente e parecer uma visita de boa conversa.
À noite é quando se ouve melhor, no escuro é onde se sente mais, e o silêncio torna-se audível.As únicas testemunhas desse momento são as paredes que se perdem na escuridão. Assistem quieta e atentamente as projeções inquietas e desconcentradas do protagonista de uma peça que se encerra logo que o sol do dia seguinte desponta na janela.
Enquanto ele não chega, os pensamentos paridos lançam-se sem cerimônia ao ar; e se ainda não estão aptos a voar, caem e se acumulam ao redor da cama, onde esperam sobreviver até o próximo dia. Lá ainda misturam-se às lagrimas e risos, que porventura escorregam, já que foram impedidas de sair na claridez.
E as paredes continuam lá, acompanhando o capítulo da noite. Reverberando velhos e teimosos devaneios que insistem e retornar à ópera. O protagonista é o mesmo de sempre, mas a peça ainda está longe do seu fim. Às vezes ele mira o infinito, quem sabe tentando escapar do brilho ofuscante dos holofotes e enxergar a platéia que se protege nas trevas. Mal sabe ele que a casa está vazia, apenas um aqui e outro ali assistem à exibição.
Depois do parto da ninhada de pensamentos, o gerador repousa seu merecido descanso; o ator fecha as cortinas do próprio espetáculo, e ambos - mesmo que sejam a mesma pessoa - são surpresos ocasionalmente com um teatro de bonecos.
O que importa agora é apenas assistir aos bonecos e quem sabe acordar no dia seguinte com um sorriso inexplicável no rosto.
terça-feira, 6 de novembro de 2007
Crônica do quarto escuro
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