20.3.08

É assim

Nariz de clave de fá
Sono de relva ao vento
Cabelos de selva tropical
Risos de presente de natal

Voz de violão náilon
Desculpas de cinco versos
Olhos de sol nascente
Suspiro de arco do violoncelo

Dedos de poleiros de beija-flores
História de tempestade de janeiro

Choro de tinta de Monet
Abraço de torvelinho
Sopro de sereno no capim
Queixo de passarinho

Sorriso de cordilheiras
Pele de tempo perdido
Perninhas de argila molhada
Andar de borboleta mornaca

23.2.08

Retrato em cores

Dois pontos

Quando eu te convidava pra pizzaria
e tu me dizia que era lugar de idosos e casais com crianças barulhentas
embora tu sempre aceitasse a um segundo convite

Quando tu treinava comigo as apresentações dos trabalhos da faculdade
mesmo sabendo que o real motivo de eu estar ali
era o lanche que a tua mãe preparava

E que falando nela,
tu gostava de me deixar sem graça na presença dela
falando de como eu achava o sotaque dela engraçado

Quando te ensinei a dirigir, e tu estancava o carro
sempre que eu dizia "não olha pra marcha"
e me reclamava que ficasse calado, e eu replicava que tu era telepática

Eu acariciava os polegares nas tuas sobrancelhas
e tu ria sem motivo nenhum,
porque na sobrancelha ninguém tem cócegas

E te ensinei a tocar o violão,
e gostava de ajeitar a posição dos teus dedos
e tinha até pena de vê-los marcados pelas cordas

Achei graça até quando tu resolveu banhar na chuva
e passou a semana seguinte gripada
mas pelo menos eu gostei, tu me disse

Quando eu reclamava que a água era gelada demais para me barbear
e não sei de onde tu veio com um balde de água mais gelada
e me molhou, e achei aquilo desconfortável, mas fantástico

E de tanto me ouvir cantar músicas do Jobim
passou a gostar dele também
e deixou de achar os peixinhos a nadar no mar ridículos

E me cobrava tanto e tantas cartas de amor
no que eu dizia que a inspiração não tinha hora
e eu achava minha resposta tão ridícula quanto os peixinhos

Sem falar na minha foto três por quatro que tu mantinha na carteira
e eu nunca entendi por que guardar algo tão sem sal
que me lembrava formulários ou filas de banco

E hoje onde estou sem eiras, e cheio de beiras
Recorro ao retrato de nós dois e um desconhecido que me cobriu a metade
Feito no dia em que te conheci

No dia que o sol me pareceu ter brilhado um pouquinho mais

10.2.08

A longa viagem (ou A morte das borboletas)

O sol incendeia o céu enquanto cortamos a estrada ao meio-dia rumo à cidade de Santa Inês. A vegetação marginal à estrava mostra seu fulgor decorrente da época de chuva que o início de cada ano propicia, e assim, toda a vida inicia o ano com plenitude, logo que as sementes vindas com as chuvas são germinadas.
Lagartos, formigas, palmeiras, pássaros, flores.
No calor do meio-dia vinham as borboletas provindas do capim, e atravessavam a estrada a todo instante, num belo espetáculo. Celebram o vento, o néctar, o sol.

E assim morrem no pára-brisa.

Há de se pensar que elas não deveriam morrer, acabar uma cena tão vistosa assim, com mortes sem sentido, inesperadas. No pára-brisa, toda a poesia se esvai. Pára-brisas não podem entrar de jeito nenhum em qualquer expressão artística.
E tal espetáculo, como fica? Pra quê então chuva? O que fazer parar acabar com isso? O carro não pode parar, a viagem urge para que cheguemos logo ao destino. O que nos resta a fazer, nós, que estamos vivos, é simplesmente se conformar e limpar o pára-brisa, e aguardar as próximas borboletas, num ciclo contínuo, até que cheguemos ao fim da longa viagem que é a de São Luís e Santa Inês.

- Júnior, te arruma, teu oitavo irmão morreu.

Há de se pensar que ele não deveria morrer, acabar uma trajetória tão vistosa assim, com uma morte sem sentido, inesperada. Em Santa Inês, toda a poesia se esvai. Não me ocorre nenhum poema ou conto situado na cidade, ou mesmo que a mencione.
E como nós ficamos? Pra quê então tanta lágrima? O que fazer parar acabar com isso? Ninguém pode parar, e a vida urge para que cheguemos logo ao destino. O que nos resta a fazer, nós, que estamos vivos, é simplesmente se conformar e enxugar as lágrimas, e aguardar que as sementes deixadas brotem, num ciclo contínuo, até que cheguemos ao fim da longa viagem que é a vida.

21.1.08

Sete e vinte e cinco

Em uma dessas tantas ruas do centro de São Luís que desembocam em escadarias incansáveis, andava eu acompanhado de meu primo rumo a uma marcenaria para que o cavalete onde meu pai pinta suas telas fosse consertado. Para acelerar o tempo e nossos passos, conversávamos sobre diversos assuntos, e na altura em que debatíamos sobre a necessidade do uso de lâmpadas incandescentes nos postes tradicionais das ruas por onde passávamos, um sujeito que observava o movimento da rua lançou-me:
- Tem as horas aí, pai?
Respondi as devidas horas, e no desconectar da conversa que mantinha com meu primo, observei uma senhora que parecia dormir sentada ao lado de sua banca de ervas e condimentos na calçada oposta à qual estávamos. O sujeito das horas, reparando minha súbita e tênue consternação, respondeu à pergunta que eu ainda não havia formulado:
- É uma feiticeira.
Achando aquilo muito interessante, meu primo parou e quis saber mais. Fiquei um tanto irresoluto, mas acabei descansando o cavalete na parede, ao lado de onde o sujeito - julguei que vigiava os carros estacionados -, também estava enconstado. Meu primo perguntou se ele a conhecia. Ele não conhecia, mas disse que o pai dele sempre o advertiu para que não mexesse com ela, caso contrário ela o transformaria em toco de árvore, como o pai mesmo já havia visto acontecer com duas crianças, na sua juventude. Tendo dito isso, explicou que niguém sabia a idade dela, e que ela sempre mateve a mesma aparência, desde os tempos das advertências do seu pai. O próprio sujeito das horas afirmou ter encontrado, certa vez enquanto voltava para casa, três tocos de árvores enfileirados, em um local onde nunca houvera árvores.
Meu primo se empolgou bastante com isso, e mantinha a conversa empolgada com o vigia, o qual não parecia nem um pouco incomodado com isso, visto que a iniciou sem ter sido solicitado. Eu comecei a prestar atenção na senhora enquanto ouvia a conversa dos dois. Ela tinha a pele um tanto enrugada e sombreada por causa do sol, e usava um lenço comprido que cobria-lhe os cabelos. Tinha as unhas pintadas de uma cor escura que não pude distinguir, e usava uma esparsa saia estampada além de sandálias rasteiras. Estava dormindo com as mãos cruzadas sobre as pernas, como se esperasse a resposta de alguma pergunta intimidadora.
Apesar disso, não vi nada muito anormal nela; se eu precisasse algum dia de um punhado de cominho, não hesitaria em comprar com ela.
- Tá vendo aquele lenço ali? É pra esconder os chifres dela.
Virei pro sujeito só pra ver a cara dele quando disse isso, e ele, percebendo que ganhou minha atenção, continuou:
- Eu não sei, mas me disseram que ela vira bicho também. É o que nego fala por aí, mas olha que eu não duvido não...
Fiquei pensando como é que as pessoas podem criar uma imagem tão bestial de uma senhora tão... normal. É, normal como ela. Iria me enconstar junto ao vigia na parede, mas meu pé bateu no cavalete, o que me lembrou do dever a cumprir. Chamei meu primo e nos despedimos do guia cultural no qual o sujeito das horas se transformou. Olhei mais uma última vez para a senhora a fim de satisfazer meu inconsciente desejo de querer saber mais sobre ela.
Feito isso, continuamos até chegarmos na marcenaria, onde fomos recepcionados pelos dois marceneiros que ali trabalhavam, e que nos informaram que estavam no horário do almoço. Então lembrei que já passava do meio-dia, e que eu também devia almoçar. Deixamos então o cavalete lá para buscar no outro dia, e fomos eu e meu primo almoçar num bar ali perto que servia refeições preparadas na hora.
Tendo almoçado e feito a sesta em um banco de praça, decidimos voltar logo para casa e avisar ao pai que o cavalete só ficaria pronto no dia seguinte. Por uma sugestão que mais parecia ordem de meu primo, voltamos por onde viemos. Não me dei ao trabalho de divagar o porquê, estando este tão estampado no rosto dele. Assim, percorremos o caminho desta vez mais rápido, pois como se sabe, a volta é sempre mais ligeira que a ida, ainda mais quando não se sabe pra onde se vai.
Ao alcançarmos a calçada onde conversamos com o vigia de carros, notamos não um toco, mas um frondoso biribá na rua perpendicular à que estávamos, e isso foi espantoso, pois tínhamos uma certeza - que se revelou míope - de não haver árvore nenhuma ali antes.
Meu primo muito observador e curioso, depois de soltar - para que não citemos os palavrões - cinco interjeições de surpresa, denotou uma anormalidade apontando para os frutos da árvore, e estes não eram amarelos como deveriam ser, mas arroxeados como beterrabas. As pontas sobressalentes dos frutos naquela cor lembraram-me das unhas da senhora, e ao me virar para verificar se ainda estava no mesmo lugar, não havia nem ela nem sua banca na calçada agora coberta pela sombra dos sobrados que margeavam a rua. Confesso por uns minutos me assustei, e até senti um leve arrepio na nuca. Mas minha razão dizia que era apenas uma árvore que não tínhamos notado antes, no ínterim da história com o sujeito das horas. Expliquei isso ao meu primo para que parasse de repetir a cada segundo que a história era verdadeira, o que não adiantou muito. Falei para que continuássemos o caminho rumo à nossa casa, o que fizemos em seguida.
Um pássaro furtivo nos apareceu enquanto descíamos uma ladeira que desemboca frente ao terminal de ônibus da Beira-Mar e se pôs a nos seguir.
- Mas que porra é essa?
Claro que foi o meu primo o autor da frase, dita enquanto enxotava o pássaro a pedradas, até que finalmente conseguiu fazê-lo voar a sumir de vista. O pássaro se foi, mas assim como eu já havia pensado na hora do almoço - "a cada esquina, uma surpresa" -, ao chegarmos na rua principal que é cortada pela ladeira, deparamos novamente com a senhora feiticeira na mesma posição, porém usando um lenço agora roxo na cabeça. Sem abrir os olhos, nos ofereceu cominho,
- Ei
ao passo que eu, depois de hesitar uns quinze segundos, respondi que não e agradeci, e imediatamente, junto ao meu primo, andei o mais rápido que pude para a avenida onde o Terminal
- ... atrasado!
se localiza, quando encontramos novament
- Não te chamo
e com o sujeito das horas rindo desesperadamente de nós, o que nos deixou tão confusos a ponto de parar nossa correria. Meu primo soltou novamente sua célebre pergun
- 7:25

Caralho, já são sete e vinte e cinco!

23.12.07

A lua, a chuva e o elefante

Mas para ele, quando era necessário entrar nalgum cômodo do coração dela, parecia-lhe que era como andar na mata em noite de lua cheia. A lua era como o sol no céu desnudo de nuvens, tornando tudo disponível aos olhos, mas ainda assim, cobrindo os contornos da paisagem com cinzas e azuis fantasmagóricos e desvívidos.
As folhas das palmeiras gentilmente cumprimentavam-se enquanto ele passava pela trilha de areia batida que parecia brilhar à desmaiada luz da lua.
Caminhava, não com medo, mas com receio e ainda curiosidade, quando ouvia o farfalhar das borboletas noturnas, festejando silenciosamente o vento que as carregava. Confudiam-se às estrelas no céu que iam e vinham no calor morno das noites de agosto.
O calor que habitava no coração causava chuvas convectivas, que eram bem-vindas aos seres e inânimes daquela terra.
A chuva refrescava o suor insone de um solitário e imóvel elefante que descansava no descampado; o elefante fechava os olhos para protegê-los da chuva, e vez ou outra mexia uma das orelhas. Parecia sorrir.
Era até ali uma das mais belas cenas que havia visto na vida.
Toda aquela água ressonava ao bater na superfície do mar, que espumava brumas que amaciavam o solo do coração, enchendo o ambiente da tranquilidade igual ao sono das águas-vivas .
O coração parecia-lhe às vezes uma ilha ou uma sala, em que ela o convidava para apreciar as constelações do hemisfério sul, ou ainda para afogar as pernas no mar, enquanto contavam fábulas um ao outro, vigiados pela lua, pela chuva, e pelo elefante.

4.12.07

Prelúdio em Dó Maior

- Lá me vem tu com essa conversa de novo, Daniela!
Eu sei que ela prefere - e até eu prefiro - chamá-la por Dani, mas fazer o quê, escapuliu.
Ela me olha meio desconfiada por isso, se cala um pouco, e vira o rosto pra janela do carro. Eu continuo dirigindo e prestando atenção aos buracos da rua. Quando começo a pensar - não, nem isso! Quando começo a pensar em pensar, ela me corta:
- "Nhé nhé nhé de novo, Daniela!" - e me imita de um jeito que eu só teria falado se tivesse me faltando mais da metade dos dentes na boca. Olho pra ela e solto um riso, e também reparo que alguns fios do cabelo dela estão mais curtos. Será por causa do penteado ou ela cortou mesmo? Vamos saber, né:
- Tu aparou teu cabelo?
Não termino de articular "lo" do "cabelo" quando ela já me corta de novo:
- Nossa, - me diz bem séria, me apontando o indicador que estava antes descansado dentre os braços cruzados - engraçado tu ter reparado isso quando ele já tá quase do tamanho de antes!
E volta a cruzar os braços. Não preciso dizer que não teve nada de ameaçador na cena. Eu e ela sabemos disso. Dani gosta desses teatrinhos. Eu também.
- Fazer o quê, se eu tenho visão Thundercat... (Essa eu aprendi com meu professor de química).
Ela se dana a rir e me dá um tapa de leve; poderiam dizer que foi carinhoso, mas eu tenho minhas dúvidas.
Tô brincando, tô brincando.
Volto a vista para a via mais uma vez ("Vozes veladas, veludosas vozes" haha), e mudo a música do CD. Isso tem que ter uma trilha sonora, nada mais natural.
Ao som da música, pensei: Daniela, daniela, quem eu já conheci por dani, e me esquecia sempre se terminava em "A" ou "E". Depois da terceira noite, ou melhor, a Terceira Noite, minha dúvida foi embora. Entendeu o motivo das letras maiúsculas, né?
Pois é. Na época que eu perambulava em sonhos doidos e talvez inalcançáveis, Dani me puxou os pés e disse "Tô bem aqui!" Nossa...
Ela sou eu, sabe? Minha versão telúrica, com uma bela pele e sorriso. Vive falando besteira, e é muito inteligente. E fala tanto que dá bom-dia até pra cavalo, como diria minha mãe. Eu gosto de atentar ela, gosto mesmo. E além do mais,
- Continua falando, Tio Cabeça! - Me chama que nem minha sobrinha de dois anos diz. Já disse que ela fala demais? Concluo que ela puxa meus pés mais uma vez à Terra.
Sorrio e aperto a ponta do nariz dela com a palma da minha mão.
- Tua cara. - respondo sorrindo. - Mas me diz, o que eu digo? Pera, já sei: me diz... ah, forçando assim não sei! Finge aí que tu não perguntou nada.
- Tá bom. - ela entra no jogo. Aí já gosta de uma brincadeira...
Quatro ou cinco segundos depois, lembro de um assunto. Ergo o dedo, e digo com uma boa impostação:
- Lá me vem tu com essa conversa de novo, Daniela!

3.12.07

Mais um conto simbólico

O Marcelo era um garoto azul, como algumas divindades hindus. Azul daquele jeito. E por mais estranho que isso soe, e realmente seja, poucos reparavam que ele era azul. Perceber, todos percebiam, como se percebe que alguém é vesgo ou manca levemente um pé. Mas poucos realmente prestavam atenção à sua cor.
Marcelo tem uma vida social normal, e às vezes congue ficar até da cor das outras pessoas, e ser mais normal ainda. Mais normal. O "normal" de todo mundo, claro. Marcelo sabe que não se pode viver isolado de toda essa gente, e nem faz questão de tal. Gosta de estar entre os outros, os que são diferente dele, na verdade quem é diferente é o Marcelo, mas ele não liga pra isso. Não quando está em outra cor.
Mas quando é azul, Marcelo se isola, e gosta disso. E se põe a pensar sobre tudo, e a escolher as matizes de seus raciocínios e idéias. Menos dos sentimentos. Estes não têm cor nenhuma para Marcelo. Nem mesmo preto ou branco. Ele tenta entender o porquê disso, mas não consegue, não consegue mesmo.
Ah, o Marcelo ganhou óculos no início da infância. Mas ele tem a vista boa, em qualquer cor que esteja sua pele. Ele tentou usá-los para tentar ver as matizes dos sentimentos, mas não resultou em nada. Também nunca o jogou fora, sabe que vai precisar dele. Na verdade, trata os óculos com o maior zelo, como se realmente tivessem importância, mas não têm. Às vezes tem vontade de jogá-los fora, mas sempre acha melhor não. Devia vir com um manual de instruções. Aí sim ele veria todas as matizes, e saberia usar os tais óculos.
Marcelo, quando está entre azul e qualquer outra cor, pergunta para os míopes como usar os óculos. Aprendeu tudo, mas não consegue aplicar à pratica. Sabe das distâncias focais, espessura, grau da concavidade, e tudo mais. Sabe até mais de quem usa os óculos. Mas Marcelo, não. Marcelo nunca entendeu e incorporou seus óculos.
Esse é o Marcelo, pele azul e com óculos inúteis nas mãos.
Desenhá-lo seria fácil. Seria preciso só fazer um rosto triste e pintar de azul.