23.12.07

A lua, a chuva e o elefante

Mas para ele, quando era necessário entrar nalgum cômodo do coração dela, parecia-lhe que era como andar na mata em noite de lua cheia. A lua era como o sol no céu desnudo de nuvens, tornando tudo disponível aos olhos, mas ainda assim, cobrindo os contornos da paisagem com cinzas e azuis fantasmagóricos e desvívidos.
As folhas das palmeiras gentilmente cumprimentavam-se enquanto ele passava pela trilha de areia batida que parecia brilhar à desmaiada luz da lua.
Caminhava, não com medo, mas com receio e ainda curiosidade, quando ouvia o farfalhar das borboletas noturnas, festejando silenciosamente o vento que as carregava. Confudiam-se às estrelas no céu que iam e vinham no calor morno das noites de agosto.
O calor que habitava no coração causava chuvas convectivas, que eram bem-vindas aos seres e inânimes daquela terra.
A chuva refrescava o suor insone de um solitário e imóvel elefante que descansava no descampado; o elefante fechava os olhos para protegê-los da chuva, e vez ou outra mexia uma das orelhas. Parecia sorrir.
Era até ali uma das mais belas cenas que havia visto na vida.
Toda aquela água ressonava ao bater na superfície do mar, que espumava brumas que amaciavam o solo do coração, enchendo o ambiente da tranquilidade igual ao sono das águas-vivas .
O coração parecia-lhe às vezes uma ilha ou uma sala, em que ela o convidava para apreciar as constelações do hemisfério sul, ou ainda para afogar as pernas no mar, enquanto contavam fábulas um ao outro, vigiados pela lua, pela chuva, e pelo elefante.

4.12.07

Prelúdio em Dó Maior

- Lá me vem tu com essa conversa de novo, Daniela!
Eu sei que ela prefere - e até eu prefiro - chamá-la por Dani, mas fazer o quê, escapuliu.
Ela me olha meio desconfiada por isso, se cala um pouco, e vira o rosto pra janela do carro. Eu continuo dirigindo e prestando atenção aos buracos da rua. Quando começo a pensar - não, nem isso! Quando começo a pensar em pensar, ela me corta:
- "Nhé nhé nhé de novo, Daniela!" - e me imita de um jeito que eu só teria falado se tivesse me faltando mais da metade dos dentes na boca. Olho pra ela e solto um riso, e também reparo que alguns fios do cabelo dela estão mais curtos. Será por causa do penteado ou ela cortou mesmo? Vamos saber, né:
- Tu aparou teu cabelo?
Não termino de articular "lo" do "cabelo" quando ela já me corta de novo:
- Nossa, - me diz bem séria, me apontando o indicador que estava antes descansado dentre os braços cruzados - engraçado tu ter reparado isso quando ele já tá quase do tamanho de antes!
E volta a cruzar os braços. Não preciso dizer que não teve nada de ameaçador na cena. Eu e ela sabemos disso. Dani gosta desses teatrinhos. Eu também.
- Fazer o quê, se eu tenho visão Thundercat... (Essa eu aprendi com meu professor de química).
Ela se dana a rir e me dá um tapa de leve; poderiam dizer que foi carinhoso, mas eu tenho minhas dúvidas.
Tô brincando, tô brincando.
Volto a vista para a via mais uma vez ("Vozes veladas, veludosas vozes" haha), e mudo a música do CD. Isso tem que ter uma trilha sonora, nada mais natural.
Ao som da música, pensei: Daniela, daniela, quem eu já conheci por dani, e me esquecia sempre se terminava em "A" ou "E". Depois da terceira noite, ou melhor, a Terceira Noite, minha dúvida foi embora. Entendeu o motivo das letras maiúsculas, né?
Pois é. Na época que eu perambulava em sonhos doidos e talvez inalcançáveis, Dani me puxou os pés e disse "Tô bem aqui!" Nossa...
Ela sou eu, sabe? Minha versão telúrica, com uma bela pele e sorriso. Vive falando besteira, e é muito inteligente. E fala tanto que dá bom-dia até pra cavalo, como diria minha mãe. Eu gosto de atentar ela, gosto mesmo. E além do mais,
- Continua falando, Tio Cabeça! - Me chama que nem minha sobrinha de dois anos diz. Já disse que ela fala demais? Concluo que ela puxa meus pés mais uma vez à Terra.
Sorrio e aperto a ponta do nariz dela com a palma da minha mão.
- Tua cara. - respondo sorrindo. - Mas me diz, o que eu digo? Pera, já sei: me diz... ah, forçando assim não sei! Finge aí que tu não perguntou nada.
- Tá bom. - ela entra no jogo. Aí já gosta de uma brincadeira...
Quatro ou cinco segundos depois, lembro de um assunto. Ergo o dedo, e digo com uma boa impostação:
- Lá me vem tu com essa conversa de novo, Daniela!

3.12.07

Mais um conto simbólico

O Marcelo era um garoto azul, como algumas divindades hindus. Azul daquele jeito. E por mais estranho que isso soe, e realmente seja, poucos reparavam que ele era azul. Perceber, todos percebiam, como se percebe que alguém é vesgo ou manca levemente um pé. Mas poucos realmente prestavam atenção à sua cor.
Marcelo tem uma vida social normal, e às vezes congue ficar até da cor das outras pessoas, e ser mais normal ainda. Mais normal. O "normal" de todo mundo, claro. Marcelo sabe que não se pode viver isolado de toda essa gente, e nem faz questão de tal. Gosta de estar entre os outros, os que são diferente dele, na verdade quem é diferente é o Marcelo, mas ele não liga pra isso. Não quando está em outra cor.
Mas quando é azul, Marcelo se isola, e gosta disso. E se põe a pensar sobre tudo, e a escolher as matizes de seus raciocínios e idéias. Menos dos sentimentos. Estes não têm cor nenhuma para Marcelo. Nem mesmo preto ou branco. Ele tenta entender o porquê disso, mas não consegue, não consegue mesmo.
Ah, o Marcelo ganhou óculos no início da infância. Mas ele tem a vista boa, em qualquer cor que esteja sua pele. Ele tentou usá-los para tentar ver as matizes dos sentimentos, mas não resultou em nada. Também nunca o jogou fora, sabe que vai precisar dele. Na verdade, trata os óculos com o maior zelo, como se realmente tivessem importância, mas não têm. Às vezes tem vontade de jogá-los fora, mas sempre acha melhor não. Devia vir com um manual de instruções. Aí sim ele veria todas as matizes, e saberia usar os tais óculos.
Marcelo, quando está entre azul e qualquer outra cor, pergunta para os míopes como usar os óculos. Aprendeu tudo, mas não consegue aplicar à pratica. Sabe das distâncias focais, espessura, grau da concavidade, e tudo mais. Sabe até mais de quem usa os óculos. Mas Marcelo, não. Marcelo nunca entendeu e incorporou seus óculos.
Esse é o Marcelo, pele azul e com óculos inúteis nas mãos.
Desenhá-lo seria fácil. Seria preciso só fazer um rosto triste e pintar de azul.