terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Prelúdio em Dó Maior

- Lá me vem tu com essa conversa de novo, Daniela!
Eu sei que ela prefere - e até eu prefiro - chamá-la por Dani, mas fazer o quê, escapuliu.
Ela me olha meio desconfiada por isso, se cala um pouco, e vira o rosto pra janela do carro. Eu continuo dirigindo e prestando atenção aos buracos da rua. Quando começo a pensar - não, nem isso! Quando começo a pensar em pensar, ela me corta:
- "Nhé nhé nhé de novo, Daniela!" - e me imita de um jeito que eu só teria falado se tivesse me faltando mais da metade dos dentes na boca. Olho pra ela e solto um riso, e também reparo que alguns fios do cabelo dela estão mais curtos. Será por causa do penteado ou ela cortou mesmo? Vamos saber, né:
- Tu aparou teu cabelo?
Não termino de articular "lo" do "cabelo" quando ela já me corta de novo:
- Nossa, - me diz bem séria, me apontando o indicador que estava antes descansado dentre os braços cruzados - engraçado tu ter reparado isso quando ele já tá quase do tamanho de antes!
E volta a cruzar os braços. Não preciso dizer que não teve nada de ameaçador na cena. Eu e ela sabemos disso. Dani gosta desses teatrinhos. Eu também.
- Fazer o quê, se eu tenho visão Thundercat... (Essa eu aprendi com meu professor de química).
Ela se dana a rir e me dá um tapa de leve; poderiam dizer que foi carinhoso, mas eu tenho minhas dúvidas.
Tô brincando, tô brincando.
Volto a vista para a via mais uma vez ("Vozes veladas, veludosas vozes" haha), e mudo a música do CD. Isso tem que ter uma trilha sonora, nada mais natural.
Ao som da música, pensei: Daniela, daniela, quem eu já conheci por dani, e me esquecia sempre se terminava em "A" ou "E". Depois da terceira noite, ou melhor, a Terceira Noite, minha dúvida foi embora. Entendeu o motivo das letras maiúsculas, né?
Pois é. Na época que eu perambulava em sonhos doidos e talvez inalcançáveis, Dani me puxou os pés e disse "Tô bem aqui!" Nossa...
Ela sou eu, sabe? Minha versão telúrica, com uma bela pele e sorriso. Vive falando besteira, e é muito inteligente. E fala tanto que dá bom-dia até pra cavalo, como diria minha mãe. Eu gosto de atentar ela, gosto mesmo. E além do mais,
- Continua falando, Tio Cabeça! - Me chama que nem minha sobrinha de dois anos diz. Já disse que ela fala demais? Concluo que ela puxa meus pés mais uma vez à Terra.
Sorrio e aperto a ponta do nariz dela com a palma da minha mão.
- Tua cara. - respondo sorrindo. - Mas me diz, o que eu digo? Pera, já sei: me diz... ah, forçando assim não sei! Finge aí que tu não perguntou nada.
- Tá bom. - ela entra no jogo. Aí já gosta de uma brincadeira...
Quatro ou cinco segundos depois, lembro de um assunto. Ergo o dedo, e digo com uma boa impostação:
- Lá me vem tu com essa conversa de novo, Daniela!

4 comentários:

secoelho disse...

Mundico, eu prometo que eu vou fazer um post explicando o porquê de "e o mundo seguiu adiante", já pensei nisso algumas vezes e eu acho que já sei até o que escrever

ps.: vou ler teu texto quando eu chegar da ufma (tô atrasada agora)

tinhamo =*

secoelho disse...

Mundico, Daniela existe?
hauahauahaua, ai ai, não sei por que eu sempre quero marocar a tua vida =p
Esse texto tá massa, eu não sei como tu consegue criar as melhores histórias, mas tiveram partes que eu achei confusas...
Mas eu amei o "vozes veladas, veludosas vozes"

Ananda disse...

"Dani"-se o mundo, quando você está aqui.


Hm... adorei. Qual seria a trilha sonora ?

404 Not Found disse...

aoihsoiaoshia, gostou?
foi um amigo meu que fez, só fui dizendo como eu queria... é que sou apaixonada pelo jack e a sally.
Ahh, eu vi o tal video, e gostei muito, é fofinho demais :)
eu tinha lido esse seu post, até esqueci de comentar, tava dando uma geral nos post que nao te acompanhei... :*