13.9.10

Céu Nublado

Havia ali, na rua logo abaixo, uma flor que brotava no asfalto.
Eu, teimoso em ver encanto no trivial inesperado, achava isso fantástico. Me postava ali, sentado na calçada, a admirar o espetáculo de uma flor ao sol, ilha em meio ao escuro mar do asfalto. Suas pétalas eram brancas com minúsculos pontinhos escuros.
Apertava os olhos e sorria.
Sentia-se de longe o perfume ímpio do seu coração imenso e bravo. Se houvesse uma cor nesse aroma, seria lilás, pura e intensa de sua impassividade ao amor.
Por tanto apreço à flor, preocupava-me dos carros que iam e vinham.
Ela não tinha essa apreensão, afinal, escolhera brotar ali e ali abrir os braços ao sol. Os carros eram de outro mundo. Na minha vista, ali havia apenas uma flor. Desaparecem carros, casas, pessoas, cidade. É o meio de tudo. É o espetáculo de apenas ser.
Preocupação tola, a minha. Mais que isso, infantil - infantil como eu me sentia ali sentado na calçada assistindo a uma flor banhar-se em sol. É desses sentimentos de rendição que não se percebe chegar. Deixo-me persuadir pela suave e inocente figura de pétalas alvas em meio ao negro do mundo.
Asfalto quente e escuro, emana ondas de calor que me confundem a vista em certas ocasiões. Perco-me, confundo-me, assalto-me da coerência; desnorteio-me sem a vista real da flor branca de pontinhos escuros. O problema é o asfalto. O problema são os carros. O problema são os outros. Quisera eu parar todos os carros, resfriar o asfalto. Convive-se e aprende-se. Mais que isso, sente-se. Flor feita apenas do sentir.
Na separação, de volta à minha casa, contemplo apenas o céu na rua onde moro: nublou, e nada mais pode me trazer uma lembrança tão forte quanto essas nuvens sob o sol que banha o sorriso minha flor do aslfato.

2.4.10

A noite é inteira

América percebeu que precisava trocar a escova de dentes. Notava uma leve aspereza em alguns dentes ao toque da língua. Guardou como uma nota mental passar amanhã no mercado para comprar uma escova. Enquanto encarava o próprio rosto no espelho, maquiado com a espuma do creme dental nos lábios, pensou nos demais afazeres. Organizar os dvd's nas devidas capas, trazer as roupas limpas para o guarda-roupa, levar as sujas para a área de serviço, pesquisar na internet alguma forma alternativa para disfarçar os fios brancos que apareciam no cabelo. Talvez reorganizasse a posição do sofá na sala.
Na noite alta, era seu hábito manter-se ocupada. A noite na janela estava escura, ainda sem estrelas. O silêncio era o mesmo. A única diferença era que Ele não estava mais lá.
Às tantas da madrugada, achou lugar em que sentia-se disposta. Agora lia um tanto, mas não prestava atenção realmente ao texto. Os pensamentos disputavam sua atenção com o livro que tinha em mãos; sempre havia algo para fazer, algo para organizar. Queria sempre ter alguma tarefa a cumprir.
Foi a forma que encontrou para por ordem na própria vida. Não sabia isso de claro, mas era a diretriz que comandava tudo o que fazia. Pensava no mundo, pensava no tempo, pensava na idade, e sobretudo, pensava nas pessoas.
Havia um pouco tempo, talvez alguns meses, que sentia-se distanciar das pessoas, ao passo que queria ao mesmo tempo entendê-las cada vez mais. Tem lá sua lógica. Assista tudo de cima, veja o rato correr o labirinto. Uma aranha na janela, um anjo na piscina. Assista as pessoas irem e virem nas calçadas. Talvez isso tenha acontecido por ter perdido o emprego, todo esse desapego. Justo ela, que lidava com pessoas o tempo inteiro em sua rotina de recepcionista. Talvez tenha sido a solidão sólida que sentiu quando Ele se foi. Parecia ter contagiado-se com o pensar descontrolado que Ele tinha. Mas no caso de América, os pensamentos tinham o único propósito de manter longe o fato de que Ele não estava mais ali. Isso também não sabia de claro.
Largou o livro no colo e deixou a cabeça pender ao recosto do sofá. No tempo em que analisava o acúmulo de insetos no lustre da sala, achava estranho a necessidade de que as pessoas têm em se agarrar a outrem. Dela própria depender tanto dele, justo agora que Ele era apenas ausência.
Sentiu o dedo latejar novamente. Queimou-o enquanto esquentava o café do dia anterior; preferiu mantê-lo sem band-aid, sem pomadas, sem manteiga. Cedo ou tarde tudo voltará ao normal. Isso trouxe-a de volta à realidade. Ainda que tivesse o dedo inoperante, resolveu levantar-se do sofá e puxá-lo para mais próximo da janela. Mesmo depois de ter passado a noite em claro carregando livros e varrendo pisos, queria cansar-se mais. Assim o descanso é honesto.
Posicionou o sofá abaixo da janela e vislumbrou a noite sendo aniquilada pelo dia nascente. A noite que Ele a deu. "América, meu amado continente". Foi o que havia escrito numa das poucas cartas que que fez. Animou-se discretamente com a lembrança, mas não o suficiente para que algum sorriso surgisse. Não em seu rosto; na alma talvez. Por conseguinte, lamentou e pensou: "A noite é inteira". Às vezes sentia uma certa raiva em estar bagunçando mais ainda o apartamento, mitigando a ordem de seu espaço a cada dia que passava com suas efêmeras organizações. Raiva dele por entrar tantas vezes em sua mente sem pedir permissão.
O dia estava alto e não havia mais tempo para pensar ou pensar em algo mais a fazer. Era hora de sair em busca de outro emprego, comprar a escova de dentes nova; mas antes disso precisava alimentar seu animal: um dragão pálido ufava e ansiava por comida em sua pequena caixa na cozinha.