18.8.07

As tardes e os navios

O vento me incomodava, é verdade. Mas eu não cansava de ir todo fim-de-tarde observar aqueles dois admirarem os navios no horizonte. Era meio mágico, sabe? Não gosto muito da palavra "mágico", mas é o que aquilo parecia de fato. A praia, o sol poente, os navios inalcaçáveis, e os dois acompanhados apenas de suas longas sombras desenhadas na areia.
Não me coloque nessa conta. Eu era, digamos, o pintor desse quadro. Além do mais, o vento me incomodava um tanto. Não a ponto de me expulsar dali, mas incomodava. E o incômodo não era algo presente naquele momento. Nem pro sol, nem pros navios, muito menos praqueles dois. Ora, então eu fingia que não me incomodava também.
Engraçado era que sempre havia navios pra serem observados, e vez ou outra um dos dois apontava pra algum detalhe que eu ficava tentando achar. Outra coisa intrigante era que eles sempre chegavam antes de mim. Eu também não fazia questão de chegar antes. Mas que me intrigava, intrigava.
O melhor era quando eles levantavam de repente pra correr um atrás do outro, chutando a água. Ou então riscavam a praia inteira com aqueles vegetais com forma de pincel que a maré traz. Uma vez riscaram tanto, que o mar se atrasou na tarefa de apagar tudo durante a noite, o que surpreendeu os dois e eu no dia seguinte. Eu gostava mais dos dias assim.
Anos e anos nisso. Depois de alguns, apenas uma pessoa continuou a compor o quadro, e essa já não apontava mais, nem escrevia, nem corria. Às vezes passava minutos esquecida de que estava ali. Pra mim ainda era um quadro, e ainda tinha sua beleza, mesmo já sem aquelas duas pessoas e suas sombras. Uma sombra só não dava conta de cobrir a área que as duas cobriam.
Daí a sombra solitária daquela pessoa pareceu perder a cor; e os navios já eram mais tão freqüentes. Apenas o vento era o mesmo. Insisti mais uns meses naquela cena, mesmo com o vento.
E no primeiro dia em sete anos que não houve ninguém, senão eu, na praia, o sol julgou melhor esconder-se nas nuvens e tentar de novo no outro dia. E os navios finalmente chegaram em seus destinos. As sombras, creio terem embarcado nos navios.
Pois, isso era basicamente o que eu fazia nas tardes do meu octagésimo primeiro ano de vida. É, o vento me incomodava.

17.8.07

Baixo-falante

O baixo-falante fala por si só, poderia ser um autofalante. Mas não é essa a sua principal característica. O baixo-falante fala por si só, entretanto fala baixo. Quem reparar direito verá que ele sempre emite suas mensagens. Em meio a tanto barulho, as ondas emitidas pelo baixo-falante são perdidas. Ou refletidas.
Ora, sente-se perto do baixo-falante e ouvirás o que ele diz. As consonâncias e dissonâncias. E de tão baixo que fala, tenha certeza de que ouviu todas as notas. Isso, meu amigo, pode mudar totalmente o teu entendimento.
Talvez seja melhor ter um alto-falante? Suas ondas são ouvidas por todos, e menor atenção é requerida. São ouvidas, mesmo quando não são desejadas. Mesmo quando sentimos dor-de-cabeça.
Com suas polegadas, o baixo-falante talvez emita ondas além da audição humana. Ou aquém. Ele não se importa, é apenas um objeto destinado a emitir suas mensagens. Mensagem que talvez apenas uns alto-ouvintes possam ouvir.
O baixo-falante, não esqueça, será sempre falante, e falará sempre por si só.