23.2.08

Retrato em cores

Dois pontos

Quando eu te convidava pra pizzaria
e tu me dizia que era lugar de idosos e casais com crianças barulhentas
embora tu sempre aceitasse a um segundo convite

Quando tu treinava comigo as apresentações dos trabalhos da faculdade
mesmo sabendo que o real motivo de eu estar ali
era o lanche que a tua mãe preparava

E que falando nela,
tu gostava de me deixar sem graça na presença dela
falando de como eu achava o sotaque dela engraçado

Quando te ensinei a dirigir, e tu estancava o carro
sempre que eu dizia "não olha pra marcha"
e me reclamava que ficasse calado, e eu replicava que tu era telepática

Eu acariciava os polegares nas tuas sobrancelhas
e tu ria sem motivo nenhum,
porque na sobrancelha ninguém tem cócegas

E te ensinei a tocar o violão,
e gostava de ajeitar a posição dos teus dedos
e tinha até pena de vê-los marcados pelas cordas

Achei graça até quando tu resolveu banhar na chuva
e passou a semana seguinte gripada
mas pelo menos eu gostei, tu me disse

Quando eu reclamava que a água era gelada demais para me barbear
e não sei de onde tu veio com um balde de água mais gelada
e me molhou, e achei aquilo desconfortável, mas fantástico

E de tanto me ouvir cantar músicas do Jobim
passou a gostar dele também
e deixou de achar os peixinhos a nadar no mar ridículos

E me cobrava tanto e tantas cartas de amor
no que eu dizia que a inspiração não tinha hora
e eu achava minha resposta tão ridícula quanto os peixinhos

Sem falar na minha foto três por quatro que tu mantinha na carteira
e eu nunca entendi por que guardar algo tão sem sal
que me lembrava formulários ou filas de banco

E hoje onde estou sem eiras, e cheio de beiras
Recorro ao retrato de nós dois e um desconhecido que me cobriu a metade
Feito no dia em que te conheci

No dia que o sol me pareceu ter brilhado um pouquinho mais

10.2.08

A longa viagem (ou A morte das borboletas)

O sol incendeia o céu enquanto cortamos a estrada ao meio-dia rumo à cidade de Santa Inês. A vegetação marginal à estrava mostra seu fulgor decorrente da época de chuva que o início de cada ano propicia, e assim, toda a vida inicia o ano com plenitude, logo que as sementes vindas com as chuvas são germinadas.
Lagartos, formigas, palmeiras, pássaros, flores.
No calor do meio-dia vinham as borboletas provindas do capim, e atravessavam a estrada a todo instante, num belo espetáculo. Celebram o vento, o néctar, o sol.

E assim morrem no pára-brisa.

Há de se pensar que elas não deveriam morrer, acabar uma cena tão vistosa assim, com mortes sem sentido, inesperadas. No pára-brisa, toda a poesia se esvai. Pára-brisas não podem entrar de jeito nenhum em qualquer expressão artística.
E tal espetáculo, como fica? Pra quê então chuva? O que fazer parar acabar com isso? O carro não pode parar, a viagem urge para que cheguemos logo ao destino. O que nos resta a fazer, nós, que estamos vivos, é simplesmente se conformar e limpar o pára-brisa, e aguardar as próximas borboletas, num ciclo contínuo, até que cheguemos ao fim da longa viagem que é a de São Luís e Santa Inês.

- Júnior, te arruma, teu oitavo irmão morreu.

Há de se pensar que ele não deveria morrer, acabar uma trajetória tão vistosa assim, com uma morte sem sentido, inesperada. Em Santa Inês, toda a poesia se esvai. Não me ocorre nenhum poema ou conto situado na cidade, ou mesmo que a mencione.
E como nós ficamos? Pra quê então tanta lágrima? O que fazer parar acabar com isso? Ninguém pode parar, e a vida urge para que cheguemos logo ao destino. O que nos resta a fazer, nós, que estamos vivos, é simplesmente se conformar e enxugar as lágrimas, e aguardar que as sementes deixadas brotem, num ciclo contínuo, até que cheguemos ao fim da longa viagem que é a vida.