26.10.07

As pessoas incríveis que chamam "Família, família!" (ou Ode to my family)

Família, meus caros, família. Difícil é a vida de quem não tem uma. Eu, apesar de não demonstrar direito, me impressiono e me fascino freqüentemente com a minha.
Não a família toda, primos, avôs, tios e todos os galhos árvore genealógica, falo da família que convive comigo. E não que os outros ramos da árvore não tenham valor, mas é do convívio diário que se percebe a importância daquilo que temos. Creio que todo mundo acha a sua simplesmente a melhor e com algo especial. É um pensamento besta, mas eu penso assim também. Minha família tem algo à parte.
Meus pais: pense em dois sujeitos que eu não consigo traduzir o quanto admiro eles. O pai, de quem peguei o nome emprestado, tem uma história de vida que merece sem dúvidas um registro biográfico. Só para constar aos desconhecidos, meu pai nasceu em Jaguarana, interior de Caxias, um dos onze (eu acho) filhos de um lavrador e uma quebradeira de coco. Hoje é diretor de redação de um jornal da capital que ele talvez nem pensasse em conhecer. Que upgrade, hein, Seu Borges?
Papai tange a vida de maneira invejável; tange-a tão bem, que chega a parecer que a vida o leva consigo, e não vice-versa. Como um vaqueiro que tange o gado sem precisar de bastão, chicote, nem cachorro, nem nada: o gado simplesmente sabe seu curso. Tem um dom especial nas suas relações com as pessoas, e ama cada filho de forma especial. Assim é meu pai.
A mãe, quem eu chamo de "sióra" ou dona Elda, vejo-a como a Úrsula de Cem Anos de Solidão. Põe a ordem na casa, e simplesmente estaríamos todos perdidos sem ela. É a mãe, oras. Ela quem marca as consulta dos filhos, quem impõe os limites, quem diz que estamos gordos ou magros, quem se preocupa, e quem tem o famoso sentido sobrenatural dado às mulheres assim que dão à luz o filho. E é pra ela quem eu peço conselhos quando a vida me aperreia o juízo. E a pouca altura que Deus lhe deu, creio ter sido para que os filhos a vissem como uma amiga, uma pessoa próxima - a menos que suba no salto. Ou que o exiba ameaçadoramente na mão se fizemos algo errado.
Bruno, se não fosse meu irmão, juro que não ia conhecer ele nunca na minha vida. Talvez, no máximo de vista. E possivelmente, eu não iria concordar com nada da personalidade dele. Sabe o bon vivant? Aproveita a o aqui e o agora ao máximo, mas não liga muito pro futuro nem pro passado? Assim é o sujeito que me influencia massivamente. Admiração de irmão mais novo. Analisando num acesso psicológico, o Sensing da personalidade dele (ISTP) complementa meu Intuitive (INTP). Ou seja, o pé no chão dele completa minha cabeça nas nuvens. E embora possua o eixo "ST" e não "SJ", o torna um guardião tal qual minha mãe, e protege todos seus queridos como um pai protege o filho.
E minha irmã. A irmã mais nova. Eu poderia continuar a explicação na psicologia analítica e analisar nossa relação, mas colocando em pratos de plástico, ela é sentimento e eu, razão. Por isso às vezes enchemos o saco um do outro. E eu faço questão de atentar a paciência dela sempre que posso. Talvez seja minha forma de dizer "estou aqui pro que der e vier". O sentimento de Juliana me faz tentar entendê-la em cada ação, fato que não consigo e me deixa sempre curioso. Como um quadro em que todos os dias se descobre um novo e belo detalhe. E isso me faz admirá-la tanto, e talvez ela nem imagine isso.
Agora fui prestar bem atenção ao título: Pessoas Incríveis. Lembrei da família da animação "Os Incríveis", conhece? Pois é, mais ou menos por aí: superpais, superfilhos. Se bem que lá só tinha dois filhos. O terceiro é o que assistiu tudo pra contar no blog.

20.10.07

As histórias de Dagoberto - Parte 1

Enquanto eu tava tomando uma cerveja sentado na mesa da calçada do bar, o Dagoberto me volta do banheiro com a idéia mais maluca:
- Ricardo, olha só o que eu tava pensando: vai que eu esteja no banheiro, tranquilo, e tal, e me chega uma nifomaníaca linda e me "força" a deixá-la fazer sexo oral em mim. Entendeu? Ela tipo me rende e começa o serviço... Eu fico pensando, pô, em algum lugar do mundo isso deve acontecer; já deve ter acontecido! Quem sabe esteja acontecendo nesse momento!
- Mas que sacana de sorte, que diabos! Por que as probabilidades mais ínfimas não acontecem com a gente? Tem que ser com outra pessoa! Que droga, fiquei com inveja desse cara agora...
Eu, surpreso, mas nem tanto, com a história - afinal, era o Dagoberto, e dele se pode esperar esse tipo de conversa -, tentei analisar a situação proposta, mas tive que comentar antes:
- Dagoberto, meu filho, o que diabos tu tá falando? Presta bem atenção, te coloca como ouvinte do que tu acabou de falar: Tu me chega aqui com essa história doida, e ainda fica indignado com uma situação que tu mesmo criou, e nem na tua imaginação tu te deu bem!
- O negócio tá brabo! Isso é falta de mulher, rapaz? - Até onde eu sabia, o Dagoberto tinha um bom relacionamento com a namorada, falei pra curtir mesmo - Haha, tá bom. O que tu quer que eu fale sobre essa tua história?
Ele caiu em si e tomou um gole da cerveja e se calou, depois de ter solto um "sei lá".
Dagoberto é um bom sujeito, gosto dele. De vez em quando tem esses "insights" meio fora de contexto, mas que pra ele faz o mais perfeito sentido. Eu acho até interessante isso, de viver nas idéias.
- Mas tem alguma mentira no que eu falei? É perfeitamente possível o que eu falei, não é? - Emendou ele.
Era possível mesmo, tive de concordar.
Quem sabe a loira que acabou de passar dirigindo um sedã fosse a tal nifomaníaca. Pelo menos linda ela era. Mas não falei nada pro Dagoberto, tenho certeza que ele ia demorar pra sacar a ironia.

Meus queridos natimortos

Meus queridos natimortos,

Pena vocês não cruzarem vida de ninguém; só hão de existir na minha lembrança agora. Queridos, a espera é igual para todos nós. Vida e morte. Só resta-lhes agora esperar a imortalidade dos seus irmãos.

Saudades, Júnior.

7.10.07

Letras minúsculas

Eu não sei escrever cartas de amor. Eu não sei nem demonstrar amor. Relações são sempre complicadas. A nossa começou nem lembro como, não é da infância. Mas o que parece é que somos desde crianças ligados, como dois pequenos que sempre jogam no mesmo time de rouba-bandeira. Como na música da Alanis, "Joining You".
E infantil mesmo é a nossa relação, parecemos duas crianças que disfarçam a todo custo os sentimentos, porque... sei nem porque. É como o guri que vive atentando a paciência da menina, só pra chamar a atenção dela, e quem sabe, por algum milagre, ela perceba nas brincadeiras sem-graça o significado real delas.
Nós nos comportamos assim, e não somos crianças. É só te ver citando versos de músicas em inglês carregados de romantismo, a ponto de serem bregas. Mas o inglês tira o impacto inicial da mensagem, e quem sabe, a intenção de quem a repete. É só uma música, afinal.
Por quê esconder? Eu não entendo isso. Não mesmo.
E mesmo sem entender, confesso que faço isso também. Às vezes me calo esperando que tu fale comigo; às vezes rasgo elogios para outras mulheres que nem me impressionaram tanto, só para ver tua reação - algum ciuminho reconfortante e outras bobagens do gênero. Mas se eu me calo, tu te calas; e se falo de outras, tu permanece indiferente. É um jogo que conhecemos bem a regra, e que, em uma dessas citações bregas, "para ganhá-lo, é preciso perder".
Seja verdade também que eu odiaria te ver com alguém, e eu sei o quanto te incomodou saber que conheci alguém realmente interessante e nunca te falei sobre. Pois isso signifaria termos de seguir nossas vidas, mas um para cada lado, e não é isso o que queremos. Seguir, senão a vida, mas alguns bons dias, será bem melhor estando nós dois no mesmo time de rouba-bandeira.