14.11.07

O subconsciente

O sujeito do andar de cima está arrastando os móveis mais uma vez. Acho que já devem ser umas onze da noite, mas ele insiste em manter esse hábito de arrumar, creio eu, a sala nesse horário, toda quinta-feira.
Deve morar sozinho, como eu. Penso se ele também prepara apenas pratos refinados, como eu faço. Jantares e almoços solitários que não são refinados por vontade, mas por necessidade - os editores deveriam saber que algumas pessoas que compram revistas de culinária querem saber apenas comida básica para o dia-a-dia, e não risoto de macarrão ao molho búlgaro.
Ao andar de cima, poucos vão, eu mesmo fui raras vezes. A vista de lá permite ver o que não é visto dos outros andares. O parque atrás do estacionamento, onde casais bricam no meio da noite; na rua se vê meninos roubando bolsas de executivos, valises de crianças e doces de senhoras, dentre outros crimes que ninguém observa; a mulher quem realmente amo, apenas a vejo passar quando estou porventura no andar de cima, nunca no meu.
O sujeito do andar de cima me engana sempre que o vejo, faz um gesto tão sutil que nunca chego à conclusão se é um cumprimento ou apenas minha imaginação. Tem minha idade, mas não cuida da aparência. Pudera, nunca o vi fora do prédio, nem saindo, nem entrando. Apesar da aparência envelhecida, ele tem minha idade, e isso é uma certeza que me foi embutida desde a primeira vez que o vi.
Ele continua a arrastar os móveis, e já são onze e quarenta e cinco. Mas ele arrasta os móveis nalguma melodia estranha. Alguma melodia fora do nosso sistema musical. O ritmo é bem marcado, e fato esse que fico com sono quase toda onze da noite de quinta-feira, o que quer que eu esteja fazendo. Às vezes penso se não é um ensaio, ou que ele talvez seja um inventor de instrumentos musicais. As paredes do meu apartamento ressoam em uma frequência silenciosa e confortável, e lá no térreo as crianças bricam com os pingos metálicos que caem do andar de cima. Riem bastante, misturando as risadas com o vago som de cítara das paredes.
A quinta-feira dura até a meia-noite, e tudo acaba assim que o primeiro minuto da sexta-feira se exibe nos relógios. Então, ligo a televisão e me pergunto se o sujeito do andar de cima também está assistindo ao canal de culinária, ou algum programa de bricolagem. Sabe, quem mora só precisa assistir a essas coisas.

Um parágrafo

Tu foste uma das coisas mais reconfortantes que eu pude ver naquela noite. De tão parada que tu estavas, enquanto todos seguiam as músicas, chamou minha atenção. Polegares enfiados nos bolsos da calça enquanto olhava às vezes para o palco, às vezes para o lado; cabelos presos num rabo-de-cavalo; e vez ou outra descansava os pés apoiando-se nas laterais deles. Além do mais, tu era a única ímpar no teu grupo de amigas (o que te incomodou um tanto), que estavam todas acompanhadas dos namorados - e que reclamavam também do fato de estares tão alheia ali onde todos se divertiam tanto. Mas eu te entendo, endendo sim. Entendi até a mania de puxar um pouco o lábio inferior com o polegar e o indicador, e que tu deixaste escapar e pensou que não houvesse ninguém vendo. "A menina como uma flor", isso ia e vinha na minha cabeça. Eu estava ali vendo e aquecendo a alma nos teus modos. E também não deixei de notar quando todos levantaram as mãos e aplaudiram, tu foste a única permaneceu com os polegares no bolso. Eu não deveria estar escrevendo isso, mas estou, e te confesso que desde de aquela hora minha vontade era de ir embora dali e alcançar o caderno e lápis mais próximos para te jogar nessas linhas, apenas isso, te guardar nessas linhas.

6.11.07

As argolas que só eu reparei

Sétima série, era hora do intervalo. Lá estava você, extraordinariamente linda. Lá estava eu, pensando se isso poderia ser possível.
Engraçado, naquele dia eu não tinha te visto lá lanchonete onde tu sempre aguardava o começo das aulas. A Camila faltou? Aquele dia de aula seria apenas um dia de aula se tu tivesses faltado, e realmente foi, até a hora do intervalo.
Só que agora era hora do intervalo, e eu estava na sétima série, assim com você. E eu não sei se sou atrasado pra essas coisas, mas tu foste meu primeiro amor. Ali, na altura da sétima série. Naquele dia da sétima série, naquele intervalo da sétima série.
E agora? Eu tinha que passar na tua frente. O caminho para o pátio estava adornado pela bela estátua de Camila.
Não sei o que tinha acontecido, mas naquela época a gente já não se falava mais. Eu e meu magnífico dom de puir minhas relações mais importantes e construir perfeitos casos mal-acabados.
E lá tu estavas no corredor e - meu Deus -, como aquela gente toda conseguia passar sem reparar em ti? Naquele dia tu usavas brincos de argola, e o cabelo preso. Eu nunca tinha te visto daquele jeito, usando aquelas argolas que só eu reparei.
E esse caso mal-acabado me deixava sem saber como agir. Eu queria passar como mais um daqueles alunos que passavam como se fosse um dia qualquer em suas respectivas séries, e nem sabiam da tua existência. Só que eu sabia muito bem da tua existência, e aquele não era um dia qualquer na minha sétima série.
Aquele meu dia não era mais um dia de aula. Era mais até que um dia normal. Era o dia em que eu te vi mais linda que sempre, o dia em que faz com que um primeiro amor seja memorável pelo resto da vida.
O que eram aquelas argolas? Naquela época eu nem sabia que tinham esse nome, achei que aquelas coisas tinham sido criadas só pra Camila. Não sabia nem que depois de tanto tempo, elas continuariam me chamando a atenção inclusive nessa lembrança repentina de ti.
Aliás, não lembro bem o que pensei ali. Acho que até esqueci de fazer isso no momento. Pensar pra quê, se tu estavas ali, ainda me olhando, brincando com minha timidez?
Afinal, era um intervalo da sétima série, e na sétima série eu apenas esperava o futuro que não veio, assim como tu sempre esperavas as aulas naquela lanchonete.

Soneto do Amor Platônico

O amor soturno, sombra em temores
Não sabes que resignas-te em vão
Pelo anjo protetor que conforta noites
E deseja tua serena iluminação

Se choras a solidão, o frio e o abandono
Saiba que meus olhos procuram com fervor
O sorriso onde aqueço meu outono
Mas sequer sabes da existência desse amor

Um coração que se alegra com teu sorriso
E se entristece com tuas lágrimas
Nesse eterno espelho a refletir teu brilho

Uma alma que sofre com duas feridas;
De carregar a tristeza desse amor
E por tu não saberes que és tão querida

O espelho

Eu estava sentado na calçada, descansando um pouco as pernas enquanto tomava mais um gole do refrigerante. Faltavam apenas umas poucas horas pro sol nascer novamente, e todo mundo buscava o caminho de casa. E sempre existem aqueles que mesmo após um show exaustivo procuram outro lugar pra se cansar mais ainda. Pra eles não se trata de canseira nenhuma, claro.
Enfim, sentei-me na calçada e reparei que tinha a moça mais linda sentada ao meu lado, mas não tão perto que alguém nos visse e julgasse que fazíamos companhia um ao outro. Não tentei, e nem tive a intenção de me aproximar dela. Admirá-la já me satisfazia naquele momento. E que fique claro que minha admiração se resumia a poucos olhares furtivos que desviavam dela, caso fossem descobertos.
Nisso, veio um rapaz e sentou-se próximo a ela. Não disse "oi" nem nada, ela tampouco. Mas percebia-se que eram conhecidos. Depois de cinco ou dez minutos de silêncio, para surpresa dela (e minha), ele perguntou:
- Como tá o teu coração?
Ela não respondeu de imediato. Ficou confusa entre entender a pergunta ou achar uma resposta, pensei. Ele percebeu a situação, que me pareceu um tanto premeditada, e continuou:
- Não precisa responder. Na verdade sempre quis te perguntar isso, e sempre imaginei o que tu responderias. Nessa tua extroversão, tu pareces tão misteriosa, teu coração é tão misterioso... não sei o que me deu agora, mas não faço questão que me diga como está o teu coração. Acho que o que eu queria mesmo era te perguntar isso, só. "Como tá o teu coração"... Pra mim, tu responderias se abrindo totalmente comigo, e contando o que te aflinge e o que te alegra. Mas não sei, não faço mais questão disso. Não que tenha perdido a importância, mas vejo que é melhor deixar subentendido. Além do mais, tu sabes que eu sou calado, gosto do silêncio e tal, mas pra falar a verdade, eu odeio o silêncio. O silêncio assim, a dois. Minha cabeça trava num silêncio com alguém do lado, ainda mais você.
Ela olhava curiosa pra ele, acho que ele nunca se comportou daquele jeito. Não, aquilo não foi premdeitado. E ele definitivamente não estava bêbado. Percebi que tentava falar olhando nos olhos dela, mas falhava a cada cinco palavras. Identifiquei-me um pouco com ele. Ou muito, não sei. Na hora não deu pra pensar muito sobre isso.
Não havia terminado ainda:
- Acho que essa minha pergunta foi só pra quebrar o silêncio. "Como é o teu coração", "como tá o teu coração"... O coração não é algo que se revela desse jeito.
- Engraçado, acho que os papéis se inverteram, olha só. Eu, o calado, tô aqui falando mais que devo; e tu, que sempre fala e fala, só me ouve.
Então ele calou-se e engoliu seco. Pareceu se dar conta de que falara demais mesmo. Afinal, seriam eles namorados? Fiquei tentando agora descobrir a relação entre eles.
A essa altura eu tinha esquecido do refrigerante, o qual já havia esquentado.
Ela limitou-se a apoiar a têmpora na mão e a abrir um sorriso tão lindo quanto ela. Era um sorriso maternal.
Antes que qualquer coisa a mais pudesse acontecer, levantei-me e limpei a poeira da minha calça. Ele me olhou pelo movimento repentino que fiz, mas logo viu que não se tratava de ameaça alguma e voltou a fitar o vazio. Eu, fui ao encontro de amigos para ir embora. O que ele queria dizer já havia dito, e o que me interessava eu já tinha ouvido.
Ali percebi que eu não era o único nesse mundo.

2. Um sussurro

Pois assim mesmo eu te mordi, do jeito de comer. É, te arrancar um pedaço e saborear, depois engolir.
(risos)
Mas claro que eu tô brincando, imagina.
(Silêncio muito confortável, e os dois fecham os olhos; ele continua a sentir o morno do pescoço dela, e ela sorri).
Mas te abraçar eu posso, não posso? Oh céus, como eu te amo, que diabos... Ops! Que frase essa, a que eu disse.
Considera só até o "eu te amo", só até o "eu te amo". E não solta não, me dá aqui tua mão.

1. Um suspiro

Um verso mal-cantado. Pelo menos afastam os males, as músicas; ou menos ainda, deveriam. Esse que canta sabe o que diz, e o que escuta já tentou saber ouvir alguma vez.
Não, parece difícil demais saber ouvir.
Sinceramente me pergunto o porquê disso tudo. Uma hora acaba, não é? E depois vem de novo, e outra vez, e sempre é a primeira vez; e por isso não se ouve, nem se aprende.
Cansa, cansa mesmo.
Os que desistiram pareceram pra mim até certo tempo eram esquisitos e distantes. Mas eu entendo-os. Eu não queria entendê-los, mas fatalmente entendo-os. E os nossos desejos também formam o que somos. Apóio-me nessa linha, antes que ela parta.
...Talvez seja melhor continuar com as palavras no vidro embaçado.

Encomenda para a senhorita Denise

É inocência que se mostra em um homem que achar saber sobre as mulheres, ou pior; controlar esse conhecimento. Mas já que ele caiu nessa besteira, é interessante acompanhar o que inevitavelmente vai acontecer, da mesma forma que se acompanha uma novela (que aliás, trata tanto disso).
A categoria do que vai acontecer, naturalmente, depende da categoria da mulher envolvida na história. Não vou me reter citando e comentando cada tipo e categoria; indo direto ao ponto, o tipo mais "produtivo", mais passional (por quê não?), mais instigante, é a mulher - escolhendo bem o adjetivo - retaliadora . Nos mesmos quinhentos, a mulher vingativa.
Só em dizer a "a mulher vingativa" vem à mente uma moça voluptuosa com uma arma na mão, a qual se vê no rosto que não hesitaria em puxar o gatilho. Aliás, ela procura o menor motivo para isso. A diabólica, como eu também gosto de chamar (pois também imagino-a às vezes com cauda de seta e chifrinhos, ateando fogo em tudo o que vê), tira o sono do coitado do nosso amigo, deixa-o à beira da loucura com pequenas armadilhas que se enquadram bem no conceito de "tortura", persegue-o sem precisar sair do lugar ... enfim, um espetáculo que lotaria a casa, e eu pagaria para assistir da primeira fileira. Assistir acontecer com os outros, é claro.
Ainda tem aquelas que arquitetam planos infalíveis de vingança; estas poderiam ser roteiristas de filmes de suspense. A imagem dessas já seria a bela de terno, do alto de seus saltos, e óculos harmoniosamente repousados em seu nariz. Segura ainda uma maleta (quem sabe não é lá que os planos estão guardados?). Causam destruições imensas com duas palavras. As melhores, com apenas uma. Palavras escolhidas cuidadosamente que encaixa como peças de quebra-cabeça na cabeça (quebrada) e no coração do sujeito. Não há quem diga que elas são capazes das mesmas proezas que as diabólicas que incendeiam o circo, já citadas. Essas são sutis, resumindo. Mas realizam espetáculos tão bons quanto.
O homem enrascado nessa teia nunca pôde imaginar que havia tanto mais a se aprender com essas figuras angelicais. Figuras. Se se olhar o lado positivo, existe a esperança de já ter aprendido e não cometer o mesmo erro. Não mesmo.
O final do espetáculo, a novela, ou do filme de suspense se dá quando ela bem entender. A personagem manda na história. Para o bem de quem o assiste, ou o mal do pobre-coitado que se viu vilão do enredo escrito por tão adorável criatura. É, no fim das contas uma criadora/criatura adorável, a qual ele está sempre disposto a cair na trama tecida por ela.(*)

*Final número 1.

Crônica do quarto escuro

O sono não veio. As cortinas abriram-se, e as contrações de quem quer nascer logo são sentidas.
É à noite, e no silêncio que se desenham os esboços e as artes-finais de idéias, aforismos, esperanças, desilusões, teorias e todo pensamento que bater à porta da mente e parecer uma visita de boa conversa.
À noite é quando se ouve melhor, no escuro é onde se sente mais, e o silêncio torna-se audível.As únicas testemunhas desse momento são as paredes que se perdem na escuridão. Assistem quieta e atentamente as projeções inquietas e desconcentradas do protagonista de uma peça que se encerra logo que o sol do dia seguinte desponta na janela.
Enquanto ele não chega, os pensamentos paridos lançam-se sem cerimônia ao ar; e se ainda não estão aptos a voar, caem e se acumulam ao redor da cama, onde esperam sobreviver até o próximo dia. Lá ainda misturam-se às lagrimas e risos, que porventura escorregam, já que foram impedidas de sair na claridez.
E as paredes continuam lá, acompanhando o capítulo da noite. Reverberando velhos e teimosos devaneios que insistem e retornar à ópera. O protagonista é o mesmo de sempre, mas a peça ainda está longe do seu fim. Às vezes ele mira o infinito, quem sabe tentando escapar do brilho ofuscante dos holofotes e enxergar a platéia que se protege nas trevas. Mal sabe ele que a casa está vazia, apenas um aqui e outro ali assistem à exibição.
Depois do parto da ninhada de pensamentos, o gerador repousa seu merecido descanso; o ator fecha as cortinas do próprio espetáculo, e ambos - mesmo que sejam a mesma pessoa - são surpresos ocasionalmente com um teatro de bonecos.
O que importa agora é apenas assistir aos bonecos e quem sabe acordar no dia seguinte com um sorriso inexplicável no rosto.

Balsas

Algumas vezes passamos por experiências que nem sonharíamos que fossem algo de produtivo, ou mesmo algo que traria um adendo à nossa vivência nessa tal Terra. Pois bem, explicando o porquê dessa reflexão, contarei sobre uma viagem que fiz à Balsas há bem pouco tempo. Fui para lá a cargo de proferir palestras, e como prediz a primeira frase desse texto, esperei nada mais do que lecioná-las.
Eis que ao chegar na cidade, vi que a estadia traria algo a mais.
Cheguei às algumas horas da noite de um domingo no que parecia ser uma das principais ruas da cidade, onde havia uma sorveteria e uma pizzaria em cada lado desta. Ah, essa cidade é interessante, sim senhor! As mulheres que povoavam aqueles estabelecimentos traziam um brilho diferente em suas auras, fato que também notado por meus companheiros masculinos.
Incrível como elas movem-se graciosamente, desviando-se com facilidade entre as investidas de seus conterrâneos do sexo oposto, que cá entre nós, acho nem sequer possuem brilhos nas auras; não o digo com certeza, pois quase nem percebi a existência deles. Mulheres de pele macia, e cabelos viçosos; olhos e bocas maravilhosos por si sós, ainda mais deslumbrantes emoldurados por belos rostos. Assiti a tal cena como uma criança em uma loja de doces.
Como sempre existe um "porém", este resolveu dar as caras agora. Infelizmente não pude ter o deleite de poder conhecê-las melhor naquele momento. Nem de ouvir os doces timbres de vozes que pude perceber apenas de longe.
O motivo do porém, de tão banal, não convém à história, bem o sei. Sei ainda que novamente me imaginei a criança na loja de doces, mas uma criança diabética.
Prosseguindo, no dia seguinte - "hora da palestra, afinal". A caminho do auditório, ainda andando pelas ruas da cidade pude confirmar minha primeira impressão. Encantava-me em qualquer esquina com um rosto surgido sabe-se lá de onde. Francamente isso foi um tanto demais para o meu pobre coração que não se adaptou a tão forte sobrecarga. Mas em tudo dá-se um jeito, até mesmo nesse danado. Dizem que ele pode suportar mais do que se pode imaginar. Ali, sem dúvida, seria um bom local para verificá-lo. Maldito futuro do pretérito.
Ah, Balsas, onde até as mulheres feias são bonitas, e até as mulheres que não são feias, nem bonitas, são desejadas. Sei que não estendeste, pude senti-lo. Infelizmente não há outra maneira de colocar a sentença, creio que apenas passando por essa experiência para compreendê-la plenamente.
Gonçalves Dias uma vez disse "não permita Deus que eu morra sem que eu volte para lá". Tenho pra mim que não foram exatamente essas palavras, e muito menos que ele se referia à Balsas, mas pelo que há de perceberes nesse texto, é exatamente o que sinto nesse momento. Se o poeta já não houvesse criado esse verso, acredito que ele brotaria nesse instante através agora das teclas de um computador. E eu voltarei sim, claro, hei de voltar ainda em vida para Balsas. Permita Deus.

Para Mercedes, é claro

Ela me faz sentir um humano incompleto. Não que qualquer humano seja completo, mas dessa essência humana, que por si só é incompleta, sinto que ainda falta-me chegar à essa não-totalidade. É incrível como assim mesmo, ela me leva a achar que posso tornar-me uma pessoa completa (ainda na condição de incompleto).
Simplificando, seria ela a deusa, e eu o religioso. O religioso que aspira chegar à condição de deus, apenas para poder ficar próximo dela.
Nada mais humano.
Ainda a acho inalcançável. Mas pra quê desistir?

*

Agora, a deusa coroada, não confudis. A única coisa que trago dela é a lembrança. Como um Florentino Ariza, aguardo e mantenho os pés no caminho, para enfim alcançar a deusa coroada. A deusa coroada, que não é desde sempre deusa, e os pés, que nem sempre se mantêm no caminho. Como disse, só existe, agora, a lembrança. Como um verso mal-entendido que nos impede de prosseguir no livro. Mas pra quê fechar o livro? e pra quê deixar de ler outros? (Acho que todos temos ou tivemos deusas coroadas na vida; alguns trazem para si o paraíso, outros permanecem humanos.)

*

E se fôssemos a deusa coroada de alguém? Sempre alguém há de nos vir desse modo, assim como nós, os outros. O religioso tornaria-se deus? * É o desejo, afinal, de qualquer um capaz de amar. Existem humanos fabulosos, que vivem como se não fosse humanos, muito menos deus, ou deusas coroadas. Encantei-me por uma quando procurava ser um deus. Foram belos aqueles dias, como são aliás, os dias em que somos encantados por qualquer ser. Os humanos fabulusos encantam, e eu soube então que não encantam apenas a um só. Mas o encanto, esse não se sabe ainda como o desfazer.
.............
Querer ser melhor. Querer criar, talvez um universo; e que seja todo para ela. Querer proteger, e ser protegido, e me proteger. Sorrir em lembranças presentes. Sentir o peito encharcar a dor escorrida.
E ainda mal se consegue falar.

Receita de Chá

Pergunte a alguma pessoa que consideres muito, muito mesmo, o que ela acha de ti. Sinceramente.
Feito isso, não julgue que ela esteja equivocada em algum ponto o qual não concordas, nem que esteja absolutamente correta em um ponto certo.
Então depois de algum dias, ou algumas horas, faça um julgamento.
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Pergunte a alguma pessoa que não te conheça muito, um conhecido apenas, o que ela acha de ti. Sinceramente.
Feito isso, não julgue que ela esteja equivocada em algum ponto o qual não concordas, nem que esteja absolutamente correta em um ponto certo.
Então depois de algum dias, ou algumas horas, faça um julgamento.
-
Pergunte a si mesmo, não qualquer sujeito, o que achas de ti. Sinceramente.
Feito isso, não julgue que estejas equivocado em algum ponto o qual não concordas, nem que esteja absolutamente correto em um ponto certo.
Então depois de algum dias, ou algumas horas, faça um julgamento.