14.6.08

Ponteando

Sempre achei que uma folha de papel rabiscada fosse um universo vasto para exploração tão como um quintal é para uma criança. Qualquer pedaço solto de versos copiados, as anotações de uma aula no caderno da moça, o caderno de composições daquele cabeludo que mora ali à frente, o primeiro diário que a menina acaba de ganhar dos pais. Cada dessas peças é um ecossistema; um banquete diverso com vários convidados, que opera harmoniosa, hirerárquica e dinamicamente
É só reparar bem: veja como se porta o ponto de exclamação! Está ali, sempre de pé, mantendo o ânimo dos convivas. É o anfitrião de tudo isso, bastante criativo, faz bom uso da empolgação e das idéias que ele tem. Fala alto e gesticulando no centro da sua roda de amigos, fazendo a taça de vinho que traz na mão dançar. Corre na família uma velha frase que o descreve bem:o ponto de exclamação vai direto ao ponto.
As pessoas mais contidas acham ele um tanto chato; inoportuno, por assim dizer. A efuvisade do ponto de exclamação afasta quem prefere esconder-se na racionalidade. Ele às vezes anda por aí na companhia de sua irmã ponto de interrogação. Isso mesmo, irmã!
Por que seria o ponto de interrogação uma mulher? Imergindo um tanto nas figurações poéticas, é possível ver a mulher como um dos símbolos bastante misterioso, senão o mais, não é verdade? O ponto de interrogação deve ter esse nome porque, convenhamos, ponta de interrogação não é um nome nada elegante para uma dama enigmática como ela. Sua forma sinuosa e atrante, como um móvel vitoriano, convida os mais atrevidos a decifra-la, não apenas a personalidade, mas também as curvas. O ponto de interrogação se resguarda a um canto, onde fuma calmamente uma cigarrilha. Observa o movimento na sala e de quando em quando lança olhares aos destraídos. Ah, o ponto de interrogação... Me diga, o ponto de interrogação não te atrai? Correlacionando ao que foi dito do ponto de exclamação, pode-se dizer que o ponto de interrogação dá voltas e voltas antes de chegar a um ponto.
E em se falando de ponto, não esqueçamos de não um, mas vários: as reticências. Essas acompanham bem o ponto de interrogação. Diz o dicionário, cidade das palavras, que reticência é uma omissão intencional de algo que se poderia ou deveria ser dito. Reticências são sementes de dúvidas que o ponto de interrogação joga. As reticências não são pessoas. São pedras, destroços de pensamentos, destroços de vontades... Nos dias em que existe tanto a dizer, mas não energia suficiente para construir o que se diga, as reticências cumprem seu papel: três pontos desconexos por natureza. São suspiros, em que são exaladas as cinzas de idéias queimadas.
E as crianças, o ponto e a vírgula, estão, claro, correndo por todo lugar. A vírgula, poderia-se dizer que é a filha do ponto de exclamação, já que é também bastante criativa. Gosta de falar em público; é daquelas crianças que gostam de mostrar as qualidades próprias. Entoa perfeitamente nos recitais da família, e tem preferência pelos poemas, e isso a difere do ponto, que quase nunca se exibe nos recitais.
O ponto é uma criança introvertida, e é o queridinho daqueles que não gostam do ponto de exclamação. Vive com a cara em livros de todo tipo, mas prefere livros didáticos e manuais. Às vezes, quando distraído brincando com a vírgula, forma combinações interessantes como o ponto e vírgula; os simpáticos pelo bom estilo de escrita vêem aí um ótimo recurso.
De tanto se retrair, o ponto não é de considerar muito a opinião dos outros, o que faz com que ele seja teimoso e não queira sair antes de conhecer tudo à última palavra. E nem teime contra ele em relação a isso, a palavra final pertence-lhe.