6.11.07

Para Mercedes, é claro

Ela me faz sentir um humano incompleto. Não que qualquer humano seja completo, mas dessa essência humana, que por si só é incompleta, sinto que ainda falta-me chegar à essa não-totalidade. É incrível como assim mesmo, ela me leva a achar que posso tornar-me uma pessoa completa (ainda na condição de incompleto).
Simplificando, seria ela a deusa, e eu o religioso. O religioso que aspira chegar à condição de deus, apenas para poder ficar próximo dela.
Nada mais humano.
Ainda a acho inalcançável. Mas pra quê desistir?

*

Agora, a deusa coroada, não confudis. A única coisa que trago dela é a lembrança. Como um Florentino Ariza, aguardo e mantenho os pés no caminho, para enfim alcançar a deusa coroada. A deusa coroada, que não é desde sempre deusa, e os pés, que nem sempre se mantêm no caminho. Como disse, só existe, agora, a lembrança. Como um verso mal-entendido que nos impede de prosseguir no livro. Mas pra quê fechar o livro? e pra quê deixar de ler outros? (Acho que todos temos ou tivemos deusas coroadas na vida; alguns trazem para si o paraíso, outros permanecem humanos.)

*

E se fôssemos a deusa coroada de alguém? Sempre alguém há de nos vir desse modo, assim como nós, os outros. O religioso tornaria-se deus? * É o desejo, afinal, de qualquer um capaz de amar. Existem humanos fabulosos, que vivem como se não fosse humanos, muito menos deus, ou deusas coroadas. Encantei-me por uma quando procurava ser um deus. Foram belos aqueles dias, como são aliás, os dias em que somos encantados por qualquer ser. Os humanos fabulusos encantam, e eu soube então que não encantam apenas a um só. Mas o encanto, esse não se sabe ainda como o desfazer.
.............
Querer ser melhor. Querer criar, talvez um universo; e que seja todo para ela. Querer proteger, e ser protegido, e me proteger. Sorrir em lembranças presentes. Sentir o peito encharcar a dor escorrida.
E ainda mal se consegue falar.

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