30.9.08

Doença e cura

1. Na ala 3 da clínica cirúrgica do Presidente Dutra, fui ter com seu Raimundo Bastos, um senhor de figura magra e barba por fazer - e ainda assim, um senhor que despertava a simpatia. Perguntei-lhe como estava, se ansiava pela cirurgia que faria no dia seguinte, se tinha alguma queixa além da registrada no momento da internação, e qualquer outra pergunta de uma visita normal que um funcionário do hospital faria ao paciente. Seu Raimundo respondeu a todas as perguntas sem qualquer sinal de incômodo, mas alguma sutileza do momento que não me chegou ao consciente, fez pensar que ele não estava totalmente à vontade ali.
Perguntei-lhe quando receberia visitas de parentes, para que eu - em tom de brincadeira, como faço de praxe com meus pacientes - pudesse contar a eles todas as contrariedades que Seu Raimundo fazia ao que lhe era pedido para que tivesse bom pré-cirúrgico. Da mesma forma que se conta a uma mãe o que o filho anda fazendo de errado, ou que um colega de escola vai denunciar o amigo para a professora. O faço para que a sobriedade da visita ao paciente seja dissipada.
Mas Seu Raimundo disse: não tenho ninguém. E chorou.
O choro de um idoso é mais pesaroso que o de uma criança, e aquilo me pegou desprevenido. Aquela figura simpática e risonha que eu via antes disso, foi substituída no mesmo instante por um senhor de estampa tão débil quanto um filhote de qualquer mamífero, cego e desnudo ao mundo.
Não tenho ninguém. Essas palavras tiveram acesso direto ao meu íntimo, antes que eu percebesse. Compartilhei da dor dele, mas não deixei que isso resplandecesse pra fora. Apertei-lhe o ombro e disse que ali, pelos menos ali, ele tinha alguém. Disse-lhe mais algumas outras coisas que não recordo agora, mas eram todas com esse sentido. Seu Raimundo pareceu reconfortar-se, e permaneceu em conversa com o outro paciente no leito ao lado, o qual acompanhou tudo, e continuava a confortá-lo e a relatar a própria experiência com familiares. Um tanto constrangido, um tanto desarmado, pedi licença aos dois e continuei com o intinerário de visitas aos pacientes.
Ao sair da enfermaria, entretanto, deparei comigo indagando a mim mesmo e lamentando por não ter dito o que queria ao Seu Raimundo. Não ter dito que a dor dele fez conexão instantânea com a minha naquele instante, e que, se tivesse tempo para achar as palavras certas, poderia ter-lhe dito tanto e tanto sobre não ter ninguém. Que na verdade poderia ter escrito páginas e livros sobre o que é a solidão. Mas assim, em assalto, não pude fazer nada além de fingir. E remoer pensamentos os que serão ração do meu rotineiro desligamento da realidade.
Que fique comigo, então: minha doença que apenas eu sei o diagnóstico.
Estou transgredindo as recomendações do pré-operatório.