6.2.17

Perdido

alguém viu um poeminha num papel
perdido por aí?
não lembro onde o pus
nem como reescrever seus versos

refazê-lo, aliás, seria imprudente
um poema é propriedade do momento
e o momento já se foi
levando consigo meu poeminha

era assim
três versos em algumas estrofes
e umas rimas carmins

das palavras
não sei ao certo qual a dose
eu as servi de mim

mas isso não era o poema de todo
nem sequer era coisa musical
logo antes, logo depois
era apenas palavras a existir

devia tê-lo guardado
na carteira
ao lado da

carteira nacional de habilitação
bilhete único
comprovantes de débito
sua via senhor? sim, por favor
cartão de visita
meu poema favorito de Carlos
cartões de visita da república
Marianne
enfeitados com arara, onça, garça
tanto papel, meu Deus
menos qual importa

por favor, gente
será que já procurei
debaixo das almofadas do sofá?
no caderno da minha filha?
atrás da lista de supermercado?
será que refiz o caminho do metrô até em casa?

e logo hoje
que tudo pode ser guardado na memória vitual
num pen drive, disco rígido, celular

na nuvem!

fui achar de escrevê-lo num papel
à moda antiga, pra me sentir escritor
riscado a lápis 4B
bem bonito, bem forte
coisa de gente inspirada

e eu estava inspirado
um sentimento forte no peito
não era felicidade
nem tristeza
temos mais que isso

era angústia do desconhecido
o que eu sentia

pombo perdido na lanchonete
o calafrio de reconhecer o Ninguém
no meio de tanta coisa
e tanta coisa me rodeia

aquilo que ninguém vê

era a ânsia de querer escapar
o que eu sentia

correr noite adentro até cansar
o concreto curado nos pés paralisados
e tanta e tanta interrogação
o olhar atento e cansado

soltei essas coisas todas
naquele papel perdido
mais ou menos como descrevo

essa coisa de estar perdido
foi o poema que fiz
propriedade do momento
o momento me levou
e eu procuro quem me escreveu

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