12.2.18

Mergulho no abismo

Mais uma vez é noite em percurso avançado rumo ao dia. Mais uma vez estou deitado e desconfortável entre os meus membros, insistentes em se articularem em posições agora tão alheias ao que me parece familiar. O colchão tenta abrigar, o lençol tenta acolher, o travesseiro tenta consolar, todos sem sucesso, porque agora não são além de puros artefatos, o que poderiam fazer sendo apenas artefatos. Não culpo tampouco o corpo. Parece estar quieto, mas dança espasmodicamente no tempo aqui e no tempo acolá, querendo apenas encontrar o passo final de um sono tranquilo. No negrume do quarto, essa delícia abundante em volumes e carente de cores, sou o corpo e o espírito que tenta sincronizar com o tempo borrifado nas paredes, no teto, na cama. Não sou autorizado ao destino do sono, porém, por ser filho de Adão e carregar o gene da inocência perdida. Ai, Adão, ai Eva, por que inventaram dessa maçã, por que inventaram dessa serpente! Eu aqui, tamanho 2018 começando, deflorando pensamentos num jardim que eu nem queria estar a princípio. O corpo teima. Eu desteimo. Sigo nesse martírio solitário, sendo todos os martírios solitários, de ser luz acesa enquanto toda essa banda do mundo está apagada.

* * *

Há um prazer - pecado - secreto em pensar desmedido, reerguer memórias de tanto tempo atrás, sempre atrás, sabe-se lá de que grau de veracidade, sabe-se lá de qual realidade eu esteja pescando mementos, assando-os e devorando-os noite adentro. A mesma boca de matapi que encarcera memórias pretéritas do rio tempo também engaiola aspirações, memórias do futuro, planos que nunca se realizarão, não nessa vida. A boca é formidável, tenebrosa, cega, quente, um bastião atraente para ideias perdidas no negrume submarino do quarto noturno. Há um prazer - pecado - em capturar todas as criaturinhas imersas no éter para anabolizar um corpo ainda desconhecido. O único conhecimento agora, às quatro e tanta dos ponteiros, é a instabilidade, um corpo inquieto, um espírito pulsante, faminto. Nunca se sabe o que se passa dentro da crisálida, plácida ao mundo externo, que a vê como uma pedra ou folha desanimada, esquecida de si própria. Não. Esquecer-se de si seria a bênção redentora de uma noite inquieta. Da noite em vigília fiz minha pupa. Aqui de dentro da casca, o corpo preda o que pode, a caça é qualquer aquilo que pode nutrir. E me alimento para finalmente alcançar a manhã num novo ser saciado.   

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