Havia ali, na rua logo abaixo, uma flor que brotava no asfalto.
Eu, teimoso em ver encanto no trivial inesperado, achava isso fantástico. Me postava ali, sentado na calçada, a admirar o espetáculo de uma flor ao sol, ilha em meio ao escuro mar do asfalto. Suas pétalas eram brancas com minúsculos pontinhos escuros.
Apertava os olhos e sorria.
Sentia-se de longe o perfume ímpio do seu coração imenso e bravo. Se houvesse uma cor nesse aroma, seria lilás, pura e intensa de sua impassividade ao amor.
Por tanto apreço à flor, preocupava-me dos carros que iam e vinham.
Ela não tinha essa apreensão, afinal, escolhera brotar ali e ali abrir os braços ao sol. Os carros eram de outro mundo. Na minha vista, ali havia apenas uma flor. Desaparecem carros, casas, pessoas, cidade. É o meio de tudo. É o espetáculo de apenas ser.
Preocupação tola, a minha. Mais que isso, infantil - infantil como eu me sentia ali sentado na calçada assistindo a uma flor banhar-se em sol. É desses sentimentos de rendição que não se percebe chegar. Deixo-me persuadir pela suave e inocente figura de pétalas alvas em meio ao negro do mundo.
Asfalto quente e escuro, emana ondas de calor que me confundem a vista em certas ocasiões. Perco-me, confundo-me, assalto-me da coerência; desnorteio-me sem a vista real da flor branca de pontinhos escuros. O problema é o asfalto. O problema são os carros. O problema são os outros. Quisera eu parar todos os carros, resfriar o asfalto. Convive-se e aprende-se. Mais que isso, sente-se. Flor feita apenas do sentir.
Na separação, de volta à minha casa, contemplo apenas o céu na rua onde moro: nublou, e nada mais pode me trazer uma lembrança tão forte quanto essas nuvens sob o sol que banha o sorriso minha flor do aslfato.
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Céu Nublado
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2 comentários:
(L)
Lovers gonna love!
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