23.6.14

Sombra

Acordei com o peito encharcado e sentindo a dor latejar. Abri os olhos e permaneci deitado na rede por uns instantes. Contemplei o teto e tentei recuperar o controle dos pensamentos: a dor e o barulho que chegava da rua não me permitiram.
Eu precisaria ser carregado, tamanha dor no corpo. Embora estivesse consciente e fisicamente habilitado, carregava dentro de mim um pulsar lento e carregado, dificultado-me a fala e a respiração. Era um sopro frio no coração. Fora de mim, soprava um vento igualmente frio da janela, e na paisagem o céu cinza-chumbo gritava trovões. Desnorteado, exausto e sem ânimo, fui à porta da rua, onde gritos e correria sem direção definida me fizeram deslocar mais ainda de mim. Os estrondos trovejais repercutiam surdamente no horizonte, cada vez mais próximos, aumentando o pânico dos que corriam por suas vidas.
Eu não sabia o que pensar, nem o que falar. Carregava uma mordaça que apertava meu coração a todo o instante. Meus nervos estavam frouxos e meus sentidos desligados. Um retumbo deu-se a poucos metros de onde eu estava plantado. Então a abóbada nublada do céu rompeu-se numa cratera, e um dos pilares do firmamento veio abaixo. Ouvi muito choro por todos os lugares. Eu mesmo quis chorar, e já tendo chorando tanto há tão pouco tempo, mantive-me inerte. O signo da apatia me paralisou. Não por ver o céu desabar, mas por perceber que a nossa felicidade findou, que tínhamos chegados a um adeus sem perspectiva de retorno. Quando desse pensamento, senti o terrível lobo da desilusão abocanhar forte meu coração. Caí de joelhos na soleira da porta. Aquela toda gente correndo por suas vidas... Olhei adiante, no instante em que ouvi uma voz gritar:
- O mundo está acabando!
Assistíamos a mais um estrondo do ruir de outro pilar, e as explosões no céu pareceram bonitas para mim. Queria que ela estivesse comigo para ver isso.
Ela ainda me ama? Seres proféticos de inúmeras cabeças não conseguiam me excitar. Corpo e mente inertes, iniciei uma caminhada sem propósito e trajetória definida. Com o passo desconexo, me deixei colidir a tantos ombros e tantas canelas. Caí por algumas vezes e esperei em vão que o pisoteio me despertasse. De pé novamente, avistei uma escadaria ao final da rua. Um sentimento estranho, ignóbil... posso garantir que o pensamento de subir a escadaria lampejou uma faísca de perspectiva em mim maior que a destruição do próprio mundo em si. Talvez por definição ser um elemento de mudança, fui atraído sem resistência a subi-la.
Caminhei com a força que era capaz dentre a massa entrópica: saques, cornetas, cânticos, pedradas, choros, bêbados, rugidos e lamentos misturavam-se em minha frente, em meu topo, em meus lados. Uma mulher aos prantos repentinamente me abraçou com tanta força que meus ombros doeram. Não proferiu palavra sequer, e repentinamente também se foi. Grupos ajoelhados pediam clemência, e uma forte luz muda dissolveu o céu nublado. Cada elemento deste mundo tornou-se algo do tom mais puro do branco, com suas sombras num tom invariável de cinza. Nesse momento consegui chegar ao primeiro degrau da escada, agarrando as duas mãos no corrimão de alvenaria afim de me ancorar contra a multidão descorada que descia como água. Galguei cada degrau com energia crescente. Ao atingir o patamar final, tua lembrança me veio como um raio. Caí. E tudo parou.
O céu inexistia, sem as nuvens que eu costumava te demonstrar. O peso adensou-se muito em meu peito, a ponto de eu querer me desfazer em lágrimas, numa tristeza notavelmente destilada. Eu não queria e nem sei se poderia suportar mais aquilo. Lembrei de uma imagenzinha qualquer de internet que preenchia a tela com a frase "the earth is not a cold dead place", numa letrinha desconcentrada. Sempre achei aquilo muito bonito, tristemente bonito, como agora. Acho que eu poderia ser a personificação daquela imagem. Mais: tudo aquilo que eu estava vivendo realizaria aquela imagem. Deitei no chão e esperei por algo que não sabia o que era, e estranhamente sabia, como a progressão final de uma música induzindo ao silêncio. Eu estava sozinho naquele momento, e achava que cada pessoa do mundo deveria estar sozinha também. Senti cada vez menos o corpo, e acho que neste momento eu era apenas consciência. Não saberia dizer mais nada naquele momento. Cada vez mais meus pensamentos afunilaram-se até tornarem-se um único, monomaníaco, apenas uma lembrança, a nossa.
Como esta noite findará...