2.9.15

Por onde estive quando não estive aqui

Tenho andado fatigado esses dias, esgotado mesmo. Não consigo dormir bem há uns dois meses. E da mesma forma não consigo me manter bem acordado.

Agora, por exemplo, estou rolando na cama pela enésima vez essa noite. Não sei há quanto tempo estou deitado, e honestamente, nem do momento em que me deitei. Acho que já havia iniciado o sono, mas despertei há pouco. O que sei apenas é que só me resta percorrer o longo caminho até o amanhecer, quando o sono resolver voltar brevemente mais uma vez.
Essa condição é inquietante. Pode parecer o contrário, mas dormir depende muito pouco do conforto da cama - a mesma de sempre. Revirar nela em busca de uma posição que deveria ser natural é um paradoxo. Todo mundo tem um encaixe certeiro e impercebido com a cama na hora de dormir; realizar uma busca por esse encaixe só prova que ele não está nem mesmo ali. Outra corrida atrás do próprio rabo é o esforço para parar de pensar. Quer frase mais contraditória e verdadeira que "preciso parar de pensar pra poder dormir"? Eu já deveria ter parado de pensar antes que isso me ocorresse. Agora estou aqui. Pensando sobre pensar.
Frear esse impulso é meio que uma tentativa de meditação... limpar a mente. Como será que se faz isso? Pensamento fixo no nada. Um ponto talvez seja melhor. Ponto, ponto, ponto, ponto, ponto, ponto, ponto. A única existência agora no universo é esse ponto. Ponto, ponto, ponto, ponto. Que loucura... Estranho porém, é que alguma coisa nisso realmente está surtindo efeito. Um bem-estar... Começo a sentir um cheiro de praia, e se reparar bem, até ouço um barulho de ondas ao longe. É uma sensação ótima, um som muito gostoso de se ouvir e até mesmo bem imersivo. Preciso tomar cuidado pra não sujar a cama com os pés sujos de areia.
Que praia é essa? Não consigo lembrar o nome da praia que fica perto daqui. Será que minha tentativa em meditar está dando certo? Como pode, se eu tô enchendo a cabeça de perguntas?
Bom, o que seja, já foi. A concentração no ponto foi-se embora e tudo se desfez.
E agora deu vontade de saber quanto tempo já se passou desde que deitei. A tentação é grande, mas eu não vou olhar para o relógio. Saber quantas horas eu tenho até amanhecer é um problema a mais. Já não basta a cabeça cheia de coisas do serviço. Ainda não sei como dizer à Azaleia que não vou conseguir terminar os desenhos a tempo (ainda mais sem dormir). E nem como eu acho o nome dela massa demais, embora a marca de sapato tenha avacalhado com a primeira impressão que todos têm quando ela se apresenta. Pô, é um nome bonito, é uma flor. Combina com ela, aquela cor lilás viva dos olhos, dos cabelos, das pétalas dela e todo aquele jardim no carro que ela anda. Fico com pena e bem chateado quando aquelas flores cantoras do jardim desprezam a Azaleia. Só porque ela é loira e se chama Alice.
Opa.
Cá estou eu indo embora de novo numa sequência de pensamento. Apalpo a almofada numa nova forma e puxo a ponta do lençol para descobrir meus pés. Tá começando a fazer um certo calor aqui com ele. Vou ficar quieto aqui com os olhos fechados, tô começando a sentir um certo cansaço. Que bom. O barulho do trânsito lá fora também atenuou, e ainda está escuro, isso é ótimo. O único empecilho agora é esse pessoal lá embaixo na rua que resolveu tocar uma hora dessas. E essa música é bonita, a orquestra está afinada e bem conduzida. Parapapã parapã pã... Que música é essa? Eu conheço, escuto ela todo dia. Toda hora aliás. Ah, não vou conseguir lembrar agora. Como é bonito ver o movimento deles executando uma única nota e a vibração dessa notificação. Vrm Vrm. O lençol tá cada vez mais macio... Ah, acho que essa orquestra vai ter que ficar pra depois. Vou me agarrar forte nessa chance de dormir.
Tic.Tac.Tic.Tac.Tic.Tac.
Nada.
Pô, será que não vou dormir mesmo? Tô cansado, confortável, mas até agora nada adianta. Que sina. Mais uma noite pra conta. Isso tá se tornando um hábito. O que me resta tentar agora? E pior: a fome tá chegando. Mais um dilema, vale a pena ou não levantar pra comer algo? Por enquanto, vou ficando aqui, não vou abrir mão desse conforto conseguido com tanto esforço. É só relaxar. Esquece barulho, esquece fome, esquece flor, esquece praia. Só dorme. Provavelmente já se passaram umas boas horas desde que acordei. Isso significa umas boas poucas horas até eu ter que levantar.
Isso tudo é uma corrida desesperada em busca de tempo, e ele lá adiante. Estou correndo tanto e tão angustiadamente que chego a sentir o vento frio roçando na bochecha, na lateral do pescoço, nos cabelos.

Uma freada brusca e minha testa é lançada no encosto da frente. Alarmado, espio a janela e percebo que tudo aconteceu de novo.

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