1. Ele embarcou no ônibus e se pôs a ler sua revista, daquelas revistas de heróis americanos. E já não era mais nenhum adolescente, mas um homem barbado - barbado mesmo, sem força de expessão. Um homem jovem, beirando os 30. Usava óculos de lentes grossas e armação quadrada e fina. Não era desses óculos de armação grossa plástica que alguns usam para aumentar a inteligência; ele usava os óculos por necessidade mesmo. E usava-os agora para ler sua revista, alheio do mundo. Capitão América, talvez.
Tinha a introversão estampada no rosto. Na minha cabeça, deduzi que fosse estudante ou recém-formado de algum curso das Ciências Exatas. Algo relacionado a informática, se me permite o palpite. Pois, estava ele sentado próximo à janela, enquanto os outros passageiros buscavam os últimos assentos livres.
Então sobe uma moça, mais ou menos da mesma idade - quem sabe uns meses mais nova. Escondia os olhos atrás dos óculos escuros. Era esbelta, com cabelos alisados; tinha a aparência padrão das moças de classe média. Não era bonita, mas vaidosa, enganava os desavisados. Parecia uma jovem viúva, embora usasse blusa vermelha com calças jeans escuras. Muito séria, ela. E já que falamos de um suposto curso para o rapaz, falemos para a moça também. Odontologia lhe cairia bem.
Não percebi se havia algum outro assento livre no ônibus, mas aconteceu que o que estava ao lado do nosso míope estava livre, e então, o que já se poderia deduzir ocorreu: a jovem não-viúva sentou-se ao lado do adolescente-adulto. Ora, fato mais trivial em um ônibus é o de pessoas desconhecidas sentarem próximas umas às outras, e não importa a duração, elas sempre seguem o rumo de suas vidas no fim da viagem. E de fato, o par ali formado era apenas mais um entre tantos outros. Ele lia os quadrinhos e não se importava com mais nada; ao passo que ela imergia nas preocupações, enquanto descansava os olhos na paisagem da janela.
Mas eram cinco da tarde, e nesse horário é possível olhar para o sol sem machucar os olhos. Os dois intuitivamente olharam, então, para o sol que pintava o céu no fim da tarde. Ele então percebeu a presença da moça, e virou-se para ela.
Às cinco da tarde também é possível ver os olhos escondidos atrás de lentes escuras, e ele olhou os dela. Ela de início rejeitou tal atitude, e o ignorou. Mas ele que insistisse, ela acabou por ceder à curiosidade que mora em nós sempre que somos alvos de algum par de olhos, e um sorriso curto apareceu-lhe nos lábios antes que ela pudesse evitar.
Odontologia? Acho que não errei. Conversas e risos encabulados, e claro, alguns minutos de silêncio que os faziam desesperadamente procurar um novo assunto para retomar a conversa e a companhia naquele ônibus.
A parada em que ele desce já estava há muito para trás. Nas mãos do moço, a revista fechada e dobrada em cilindro. Eles são bons em achar assuntos. Ele chegava a gesticular em alguns momentos. Enfim, decidiu descer duas paradas depois da dela. Pra despitar talvez - que bobagem. Depois que ela havia descido ele ainda conservou um sorriso teimoso.
Eu desci onde deveria e segui meu caminho.
Semanas depois, ainda o vejo algumas vezes no ônibus, ela um pouco menos, mas ainda a vejo. Nunca mais juntos. Sem a barba, sem os óculos escuros.
Sentem falta das cinco horas.
sábado, 15 de setembro de 2007
Cinco da tarde
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4 comentários:
hahaha, acaba dando tilt mesmo :/
eu sei que nem deveria pensar assim, mas por enquanto eu não posso fazer nada pra ajudar :/
e obrigada pelo elogio do pavão \o
hahaha, também gostei dos seus textos :)
beijos :*
- arááá.
que coisa linda *-*
é sinto falta de algumas horas de minha vida tbm :/
mas nada é por acaso... reformulando... nada ACONTECE por acaso :)~
e se acontece é surpresas que a vida nos proporciona...
err, vc é emo? HUAUHAHUUHAUHUAH
;*** fakeee do meu (L)
lindo, lindo!
penso que às 5 da tarde é um bom horário pra formar casais.
tomara que eles se encontrem nos ônibus da vida.
Acredito que o autor deste blog seja um exímio observador da auspiciosa e também melancólica realidade que nos cerca, projetando suas visões particulares em encantadores textos, que revelam facetas humanas sentidas por todos, mas tão poucas vezes tão bem traduzidas em palavras.
Muito bom texto, caro amigo perscrutador.
Abraço.
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