O Marcelo era um garoto azul, como algumas divindades hindus. Azul daquele jeito. E por mais estranho que isso soe, e realmente seja, poucos reparavam que ele era azul. Perceber, todos percebiam, como se percebe que alguém é vesgo ou manca levemente um pé. Mas poucos realmente prestavam atenção à sua cor.
Marcelo tem uma vida social normal, e às vezes congue ficar até da cor das outras pessoas, e ser mais normal ainda. Mais normal. O "normal" de todo mundo, claro. Marcelo sabe que não se pode viver isolado de toda essa gente, e nem faz questão de tal. Gosta de estar entre os outros, os que são diferente dele, na verdade quem é diferente é o Marcelo, mas ele não liga pra isso. Não quando está em outra cor.
Mas quando é azul, Marcelo se isola, e gosta disso. E se põe a pensar sobre tudo, e a escolher as matizes de seus raciocínios e idéias. Menos dos sentimentos. Estes não têm cor nenhuma para Marcelo. Nem mesmo preto ou branco. Ele tenta entender o porquê disso, mas não consegue, não consegue mesmo.
Ah, o Marcelo ganhou óculos no início da infância. Mas ele tem a vista boa, em qualquer cor que esteja sua pele. Ele tentou usá-los para tentar ver as matizes dos sentimentos, mas não resultou em nada. Também nunca o jogou fora, sabe que vai precisar dele. Na verdade, trata os óculos com o maior zelo, como se realmente tivessem importância, mas não têm. Às vezes tem vontade de jogá-los fora, mas sempre acha melhor não. Devia vir com um manual de instruções. Aí sim ele veria todas as matizes, e saberia usar os tais óculos.
Marcelo, quando está entre azul e qualquer outra cor, pergunta para os míopes como usar os óculos. Aprendeu tudo, mas não consegue aplicar à pratica. Sabe das distâncias focais, espessura, grau da concavidade, e tudo mais. Sabe até mais de quem usa os óculos. Mas Marcelo, não. Marcelo nunca entendeu e incorporou seus óculos.
Esse é o Marcelo, pele azul e com óculos inúteis nas mãos.
Desenhá-lo seria fácil. Seria preciso só fazer um rosto triste e pintar de azul.
segunda-feira, 3 de dezembro de 2007
Mais um conto simbólico
Assinar:
Postar comentários (Atom)
1 comentários:
o que ninguém percebe, é o que todo mundo sabe.
marcelo, marmelo, martelo.
Postar um comentário