Eu estava sentado na calçada, descansando um pouco as pernas enquanto tomava mais um gole do refrigerante. Faltavam apenas umas poucas horas pro sol nascer novamente, e todo mundo buscava o caminho de casa. E sempre existem aqueles que mesmo após um show exaustivo procuram outro lugar pra se cansar mais ainda. Pra eles não se trata de canseira nenhuma, claro.
Enfim, sentei-me na calçada e reparei que tinha a moça mais linda sentada ao meu lado, mas não tão perto que alguém nos visse e julgasse que fazíamos companhia um ao outro. Não tentei, e nem tive a intenção de me aproximar dela. Admirá-la já me satisfazia naquele momento. E que fique claro que minha admiração se resumia a poucos olhares furtivos que desviavam dela, caso fossem descobertos.
Nisso, veio um rapaz e sentou-se próximo a ela. Não disse "oi" nem nada, ela tampouco. Mas percebia-se que eram conhecidos. Depois de cinco ou dez minutos de silêncio, para surpresa dela (e minha), ele perguntou:
- Como tá o teu coração?
Ela não respondeu de imediato. Ficou confusa entre entender a pergunta ou achar uma resposta, pensei. Ele percebeu a situação, que me pareceu um tanto premeditada, e continuou:
- Não precisa responder. Na verdade sempre quis te perguntar isso, e sempre imaginei o que tu responderias. Nessa tua extroversão, tu pareces tão misteriosa, teu coração é tão misterioso... não sei o que me deu agora, mas não faço questão que me diga como está o teu coração. Acho que o que eu queria mesmo era te perguntar isso, só. "Como tá o teu coração"... Pra mim, tu responderias se abrindo totalmente comigo, e contando o que te aflinge e o que te alegra. Mas não sei, não faço mais questão disso. Não que tenha perdido a importância, mas vejo que é melhor deixar subentendido. Além do mais, tu sabes que eu sou calado, gosto do silêncio e tal, mas pra falar a verdade, eu odeio o silêncio. O silêncio assim, a dois. Minha cabeça trava num silêncio com alguém do lado, ainda mais você.
Ela olhava curiosa pra ele, acho que ele nunca se comportou daquele jeito. Não, aquilo não foi premdeitado. E ele definitivamente não estava bêbado. Percebi que tentava falar olhando nos olhos dela, mas falhava a cada cinco palavras. Identifiquei-me um pouco com ele. Ou muito, não sei. Na hora não deu pra pensar muito sobre isso.
Não havia terminado ainda:
- Acho que essa minha pergunta foi só pra quebrar o silêncio. "Como é o teu coração", "como tá o teu coração"... O coração não é algo que se revela desse jeito.
- Engraçado, acho que os papéis se inverteram, olha só. Eu, o calado, tô aqui falando mais que devo; e tu, que sempre fala e fala, só me ouve.
Então ele calou-se e engoliu seco. Pareceu se dar conta de que falara demais mesmo. Afinal, seriam eles namorados? Fiquei tentando agora descobrir a relação entre eles.
A essa altura eu tinha esquecido do refrigerante, o qual já havia esquentado.
Ela limitou-se a apoiar a têmpora na mão e a abrir um sorriso tão lindo quanto ela. Era um sorriso maternal.
Antes que qualquer coisa a mais pudesse acontecer, levantei-me e limpei a poeira da minha calça. Ele me olhou pelo movimento repentino que fiz, mas logo viu que não se tratava de ameaça alguma e voltou a fitar o vazio. Eu, fui ao encontro de amigos para ir embora. O que ele queria dizer já havia dito, e o que me interessava eu já tinha ouvido.
Ali percebi que eu não era o único nesse mundo.
terça-feira, 6 de novembro de 2007
O espelho
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