23.2.09

Ataque Cardíaco

Dia desses, sem mais nem menos, Sabirá me chega alterado, disparando palavras sem o mínimo cabimento. Estava chateadíssimo, irritado com algo que no momento não pude discernir a natureza. De tão nervoso que estava, embargava a voz de modo que eu não pude entender nada; sua ânsia ultrapassava a capacidade de algum tipo de comunicação comigo.
Entretanto, notei que Sabirá realmente estava agindo de forma estranha por esses dias, mas confesso que não me importei muito com o caso. E posteriormente fui entender que justamente foi o descaso o estopim para falatório. A indignação chegou a tal ponto que pensei que, já que não pôde se expressar verbalmente, Sabirá fosse me machucar fisicamente. Felizmente não foi o caso; o Sabirá enfim conseguiu conectar as palavras e me disse:
- Parou, parou. Acabou. É sério. Que droga, tu não dá a mínima atenção pra cá, pra onde eu tô, pras coisas que eu faço, ah, não; falo e falo e tu não ouve! Tá certo, eu sei que existem pessoas desligadas, mas isso já é demais. Como se o que eu te falasse fosse te levar a algo humilhante, ou danoso, ou qualquer coisa que não seja boa; mas não é, não é! O que eu te digo é única e exclusivamente pro teu bem, nada mais que isso. E tu ignorando. Diz que estou errado, e sei lá quê mais, essas tuas coisas sem cabimento. Não sei o que eu te fiz.
- Sabirá – interrompi o discurso tentando ser o menos incisivo possível –, vamos lá: respira. O que foi?
- É isso, não ouviu? Acho que não, né.... não sei porque ainda pergunto. Aliás, não sei por que ainda tento te explicar alguma coisa.
- Escuta, eu já percebi que tu estás chateado por causa da minha falta de atenção contigo, e tudo o mais - peço desculpas até -, mas para e pensa o que acabou de acontecer aqui: tu acha que isso tudo tem muito sentido?
- Que sentido?! Lá me vens tu e a danada dessa razão! Não pare e pense, apenas pare de pensar!
- Eu não consigo! Só em tu falares isso, já me faz pensar!
- Então fica aí pensando, eu já vou indo.
E foi mesmo. Desbocado, esse sujeito. Sai falando o que vem à telha, depois estranha porque às vezes não considero muito o que ele diz. Vez ou outra tenho meus desentendimentos com ele, mas sempre o considerei muito. O pior é que, apesar de ter feito esse discurso todo contra a razão, ele tem alguma. Tenho que parar com isso de pensar demais. Devia ter dito isso pra ele, mas acho que não é a melhor hora. Melhor deixar o ânimo de Sabirá esfriar um pouco, e então vou pensar num jeito de voltar ao assunto com ele. Esses ataques do Sabirá me fazem ficar um tanto desconcertado. Sempre fico pensando no quanto preciso dele.