Ali, no vão de um espaço absoluto, I dançava incessantemente os
braços no ar enquanto fitava um ponto fixo adiante. Abaixo dele, alguma
curiosa. Em sua frente, algum alheio. Dignamente atrevida, a empreitada
se deu de surpresa. Até ao próprio I; decidiu por realizá-la nos poucos
minutos antesequentes, para inflar(-se d)a súbita resolução em fazer
algo de sua vida, qualquer coisa, qualquer coisa. Havia gasto tanto
tempo estancado... poça d'água parada e perniciosa. Romper essa inércia
foi mister tão logo percebida paralisante. Agora alçava voo ali, entre
dois prédios. Não houve noticiamento do fato, nem se percebeu seus
preparativos. Da geração antiga dos prédios do Renascença, os dois edifícios comerciais apresentavam um acesso fácil a qualquer um que se apresentasse como cliente destinatário a algum escritório locado nestes e mudasse o rumo como bem entendesse. Assim I o fez. Sentia algo de criminoso, algo de um heroísmo pessoal. Fazia-o pelo desafio, para sentir o balançar da fita seguir à sua vida. O desafio de cumprir um simples trajeto retilíneo era totalmente revertido quando se estava a metros e metros de altura, numa frágil fita. A vida não é linha reta, e se alguma palavra pode caracterizá-la honestamente é a instabilidade. O pé articulava-se com tanto controle ao pousar na fita que lembrava uma lagarta ondulando. Agora, tentando não se importar com o vento que espalhava o suor por sua pele, I esforçava-se em esvaziar a cabeça. O
esforço de não pensar em mais nada era crucial, e por isso, cruel: I era
zombeteado por tudo que queria ignorar. Já avançava uns bons dez
passos. Braços abertos como uma cruz, pernas vacilantes como numa dança,
barriga enrijecida como uma parede, pele molhada como em chuva, olhar
fixo adiante...
Quanto vento. Não tem como parar agora.
Onde olhar?
Devia ter avisado alguém disso. Não desse pessoal embaixo, mas alguém lá de casa.
São só pensamentos. Não se fixe em nenhum.
Será que já sabem? será que tem TV lá embaixo? Por que eu me importaria com isso? Não é meu propósito chamar a atenção (será mesmo?).
Vêm e vão... vêm e vão. Olhar adiante. Naquele cara...? O que poderá uma pessoa fazer a uma hora dessas ali? Eu hein.
Respira. Cada músculo sob controle. O cara pode esperar. Já tô na metade.
É impressionante como o pensamento se gera rápido. E morre rápido. Quando eu tento acompanhar, me perco.
...
Recostado
na casa de máquinas do topo do prédio destino de I, P recolhia a cabeça
entre os braços e joelhos. Estava perdido, ansioso, destacado. Perdia a
disposição nos segundos do tempo, e os pensamentos embaralhavam na
cabeça. Estava fechado a tudo e alheio a certa empreitada em percurso.
Se alguém o perguntasse, diria que estava exausto; não era a palavra
correta, mas uma analogia sensorial aproximada do que estava a bagunça
de seu ser. Ele sabia disso, e até entretinha-se procurando a palavra
exata para cada situação. Agora, em meio à corrente e contracorrente,
não tinha ânimo em caçar palavras e nem mesmo se importava com isso. O
que importava, não sabia mais e era isso o que o incomodava. Poderia
dizer que era a família opressora, o relacionamento descarrilado com B,
ou qualquer clichê, mas nada disso era verdade. Não tinha também a
intenção de se jogar dali (outro clichê), nem de acabar com a vida. Pelo
contrário, queria desafiá-la. Estava ali pela busca de um lugar
sossegado e aberto. Queria que o sossego permeasse a cabeça inundada de
pensamentos soltos. Talvez estivesse apatizando como um inseto prestes a
virar pupa. Respirava com dificuldade mantendo cabeça baixa. Braços e
joelhos cerrados como gaiola, cabeça densa como uma pedra, ombros soltos
como cordas, olhar vidrado adiante...
Aqui nesse lugar longe de tudo, aqui nessa cabeça longe de tudo... (acho que essa não seria hora de fazer poesia).
Nem graça.
Essas coisas saem tão espontâneas...
Por que as coisas haveriam de mudar comigo (e emigo) aqui em cima?
Aqui em cima tá tão ventilado. Me faz sentir um pouco bem. Me faz sentir culpado por me sentir bem, talvez não esteja querendo isso. O que eu quero?
B trabalha aqui perto, se ela aparece (não!), o que eu digo?
Devia ter trazido um caderno pra rabiscar, me achar um pouco.
Quanta ponta solta, queria mesmo atar cada fio de pensamento e seguir tranquilo meus dias.
Respirar. Essa posição tá me fazendo mal, mas não quero mudar. Respira fundo.
...
Sentada
na calçada, B impressionava-se com a peripécia do I. Parecia um pássaro
contra o céu quente do meio-dia. Não o conhecia, mas imbuiu-se de
empatia por ele, pela sua luta. Ele estava tão longe, sentia-o tão perto. Dava pra perceber que fazia aquilo por um desafio a si próprio, nada além disso. Não chegava a ser um ponto, mas sim um vulto lá no alto, bailando leve como pluma e vento. O prédio não era tão alto assim. Apesar de leve, B o enxergava numa controversa atenção, similar aos bailarinos que concentram-se em sorrir descontraidamente durante o número. B tentava não pensar tanto no que sentia e apenas apreciar aquela aventura. Alongou o pescoços para os lados, cansado de estar curvo há tantos minutos para trás. Fechou os olhos enquanto fazia isso, sorriu e se imaginou lá em cima. Não se importava com os outros que também estavam assistindo ao equilibrista; tampouco os outros a notavam ante algo tão notório acontecendo acima. Para ela o dia havia melhorado consideravelmente, quiçá o mês; sentia-se agora muito bem, nessa interrupção inesperada do seu horário de almoço. Esticou-se e deitou na calçada que, pelo menos nessa área da cidade, era larga o suficiente para isso. Manteve as pernas dobradas para cima e os pés encostados na sarjeta. Mãos na cabeça como uma almofada, braços abertos como uma borboleta, sorriso nos lábios como uma criança, olhar atento adiante...
Como pode, né? Cada doido nessa cidade... e que doidice legal!
Será que se importam de que eu fique deitada aqui? E se alguém do escritório me vir?
Ele parece tão sério daqui... Será que alguém aqui conhece? Talvez eu deva me inscrever numas aulas de dança. Acho que vou fazer isso ao sair daqui. Senão perco a coragem.
É maravilhoso termos a capacidade de contágio de vontade, sentimentos, mesmo assim, tão distantes...
Acho que vou me atrasar na volta pro escritório. Vai lá, cara, estamos juntos nessa.
...