domingo, 10 de fevereiro de 2008

A longa viagem (ou A morte das borboletas)

O sol incendeia o céu enquanto cortamos a estrada ao meio-dia rumo à cidade de Santa Inês. A vegetação marginal à estrava mostra seu fulgor decorrente da época de chuva que o início de cada ano propicia, e assim, toda a vida inicia o ano com plenitude, logo que as sementes vindas com as chuvas são germinadas.
Lagartos, formigas, palmeiras, pássaros, flores.
No calor do meio-dia vinham as borboletas provindas do capim, e atravessavam a estrada a todo instante, num belo espetáculo. Celebram o vento, o néctar, o sol.

E assim morrem no pára-brisa.

Há de se pensar que elas não deveriam morrer, acabar uma cena tão vistosa assim, com mortes sem sentido, inesperadas. No pára-brisa, toda a poesia se esvai. Pára-brisas não podem entrar de jeito nenhum em qualquer expressão artística.
E tal espetáculo, como fica? Pra quê então chuva? O que fazer parar acabar com isso? O carro não pode parar, a viagem urge para que cheguemos logo ao destino. O que nos resta a fazer, nós, que estamos vivos, é simplesmente se conformar e limpar o pára-brisa, e aguardar as próximas borboletas, num ciclo contínuo, até que cheguemos ao fim da longa viagem que é a de São Luís e Santa Inês.

- Júnior, te arruma, teu oitavo irmão morreu.

Há de se pensar que ele não deveria morrer, acabar uma trajetória tão vistosa assim, com uma morte sem sentido, inesperada. Em Santa Inês, toda a poesia se esvai. Não me ocorre nenhum poema ou conto situado na cidade, ou mesmo que a mencione.
E como nós ficamos? Pra quê então tanta lágrima? O que fazer parar acabar com isso? Ninguém pode parar, e a vida urge para que cheguemos logo ao destino. O que nos resta a fazer, nós, que estamos vivos, é simplesmente se conformar e enxugar as lágrimas, e aguardar que as sementes deixadas brotem, num ciclo contínuo, até que cheguemos ao fim da longa viagem que é a vida.

2 comentários:

Rodrigo disse...

É,de longe, a coisa mais bonita que tu já escreveu.

e qualquer coisa, estamos aí...

abraço

Ananda disse...

Meu deus, que muito-massa!