26.4.08

Meias-Noites

Levantou no meio da noite e sentou-se no canto do sofá da sala de estar, depois ter se revirado de todas as formas possíveis em sua cama, e tentado fingir para si mesmo que dormia. Consultou o relógio e constatou que já eram quatro e quarenta, e a senhorita insônia não aparentava querer ir embora ainda.
Ainda no escuro, tateou em busca do controle da TV. Ao encontrá-lo, porém, desfez-se da idéia de assistir a alguma coisa. Aquela escuridão de certa forma era confortável. Recostou a nunca no sofá e olhou pela janela, observando a ausência de nuvens no céu, que já começava a atenuar suas cores em algum lugar no leste.
Incrível, nenhuma nuvem. Só céu, céu para todos os lados. Não gostava disso, parecia uma tela em branco. Foi até a janela e se projetou um pouco para fora, e verificou que não havia mesmo nada no céu, nem as estrelas. A lua minguante reinava suprema.
De tanto procurar por nuvens - ou um raio, um ovni, um avião, qualquer coisa - e não ter tido sucesso nas suas tentativas, tentou procurar uma razão para aquilo. Mas foi arroubado por uma outra percepção: percebeu então que não gostava daquele momento da noite, as horas mais altas. Era o nascimento silencioso de um novo dia, e os nascimentos, como se sabe, não são silenciosos. São barulhentos, vida barulhenta. Choro e tudo mais. Portanto um dia nascer assim, sem nuvem alguma, sem barulho nenhum, e o que é pior, com as estrelas todas apagadas; nada disso fazia sentido.
Esse fluxo de pensamentos levou-o a uma idéia que parecia estar latente em na sua mente: resolveu que a indiferença que todos sentem pelas horas da noite morreria nele ali mesmo. De agora em diante não gostaria mais das altas horas da noite. Apenas o início lhe bastava.
Sorriu com a idéia; aquilo o alegrou mais do que esperava. Olhou para trás, como se buscasse a aprovação de alguma pessoa imaginária que acompanhava tudo o que ele pensava.
Voltou para o quarto bastante empolgado e sutilmente acordou a América, que há pouco havia deitado: trabalhava como secretária de uma daquelas empresas do Distrito Industrial que funcionam realmente no turno da noite para madrugada.
- América, acorda, tenho uma proposta boa pra te fazer!
- O quê? - perguntou América de olhos ainda fechados; seu tom de voz ainda estava desanimado e grave. Nada combinaria melhor com ela.
- Vamos dividir a noite entre nós.
Explicou então tudo o que havia pensado, e América, apesar de cansada e de manter os olhos fechados, ouvia tudo com atenção. Gostava das idéias dele. E ele sabia que ela prestava atenção. Falou da insônia, das nuvens, do céu e da lua. Combinaram então que ele ficaria com a noite que ia até às doze horas, e ela, desse ponto em diante.
América, que agora estava sentada ao lado dele, coçando os punhos adormecidos, aceitou de bom grado a sua meia-noite. Mais desperta, falou com a voz ainda um pouco arenosa e lenta:
- Que bom então que eu fico com a parte mais calma da noite. A tela em branco me parece servir pra imaginar bastante coisas. Ah, já que tu falou nisso das nuvens, vou te falar: quando eu tava voltando pra cá, tinha uma única nuvem no céu. Bem pálida, ela; destacava demais. Ela era fina e contorcida. Ninguém me tira da cabeça que aquilo era um dragão. Lá no alto. Talvez estivesse se contorcendo de frio. - e ao dizer isso, bocejou. Não estava irritada por ter acordado.
- Eu prefiro olhar o que já vem pintado na tela. Aliás, prefiro olhar as cores. E as nuvens também, tem bastante quando o sol se põe. - Ele começou a brincar com os botões do controle, o qual ainda segurava na mão esquerda.
- Então eu fico com o nascer do sol e tu fica com o sol poente. Vamos então ver o meu primeiro nascer do sol.
América segurou a mão dele e foram ambos para o sofá da sala. Era o lugar preferido dentre as poucas opções que tinham naquele pequeno apartamento.
Agora os ponteiros fosforescentes do relógio acima da tv anunciava as cinco e doze da manhã. A escuridão já se dissolvera quase totalmente, deixando apenas um leve véu cinza na vista do casal.
Esperaram calados até que a claridade os envolvesse de vez. Até que América apontou:
- Olha, o dragão tá lá embaixo agora. Foi se aquecer no sol.
Ele limitou a sorrir. Até que a segunda meia-noite não era tão ruim assim.
Ficaram parados, os dois na janela. Ele ainda teimando em procurar algo no céu, ela acompanhando o dragão.
Quando o sol mostrou-se inteiramente acima do horizonte, ela perguntou:
- E o dia, o que faremos com ele?
- Claro que vamos dormir.