21.1.08

Sete e vinte e cinco

Em uma dessas tantas ruas do centro de São Luís que desembocam em escadarias incansáveis, andava eu acompanhado de meu primo rumo a uma marcenaria para que o cavalete onde meu pai pinta suas telas fosse consertado. Para acelerar o tempo e nossos passos, conversávamos sobre diversos assuntos, e na altura em que debatíamos sobre a necessidade do uso de lâmpadas incandescentes nos postes tradicionais das ruas por onde passávamos, um sujeito que observava o movimento da rua lançou-me:
- Tem as horas aí, pai?
Respondi as devidas horas, e no desconectar da conversa que mantinha com meu primo, observei uma senhora que parecia dormir sentada ao lado de sua banca de ervas e condimentos na calçada oposta à qual estávamos. O sujeito das horas, reparando minha súbita e tênue consternação, respondeu à pergunta que eu ainda não havia formulado:
- É uma feiticeira.
Achando aquilo muito interessante, meu primo parou e quis saber mais. Fiquei um tanto irresoluto, mas acabei descansando o cavalete na parede, ao lado de onde o sujeito - julguei que vigiava os carros estacionados -, também estava enconstado. Meu primo perguntou se ele a conhecia. Ele não conhecia, mas disse que o pai dele sempre o advertiu para que não mexesse com ela, caso contrário ela o transformaria em toco de árvore, como o pai mesmo já havia visto acontecer com duas crianças, na sua juventude. Tendo dito isso, explicou que niguém sabia a idade dela, e que ela sempre mateve a mesma aparência, desde os tempos das advertências do seu pai. O próprio sujeito das horas afirmou ter encontrado, certa vez enquanto voltava para casa, três tocos de árvores enfileirados, em um local onde nunca houvera árvores.
Meu primo se empolgou bastante com isso, e mantinha a conversa empolgada com o vigia, o qual não parecia nem um pouco incomodado com isso, visto que a iniciou sem ter sido solicitado. Eu comecei a prestar atenção na senhora enquanto ouvia a conversa dos dois. Ela tinha a pele um tanto enrugada e sombreada por causa do sol, e usava um lenço comprido que cobria-lhe os cabelos. Tinha as unhas pintadas de uma cor escura que não pude distinguir, e usava uma esparsa saia estampada além de sandálias rasteiras. Estava dormindo com as mãos cruzadas sobre as pernas, como se esperasse a resposta de alguma pergunta intimidadora.
Apesar disso, não vi nada muito anormal nela; se eu precisasse algum dia de um punhado de cominho, não hesitaria em comprar com ela.
- Tá vendo aquele lenço ali? É pra esconder os chifres dela.
Virei pro sujeito só pra ver a cara dele quando disse isso, e ele, percebendo que ganhou minha atenção, continuou:
- Eu não sei, mas me disseram que ela vira bicho também. É o que nego fala por aí, mas olha que eu não duvido não...
Fiquei pensando como é que as pessoas podem criar uma imagem tão bestial de uma senhora tão... normal. É, normal como ela. Iria me enconstar junto ao vigia na parede, mas meu pé bateu no cavalete, o que me lembrou do dever a cumprir. Chamei meu primo e nos despedimos do guia cultural no qual o sujeito das horas se transformou. Olhei mais uma última vez para a senhora a fim de satisfazer meu inconsciente desejo de querer saber mais sobre ela.
Feito isso, continuamos até chegarmos na marcenaria, onde fomos recepcionados pelos dois marceneiros que ali trabalhavam, e que nos informaram que estavam no horário do almoço. Então lembrei que já passava do meio-dia, e que eu também devia almoçar. Deixamos então o cavalete lá para buscar no outro dia, e fomos eu e meu primo almoçar num bar ali perto que servia refeições preparadas na hora.
Tendo almoçado e feito a sesta em um banco de praça, decidimos voltar logo para casa e avisar ao pai que o cavalete só ficaria pronto no dia seguinte. Por uma sugestão que mais parecia ordem de meu primo, voltamos por onde viemos. Não me dei ao trabalho de divagar o porquê, estando este tão estampado no rosto dele. Assim, percorremos o caminho desta vez mais rápido, pois como se sabe, a volta é sempre mais ligeira que a ida, ainda mais quando não se sabe pra onde se vai.
Ao alcançarmos a calçada onde conversamos com o vigia de carros, notamos não um toco, mas um frondoso biribá na rua perpendicular à que estávamos, e isso foi espantoso, pois tínhamos uma certeza - que se revelou míope - de não haver árvore nenhuma ali antes.
Meu primo muito observador e curioso, depois de soltar - para que não citemos os palavrões - cinco interjeições de surpresa, denotou uma anormalidade apontando para os frutos da árvore, e estes não eram amarelos como deveriam ser, mas arroxeados como beterrabas. As pontas sobressalentes dos frutos naquela cor lembraram-me das unhas da senhora, e ao me virar para verificar se ainda estava no mesmo lugar, não havia nem ela nem sua banca na calçada agora coberta pela sombra dos sobrados que margeavam a rua. Confesso por uns minutos me assustei, e até senti um leve arrepio na nuca. Mas minha razão dizia que era apenas uma árvore que não tínhamos notado antes, no ínterim da história com o sujeito das horas. Expliquei isso ao meu primo para que parasse de repetir a cada segundo que a história era verdadeira, o que não adiantou muito. Falei para que continuássemos o caminho rumo à nossa casa, o que fizemos em seguida.
Um pássaro furtivo nos apareceu enquanto descíamos uma ladeira que desemboca frente ao terminal de ônibus da Beira-Mar e se pôs a nos seguir.
- Mas que porra é essa?
Claro que foi o meu primo o autor da frase, dita enquanto enxotava o pássaro a pedradas, até que finalmente conseguiu fazê-lo voar a sumir de vista. O pássaro se foi, mas assim como eu já havia pensado na hora do almoço - "a cada esquina, uma surpresa" -, ao chegarmos na rua principal que é cortada pela ladeira, deparamos novamente com a senhora feiticeira na mesma posição, porém usando um lenço agora roxo na cabeça. Sem abrir os olhos, nos ofereceu cominho,
- Ei
ao passo que eu, depois de hesitar uns quinze segundos, respondi que não e agradeci, e imediatamente, junto ao meu primo, andei o mais rápido que pude para a avenida onde o Terminal
- ... atrasado!
se localiza, quando encontramos novament
- Não te chamo
e com o sujeito das horas rindo desesperadamente de nós, o que nos deixou tão confusos a ponto de parar nossa correria. Meu primo soltou novamente sua célebre pergun
- 7:25

Caralho, já são sete e vinte e cinco!