7.12.08

Sobre as aves-do-paraíso

Conta um pai à filha:

- Quando eu era pequeno, do teu tamanho, papai uma vez me levou a uma feira que tinha ali perto do campinho, e que hoje não existe mais. Tinha venda de tudo: pedras vindas com os trovões, bichos que se alimentavam de vento, tecidos trançados a partir de gemas preciosas, remédios contra a saudade, quadros vivos, vagalumes para se colocar no cabelo, e tantas outras coisas. E claro, tinha o usual, temperos, galinhas, roupas, peixes, e tudo o mais.
- Eu andava fascinado com tudo aquilo - às vezes quando passo pelo campinho, lembro desse dia. Fazia um certo calor, mas não me incomodava, e eu sei que o calor também não te incomoda, deves ter puxado isso de mim. Havia também muito barulho de gente gritando, animais cacarejando, outras crianças correndo, outras carregando as compras para as madames, enfim, a feira pulsava no apogeu de cada dia.
- Mas sim, aonde quero chegar: teve um momento em que eu, distraído com uma caixa cheia de humaninhos, perdi da mão do pai. E enquanto fui procurando por ele pelos corredores da feira, e tinha tanta coisa a se prestar atenção, que de súbito, em minha frente, revoou um bando de pássaros de cores todas em cada um. Fiquei um tanto estarrecido do susto e da beleza, e acompanhei-as com o olhar até sumirem em vários pontos diferentes. Voavam algumas apressadas, outras apenas planavam com poucas batidas de asas, até sumirem dentre as árvores que tem até hoje perto do campinho.
- Surgiu então um sujeito meio gordo ao meu lado que disse que aquelas eram aves-do-paraíso. Pensei que tinham esse nome por serem tão bonitas, mas ele explicou porque elas tinham esse nome. O inicío da explicação foi uma pergunta: 'reparou nas patas delas?'. Respondi que não, que eu só tive tempo de ver quantas cores cada uma tinha. Ele explicou contando que elas não tinham pata alguma, os únicos membros eram as asas. Já imaginando minha dúvida, continuou a explicação. Disse que por isso elas eram do paraíso, por nunca pousarem. Voam sempre, e que talvez fosse até aves divinas, tendo contatos apenas passageiros com a terra. Continuou explicando que elas colocam os ovos sobre as costas das outras durante o vôo, e assim servem de ninho umas às outras até que o pequeno pássaro tome conta de si.
- 'E por que elas estão aqui?' perguntei. Meu pai chegara há pouco, e, já na intenção de repreender-me por ter solto da mão dele, desistiu da idéia (ou esqueceu) ao ouvir o que o homem gordo contava sobre as aves-do-paraíso. O homem finalizou a história contando que aquele bando aparece por onde quer que ele vá, sempre ao meio-dia, há pouco mais de vinte anos. Tendo dito isso, papai tomou minha mão novamente e despediu-se do homem. Fomos comprar vinagreira em uma outra barraca, e de lá, rumo de casa.
- Durante o caminho, meu pai falou que essa foi a história mais besta que ele já tinha ouvido, e que história por história, prefere a da raposa, que ele me contava sempre - e que eu já te contei também, mocinha.
- Pois é, essa é a história que eu tinha pra contar hoje. Amanhã te conto o que realmente são as aves-do-paraíso.

E beijou em boa-noite a filha. Ao sair da margem da cama, o pai teve a intenção controversa de não contar que as aves-do-paraíso são na verdade pessoas tão iguais a ela, a filha, que nascem do céu e no céu, que são alheias ao mundo, que trazem todas as cores em si, e que até levam outras pessoas todos os dias ao paraíso. Eis o que ele tinha sobre as aves-do-paraíso.
Mas no dia seguinte planejava inventar outra história para filha, porque saber das aves-do-paraíso é mais sonhativo quando se tem os pés na terra.