Baleia bailarina
desliza nos tecidos finos do mar
lentificando o passar do tempo
na dança lânguida e concisa
arqueia acima
arqueia abaixo
arqueia acima
arqueia abaixo
você é corpo e nada mais
com olhinhos que observam
o nada senão o azul
és grande corpo dentre os marinhos
e os da terra também
junto ao gigante sentado na ponta d'areia
aguardo teu espirro de saudação
na luz do ocaso
arqueia acima
arqueia abaixo
arqueia acima
arqueia abaixo
baleira bailarina
conte-me o que diz a canção
que propaga nas ondas
e a dança aérea
dos saltos irrompentes
tomo a tua mão e danço
na paz que encontras
nos quilômetros do oceano
de água morna aqui, gelada ali
teu solitário percorrer submarino
trajeta linhas de poesia
9.3.15
23.1.15
Incêndio
Um fogo desastrado e errante percorria todo o chão, ameaçando a mobília e as cortinas. Eriçava-se o vento. Explodia nas janelas, oferecendo as cortinas e as pequenas coisas ao acaso. Ele continuava ali, sentado na poltrona, pescoço e mãos fundidos ao móvel, comprimido pela escuridão. Ladrava pesadamente o cão para sua sombra, que fugia de um lado a outro na parede ao fugir das chamas. Cantava em algum lugar da sua vaga cabeça uma lenta música sobre o irremediável. Um pé secretamente tapeava o andamento da canção. Um, dois, três, quatro. A mandíbula do cão movia-se com mais velocidade do que poderia acompanhar naquela luz bruxuleante. O calor o envolvia, o perigo estava além. "Corta o caminho, impede o retorno... martela o vidro nascido no fogo..." Um, dois, três, quatro. A mesa cedeu uma perna para o monstro flamejante. O vento estapeara três vasos para o chão num só arroubo. O cão agora latia raivosamente para a janela. Aquele animal não sabia para onde ir. De certa forma, nunca soube. Por que tão desesperado agora? A madeira da mobília agora claqueava confortavelmente no fogo. Talvez seja o toque de marcação de quando tudo começa a se desfazer. Detritos vagalumeados festejavam por todos os lados, silenciosamente. A música permaneceu constante e irrefreável. Um, dois, três, quatro. O vento engrandeceu. O vento engrandeceu o fogo. Homem de lata paralisado. Ora, com um pensamento paciente percebe-se que o esfacelamento de algo é o engrandecimento de outro. Até o cão engrandeceu no seu pavor. Ele por outro lado estava impassível em seu estado quase meditativo. O pensamento rareava conforme os minutos passavam. Ansiava, porém, por algo. Sentiu as chamas atingirem seus pés ainda mansamente compassados. Era bom. Não o assustou. A lata não era combustível perfeito, pelo contrário: alimentava-se do calor. Pouco a pouco subia o metal do seu corpo, embrasando-o. Sentia o calor atravessar a pele, sentia a vida emergir do caos e convergir no seu corpo.
A música parou. Levantou-se.
Ainda estava em chamas. Era um pequeno sol no centro da sala. Deixou de sentir seu natural frio metálico, reverbérico. A casa não emitia mais os suspiros, passos e cochichos formidáveis anteriores ao incêndio. O vento aplaudia as janelas contra a parede, o cão empurrava a porta de saída próximo ao sucesso, o fogo... Engrandeceu. Sentiu a vida ofuscante, o brilho minar do seu corpo. O som quente dos estalares. Fechou os olhos e limitou-se a sentir. Era agora inteiramente o ato de sentir. Apetite inflamado. Medo animal. Desgoverno ventilado. Ardia o coração.
A música parou. Levantou-se.
Ainda estava em chamas. Era um pequeno sol no centro da sala. Deixou de sentir seu natural frio metálico, reverbérico. A casa não emitia mais os suspiros, passos e cochichos formidáveis anteriores ao incêndio. O vento aplaudia as janelas contra a parede, o cão empurrava a porta de saída próximo ao sucesso, o fogo... Engrandeceu. Sentiu a vida ofuscante, o brilho minar do seu corpo. O som quente dos estalares. Fechou os olhos e limitou-se a sentir. Era agora inteiramente o ato de sentir. Apetite inflamado. Medo animal. Desgoverno ventilado. Ardia o coração.
6.1.15
Triangulando alguma evolução
Ali, no vão de um espaço absoluto, I dançava incessantemente os
braços no ar enquanto fitava um ponto fixo adiante. Abaixo dele, alguma
curiosa. Em sua frente, algum alheio. Dignamente atrevida, a empreitada
se deu de surpresa. Até ao próprio I; decidiu por realizá-la nos poucos
minutos antesequentes, para inflar(-se d)a súbita resolução em fazer
algo de sua vida, qualquer coisa, qualquer coisa. Havia gasto tanto
tempo estancado... poça d'água parada e perniciosa. Romper essa inércia
foi mister tão logo percebida paralisante. Agora alçava voo ali, entre
dois prédios. Não houve noticiamento do fato, nem se percebeu seus
preparativos. Da geração antiga dos prédios do Renascença, os dois edifícios comerciais apresentavam um acesso fácil a qualquer um que se apresentasse como cliente destinatário a algum escritório locado nestes e mudasse o rumo como bem entendesse. Assim I o fez. Sentia algo de criminoso, algo de um heroísmo pessoal. Fazia-o pelo desafio, para sentir o balançar da fita seguir à sua vida. O desafio de cumprir um simples trajeto retilíneo era totalmente revertido quando se estava a metros e metros de altura, numa frágil fita. A vida não é linha reta, e se alguma palavra pode caracterizá-la honestamente é a instabilidade. O pé articulava-se com tanto controle ao pousar na fita que lembrava uma lagarta ondulando. Agora, tentando não se importar com o vento que espalhava o suor por sua pele, I esforçava-se em esvaziar a cabeça. O
esforço de não pensar em mais nada era crucial, e por isso, cruel: I era
zombeteado por tudo que queria ignorar. Já avançava uns bons dez
passos. Braços abertos como uma cruz, pernas vacilantes como numa dança,
barriga enrijecida como uma parede, pele molhada como em chuva, olhar
fixo adiante...
...
Quanto vento. Não tem como parar agora.
Onde olhar?
Devia ter avisado alguém disso. Não desse pessoal embaixo, mas alguém lá de casa.
São só pensamentos. Não se fixe em nenhum.
Será que já sabem? será que tem TV lá embaixo? Por que eu me importaria com isso? Não é meu propósito chamar a atenção (será mesmo?).
Vêm e vão... vêm e vão. Olhar adiante. Naquele cara...? O que poderá uma pessoa fazer a uma hora dessas ali? Eu hein.
Respira. Cada músculo sob controle. O cara pode esperar. Já tô na metade.
É impressionante como o pensamento se gera rápido. E morre rápido. Quando eu tento acompanhar, me perco.
...
Recostado
na casa de máquinas do topo do prédio destino de I, P recolhia a cabeça
entre os braços e joelhos. Estava perdido, ansioso, destacado. Perdia a
disposição nos segundos do tempo, e os pensamentos embaralhavam na
cabeça. Estava fechado a tudo e alheio a certa empreitada em percurso.
Se alguém o perguntasse, diria que estava exausto; não era a palavra
correta, mas uma analogia sensorial aproximada do que estava a bagunça
de seu ser. Ele sabia disso, e até entretinha-se procurando a palavra
exata para cada situação. Agora, em meio à corrente e contracorrente,
não tinha ânimo em caçar palavras e nem mesmo se importava com isso. O
que importava, não sabia mais e era isso o que o incomodava. Poderia
dizer que era a família opressora, o relacionamento descarrilado com B,
ou qualquer clichê, mas nada disso era verdade. Não tinha também a
intenção de se jogar dali (outro clichê), nem de acabar com a vida. Pelo
contrário, queria desafiá-la. Estava ali pela busca de um lugar
sossegado e aberto. Queria que o sossego permeasse a cabeça inundada de
pensamentos soltos. Talvez estivesse apatizando como um inseto prestes a
virar pupa. Respirava com dificuldade mantendo cabeça baixa. Braços e
joelhos cerrados como gaiola, cabeça densa como uma pedra, ombros soltos
como cordas, olhar vidrado adiante...
...
Aqui nesse lugar longe de tudo, aqui nessa cabeça longe de tudo... (acho que essa não seria hora de fazer poesia).
Nem graça.
Essas coisas saem tão espontâneas...
Por que as coisas haveriam de mudar comigo (e emigo) aqui em cima?
Aqui em cima tá tão ventilado. Me faz sentir um pouco bem. Me faz sentir culpado por me sentir bem, talvez não esteja querendo isso. O que eu quero?
B trabalha aqui perto, se ela aparece (não!), o que eu digo?
Devia ter trazido um caderno pra rabiscar, me achar um pouco.
Quanta ponta solta, queria mesmo atar cada fio de pensamento e seguir tranquilo meus dias.
Respirar. Essa posição tá me fazendo mal, mas não quero mudar. Respira fundo.
...
Sentada
na calçada, B impressionava-se com a peripécia do I. Parecia um pássaro
contra o céu quente do meio-dia. Não o conhecia, mas imbuiu-se de
empatia por ele, pela sua luta. Ele estava tão longe, sentia-o tão perto. Dava pra perceber que fazia aquilo por um desafio a si próprio, nada além disso. Não chegava a ser um ponto, mas sim um vulto lá no alto, bailando leve como pluma e vento. O prédio não era tão alto assim. Apesar de leve, B o enxergava numa controversa atenção, similar aos bailarinos que concentram-se em sorrir descontraidamente durante o número. B tentava não pensar tanto no que sentia e apenas apreciar aquela aventura. Alongou o pescoços para os lados, cansado de estar curvo há tantos minutos para trás. Fechou os olhos enquanto fazia isso, sorriu e se imaginou lá em cima. Não se importava com os outros que também estavam assistindo ao equilibrista; tampouco os outros a notavam ante algo tão notório acontecendo acima. Para ela o dia havia melhorado consideravelmente, quiçá o mês; sentia-se agora muito bem, nessa interrupção inesperada do seu horário de almoço. Esticou-se e deitou na calçada que, pelo menos nessa área da cidade, era larga o suficiente para isso. Manteve as pernas dobradas para cima e os pés encostados na sarjeta. Mãos na cabeça como uma almofada, braços abertos como uma borboleta, sorriso nos lábios como uma criança, olhar atento adiante...
...
Como pode, né? Cada doido nessa cidade... e que doidice legal!
Será que se importam de que eu fique deitada aqui? E se alguém do escritório me vir?
Ele parece tão sério daqui... Será que alguém aqui conhece? Talvez eu deva me inscrever numas aulas de dança. Acho que vou fazer isso ao sair daqui. Senão perco a coragem.
É maravilhoso termos a capacidade de contágio de vontade, sentimentos, mesmo assim, tão distantes...
Acho que vou me atrasar na volta pro escritório. Vai lá, cara, estamos juntos nessa.
...
23.6.14
Sombra
Acordei com o peito encharcado e sentindo a dor latejar. Abri os olhos e permaneci deitado na rede por uns instantes. Contemplei o teto e tentei recuperar o controle dos pensamentos: a dor e o barulho que chegava da rua não me permitiram.
Eu precisaria ser carregado, tamanha dor no corpo. Embora estivesse consciente e fisicamente habilitado, carregava dentro de mim um pulsar lento e carregado, dificultado-me a fala e a respiração. Era um sopro frio no coração. Fora de mim, soprava um vento igualmente frio da janela, e na paisagem o céu cinza-chumbo gritava trovões. Desnorteado, exausto e sem ânimo, fui à porta da rua, onde gritos e correria sem direção definida me fizeram deslocar mais ainda de mim. Os estrondos trovejais repercutiam surdamente no horizonte, cada vez mais próximos, aumentando o pânico dos que corriam por suas vidas.
Eu não sabia o que pensar, nem o que falar. Carregava uma mordaça que apertava meu coração a todo o instante. Meus nervos estavam frouxos e meus sentidos desligados. Um retumbo deu-se a poucos metros de onde eu estava plantado. Então a abóbada nublada do céu rompeu-se numa cratera, e um dos pilares do firmamento veio abaixo. Ouvi muito choro por todos os lugares. Eu mesmo quis chorar, e já tendo chorando tanto há tão pouco tempo, mantive-me inerte. O signo da apatia me paralisou. Não por ver o céu desabar, mas por perceber que a nossa felicidade findou, que tínhamos chegados a um adeus sem perspectiva de retorno. Quando desse pensamento, senti o terrível lobo da desilusão abocanhar forte meu coração. Caí de joelhos na soleira da porta. Aquela toda gente correndo por suas vidas... Olhei adiante, no instante em que ouvi uma voz gritar:
- O mundo está acabando!
Assistíamos a mais um estrondo do ruir de outro pilar, e as explosões no céu pareceram bonitas para mim. Queria que ela estivesse comigo para ver isso.
Ela ainda me ama? Seres proféticos de inúmeras cabeças não conseguiam me excitar. Corpo e mente inertes, iniciei uma caminhada sem propósito e trajetória definida. Com o passo desconexo, me deixei colidir a tantos ombros e tantas canelas. Caí por algumas vezes e esperei em vão que o pisoteio me despertasse. De pé novamente, avistei uma escadaria ao final da rua. Um sentimento estranho, ignóbil... posso garantir que o pensamento de subir a escadaria lampejou uma faísca de perspectiva em mim maior que a destruição do próprio mundo em si. Talvez por definição ser um elemento de mudança, fui atraído sem resistência a subi-la.
Caminhei com a força que era capaz dentre a massa entrópica: saques, cornetas, cânticos, pedradas, choros, bêbados, rugidos e lamentos misturavam-se em minha frente, em meu topo, em meus lados. Uma mulher aos prantos repentinamente me abraçou com tanta força que meus ombros doeram. Não proferiu palavra sequer, e repentinamente também se foi. Grupos ajoelhados pediam clemência, e uma forte luz muda dissolveu o céu nublado. Cada elemento deste mundo tornou-se algo do tom mais puro do branco, com suas sombras num tom invariável de cinza. Nesse momento consegui chegar ao primeiro degrau da escada, agarrando as duas mãos no corrimão de alvenaria afim de me ancorar contra a multidão descorada que descia como água. Galguei cada degrau com energia crescente. Ao atingir o patamar final, tua lembrança me veio como um raio. Caí. E tudo parou.
O céu inexistia, sem as nuvens que eu costumava te demonstrar. O peso adensou-se muito em meu peito, a ponto de eu querer me desfazer em lágrimas, numa tristeza notavelmente destilada. Eu não queria e nem sei se poderia suportar mais aquilo. Lembrei de uma imagenzinha qualquer de internet que preenchia a tela com a frase "the earth is not a cold dead place", numa letrinha desconcentrada. Sempre achei aquilo muito bonito, tristemente bonito, como agora. Acho que eu poderia ser a personificação daquela imagem. Mais: tudo aquilo que eu estava vivendo realizaria aquela imagem. Deitei no chão e esperei por algo que não sabia o que era, e estranhamente sabia, como a progressão final de uma música induzindo ao silêncio. Eu estava sozinho naquele momento, e achava que cada pessoa do mundo deveria estar sozinha também. Senti cada vez menos o corpo, e acho que neste momento eu era apenas consciência. Não saberia dizer mais nada naquele momento. Cada vez mais meus pensamentos afunilaram-se até tornarem-se um único, monomaníaco, apenas uma lembrança, a nossa.
Como esta noite findará...
Eu precisaria ser carregado, tamanha dor no corpo. Embora estivesse consciente e fisicamente habilitado, carregava dentro de mim um pulsar lento e carregado, dificultado-me a fala e a respiração. Era um sopro frio no coração. Fora de mim, soprava um vento igualmente frio da janela, e na paisagem o céu cinza-chumbo gritava trovões. Desnorteado, exausto e sem ânimo, fui à porta da rua, onde gritos e correria sem direção definida me fizeram deslocar mais ainda de mim. Os estrondos trovejais repercutiam surdamente no horizonte, cada vez mais próximos, aumentando o pânico dos que corriam por suas vidas.
Eu não sabia o que pensar, nem o que falar. Carregava uma mordaça que apertava meu coração a todo o instante. Meus nervos estavam frouxos e meus sentidos desligados. Um retumbo deu-se a poucos metros de onde eu estava plantado. Então a abóbada nublada do céu rompeu-se numa cratera, e um dos pilares do firmamento veio abaixo. Ouvi muito choro por todos os lugares. Eu mesmo quis chorar, e já tendo chorando tanto há tão pouco tempo, mantive-me inerte. O signo da apatia me paralisou. Não por ver o céu desabar, mas por perceber que a nossa felicidade findou, que tínhamos chegados a um adeus sem perspectiva de retorno. Quando desse pensamento, senti o terrível lobo da desilusão abocanhar forte meu coração. Caí de joelhos na soleira da porta. Aquela toda gente correndo por suas vidas... Olhei adiante, no instante em que ouvi uma voz gritar:
- O mundo está acabando!
Assistíamos a mais um estrondo do ruir de outro pilar, e as explosões no céu pareceram bonitas para mim. Queria que ela estivesse comigo para ver isso.
Ela ainda me ama? Seres proféticos de inúmeras cabeças não conseguiam me excitar. Corpo e mente inertes, iniciei uma caminhada sem propósito e trajetória definida. Com o passo desconexo, me deixei colidir a tantos ombros e tantas canelas. Caí por algumas vezes e esperei em vão que o pisoteio me despertasse. De pé novamente, avistei uma escadaria ao final da rua. Um sentimento estranho, ignóbil... posso garantir que o pensamento de subir a escadaria lampejou uma faísca de perspectiva em mim maior que a destruição do próprio mundo em si. Talvez por definição ser um elemento de mudança, fui atraído sem resistência a subi-la.
Caminhei com a força que era capaz dentre a massa entrópica: saques, cornetas, cânticos, pedradas, choros, bêbados, rugidos e lamentos misturavam-se em minha frente, em meu topo, em meus lados. Uma mulher aos prantos repentinamente me abraçou com tanta força que meus ombros doeram. Não proferiu palavra sequer, e repentinamente também se foi. Grupos ajoelhados pediam clemência, e uma forte luz muda dissolveu o céu nublado. Cada elemento deste mundo tornou-se algo do tom mais puro do branco, com suas sombras num tom invariável de cinza. Nesse momento consegui chegar ao primeiro degrau da escada, agarrando as duas mãos no corrimão de alvenaria afim de me ancorar contra a multidão descorada que descia como água. Galguei cada degrau com energia crescente. Ao atingir o patamar final, tua lembrança me veio como um raio. Caí. E tudo parou.
O céu inexistia, sem as nuvens que eu costumava te demonstrar. O peso adensou-se muito em meu peito, a ponto de eu querer me desfazer em lágrimas, numa tristeza notavelmente destilada. Eu não queria e nem sei se poderia suportar mais aquilo. Lembrei de uma imagenzinha qualquer de internet que preenchia a tela com a frase "the earth is not a cold dead place", numa letrinha desconcentrada. Sempre achei aquilo muito bonito, tristemente bonito, como agora. Acho que eu poderia ser a personificação daquela imagem. Mais: tudo aquilo que eu estava vivendo realizaria aquela imagem. Deitei no chão e esperei por algo que não sabia o que era, e estranhamente sabia, como a progressão final de uma música induzindo ao silêncio. Eu estava sozinho naquele momento, e achava que cada pessoa do mundo deveria estar sozinha também. Senti cada vez menos o corpo, e acho que neste momento eu era apenas consciência. Não saberia dizer mais nada naquele momento. Cada vez mais meus pensamentos afunilaram-se até tornarem-se um único, monomaníaco, apenas uma lembrança, a nossa.
Como esta noite findará...
15.1.12
Abehar
Antes, quando eu julgava ser imortal
bastava-me essa noção
e produzia tudo em quanto
Hoje, tendo adquirido a mortalidade
adquiri também
raízes na inoperância
13.9.10
Céu Nublado
Havia ali, na rua logo abaixo, uma flor que brotava no asfalto.
Eu, teimoso em ver encanto no trivial inesperado, achava isso fantástico. Me postava ali, sentado na calçada, a admirar o espetáculo de uma flor ao sol, ilha em meio ao escuro mar do asfalto. Suas pétalas eram brancas com minúsculos pontinhos escuros.
Apertava os olhos e sorria.
Sentia-se de longe o perfume ímpio do seu coração imenso e bravo. Se houvesse uma cor nesse aroma, seria lilás, pura e intensa de sua impassividade ao amor.
Por tanto apreço à flor, preocupava-me dos carros que iam e vinham.
Ela não tinha essa apreensão, afinal, escolhera brotar ali e ali abrir os braços ao sol. Os carros eram de outro mundo. Na minha vista, ali havia apenas uma flor. Desaparecem carros, casas, pessoas, cidade. É o meio de tudo. É o espetáculo de apenas ser.
Preocupação tola, a minha. Mais que isso, infantil - infantil como eu me sentia ali sentado na calçada assistindo a uma flor banhar-se em sol. É desses sentimentos de rendição que não se percebe chegar. Deixo-me persuadir pela suave e inocente figura de pétalas alvas em meio ao negro do mundo.
Asfalto quente e escuro, emana ondas de calor que me confundem a vista em certas ocasiões. Perco-me, confundo-me, assalto-me da coerência; desnorteio-me sem a vista real da flor branca de pontinhos escuros. O problema é o asfalto. O problema são os carros. O problema são os outros. Quisera eu parar todos os carros, resfriar o asfalto. Convive-se e aprende-se. Mais que isso, sente-se. Flor feita apenas do sentir.
Na separação, de volta à minha casa, contemplo apenas o céu na rua onde moro: nublou, e nada mais pode me trazer uma lembrança tão forte quanto essas nuvens sob o sol que banha o sorriso minha flor do aslfato.
Eu, teimoso em ver encanto no trivial inesperado, achava isso fantástico. Me postava ali, sentado na calçada, a admirar o espetáculo de uma flor ao sol, ilha em meio ao escuro mar do asfalto. Suas pétalas eram brancas com minúsculos pontinhos escuros.
Apertava os olhos e sorria.
Sentia-se de longe o perfume ímpio do seu coração imenso e bravo. Se houvesse uma cor nesse aroma, seria lilás, pura e intensa de sua impassividade ao amor.
Por tanto apreço à flor, preocupava-me dos carros que iam e vinham.
Ela não tinha essa apreensão, afinal, escolhera brotar ali e ali abrir os braços ao sol. Os carros eram de outro mundo. Na minha vista, ali havia apenas uma flor. Desaparecem carros, casas, pessoas, cidade. É o meio de tudo. É o espetáculo de apenas ser.
Preocupação tola, a minha. Mais que isso, infantil - infantil como eu me sentia ali sentado na calçada assistindo a uma flor banhar-se em sol. É desses sentimentos de rendição que não se percebe chegar. Deixo-me persuadir pela suave e inocente figura de pétalas alvas em meio ao negro do mundo.
Asfalto quente e escuro, emana ondas de calor que me confundem a vista em certas ocasiões. Perco-me, confundo-me, assalto-me da coerência; desnorteio-me sem a vista real da flor branca de pontinhos escuros. O problema é o asfalto. O problema são os carros. O problema são os outros. Quisera eu parar todos os carros, resfriar o asfalto. Convive-se e aprende-se. Mais que isso, sente-se. Flor feita apenas do sentir.
Na separação, de volta à minha casa, contemplo apenas o céu na rua onde moro: nublou, e nada mais pode me trazer uma lembrança tão forte quanto essas nuvens sob o sol que banha o sorriso minha flor do aslfato.
2.4.10
A noite é inteira
América percebeu que precisava trocar a escova de dentes. Notava uma leve aspereza em alguns dentes ao toque da língua. Guardou como uma nota mental passar amanhã no mercado para comprar uma escova. Enquanto encarava o próprio rosto no espelho, maquiado com a espuma do creme dental nos lábios, pensou nos demais afazeres. Organizar os dvd's nas devidas capas, trazer as roupas limpas para o guarda-roupa, levar as sujas para a área de serviço, pesquisar na internet alguma forma alternativa para disfarçar os fios brancos que apareciam no cabelo. Talvez reorganizasse a posição do sofá na sala.
Na noite alta, era seu hábito manter-se ocupada. A noite na janela estava escura, ainda sem estrelas. O silêncio era o mesmo. A única diferença era que Ele não estava mais lá.
Às tantas da madrugada, achou lugar em que sentia-se disposta. Agora lia um tanto, mas não prestava atenção realmente ao texto. Os pensamentos disputavam sua atenção com o livro que tinha em mãos; sempre havia algo para fazer, algo para organizar. Queria sempre ter alguma tarefa a cumprir.
Foi a forma que encontrou para por ordem na própria vida. Não sabia isso de claro, mas era a diretriz que comandava tudo o que fazia. Pensava no mundo, pensava no tempo, pensava na idade, e sobretudo, pensava nas pessoas.
Havia um pouco tempo, talvez alguns meses, que sentia-se distanciar das pessoas, ao passo que queria ao mesmo tempo entendê-las cada vez mais. Tem lá sua lógica. Assista tudo de cima, veja o rato correr o labirinto. Uma aranha na janela, um anjo na piscina. Assista as pessoas irem e virem nas calçadas. Talvez isso tenha acontecido por ter perdido o emprego, todo esse desapego. Justo ela, que lidava com pessoas o tempo inteiro em sua rotina de recepcionista. Talvez tenha sido a solidão sólida que sentiu quando Ele se foi. Parecia ter contagiado-se com o pensar descontrolado que Ele tinha. Mas no caso de América, os pensamentos tinham o único propósito de manter longe o fato de que Ele não estava mais ali. Isso também não sabia de claro.
Largou o livro no colo e deixou a cabeça pender ao recosto do sofá. No tempo em que analisava o acúmulo de insetos no lustre da sala, achava estranho a necessidade de que as pessoas têm em se agarrar a outrem. Dela própria depender tanto dele, justo agora que Ele era apenas ausência.
Sentiu o dedo latejar novamente. Queimou-o enquanto esquentava o café do dia anterior; preferiu mantê-lo sem band-aid, sem pomadas, sem manteiga. Cedo ou tarde tudo voltará ao normal. Isso trouxe-a de volta à realidade. Ainda que tivesse o dedo inoperante, resolveu levantar-se do sofá e puxá-lo para mais próximo da janela. Mesmo depois de ter passado a noite em claro carregando livros e varrendo pisos, queria cansar-se mais. Assim o descanso é honesto.
Posicionou o sofá abaixo da janela e vislumbrou a noite sendo aniquilada pelo dia nascente. A noite que Ele a deu. "América, meu amado continente". Foi o que havia escrito numa das poucas cartas que que fez. Animou-se discretamente com a lembrança, mas não o suficiente para que algum sorriso surgisse. Não em seu rosto; na alma talvez. Por conseguinte, lamentou e pensou: "A noite é inteira". Às vezes sentia uma certa raiva em estar bagunçando mais ainda o apartamento, mitigando a ordem de seu espaço a cada dia que passava com suas efêmeras organizações. Raiva dele por entrar tantas vezes em sua mente sem pedir permissão.
O dia estava alto e não havia mais tempo para pensar ou pensar em algo mais a fazer. Era hora de sair em busca de outro emprego, comprar a escova de dentes nova; mas antes disso precisava alimentar seu animal: um dragão pálido ufava e ansiava por comida em sua pequena caixa na cozinha.
Na noite alta, era seu hábito manter-se ocupada. A noite na janela estava escura, ainda sem estrelas. O silêncio era o mesmo. A única diferença era que Ele não estava mais lá.
Às tantas da madrugada, achou lugar em que sentia-se disposta. Agora lia um tanto, mas não prestava atenção realmente ao texto. Os pensamentos disputavam sua atenção com o livro que tinha em mãos; sempre havia algo para fazer, algo para organizar. Queria sempre ter alguma tarefa a cumprir.
Foi a forma que encontrou para por ordem na própria vida. Não sabia isso de claro, mas era a diretriz que comandava tudo o que fazia. Pensava no mundo, pensava no tempo, pensava na idade, e sobretudo, pensava nas pessoas.
Havia um pouco tempo, talvez alguns meses, que sentia-se distanciar das pessoas, ao passo que queria ao mesmo tempo entendê-las cada vez mais. Tem lá sua lógica. Assista tudo de cima, veja o rato correr o labirinto. Uma aranha na janela, um anjo na piscina. Assista as pessoas irem e virem nas calçadas. Talvez isso tenha acontecido por ter perdido o emprego, todo esse desapego. Justo ela, que lidava com pessoas o tempo inteiro em sua rotina de recepcionista. Talvez tenha sido a solidão sólida que sentiu quando Ele se foi. Parecia ter contagiado-se com o pensar descontrolado que Ele tinha. Mas no caso de América, os pensamentos tinham o único propósito de manter longe o fato de que Ele não estava mais ali. Isso também não sabia de claro.
Largou o livro no colo e deixou a cabeça pender ao recosto do sofá. No tempo em que analisava o acúmulo de insetos no lustre da sala, achava estranho a necessidade de que as pessoas têm em se agarrar a outrem. Dela própria depender tanto dele, justo agora que Ele era apenas ausência.
Sentiu o dedo latejar novamente. Queimou-o enquanto esquentava o café do dia anterior; preferiu mantê-lo sem band-aid, sem pomadas, sem manteiga. Cedo ou tarde tudo voltará ao normal. Isso trouxe-a de volta à realidade. Ainda que tivesse o dedo inoperante, resolveu levantar-se do sofá e puxá-lo para mais próximo da janela. Mesmo depois de ter passado a noite em claro carregando livros e varrendo pisos, queria cansar-se mais. Assim o descanso é honesto.
Posicionou o sofá abaixo da janela e vislumbrou a noite sendo aniquilada pelo dia nascente. A noite que Ele a deu. "América, meu amado continente". Foi o que havia escrito numa das poucas cartas que que fez. Animou-se discretamente com a lembrança, mas não o suficiente para que algum sorriso surgisse. Não em seu rosto; na alma talvez. Por conseguinte, lamentou e pensou: "A noite é inteira". Às vezes sentia uma certa raiva em estar bagunçando mais ainda o apartamento, mitigando a ordem de seu espaço a cada dia que passava com suas efêmeras organizações. Raiva dele por entrar tantas vezes em sua mente sem pedir permissão.
O dia estava alto e não havia mais tempo para pensar ou pensar em algo mais a fazer. Era hora de sair em busca de outro emprego, comprar a escova de dentes nova; mas antes disso precisava alimentar seu animal: um dragão pálido ufava e ansiava por comida em sua pequena caixa na cozinha.
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