8.6.15

Se esta carta fosse um livro, o título seria "Catarse inversa"

Olá,

Não tenho muito o que lhe escrever, mas muito por lhe escrever. Digo isso por haver tanta vontade em transbordar e pouca maré para isso. O casco do coração já carrega alguns mexilhões, e essa nave vagueia à toa no mar. Estou presa e perdida em mim e no meu ambiente - o apartamento está apinhado de bitucas de pensares e sentires por todo o canto. Tropeço constantemente nelas no fluxo do rio quarto-sala-cozinha. Estar desanimada é navegar custosamente num rio imundo pela sujeira produzida pela própria embarcação.
Às vezes uso alguns placebos para que as coisas fluam melhor. Uma música animada, uma arrumada na casa e de repente tenho controle das coisas. Mas da janela, a cidade é cinza, a parede aprisiona, e invade tudo novamente. Mas o barulho da rua é o silêncio do quarto e o vazio de dentro.
O espelho do banheiro quebrou quando bati-lhe o cotovelo numa quase queda por causa do chão molhado. Não sei se chegaste a ouvir o barulho... provavelmente. O fato é que há uma semana não lembro de comprar um outro, e assim já faz uns dias que não vejo meu rosto. Às vezes quando perambulo pelo apartamento na madrugada me vejo como uma alma penada. Engraçado, tendo perdido a noção do meu rosto de agora, não me surpreenderia que eu realmente seja um fantasma, pois sinto que sou apenas visão - não falo, não degusto, não toco. E uma parca visão desatenta, posso adicionar. Talvez seja isso o que acinzente meus dias, a falta de falar, a falta de cantar. E tu sabes, a gaiola cala o pássaro. O triste é saber que a gaiola é a cidade, ou a própria casa, o próprio ninho. Sabe, não tenho amigos aqui. Nem inimigos. Não estou tenho nenhuma conexão com esse lugar, estou desligada... ... Estou desligada.
Escrever nesse papel é ao mesmo tempo uma sombra e uma luz. Devo confessar os pouco parágrafos dessa carta estão sendo escritos num ritmo quase estacionário durante as últimas semanas. Escrevo porque me forço a escrever. Porque preciso escrever, escrever me dá um certo ânimo, é como um banho bem tomado. Mas ao mesmo tempo que ilumina meu humor, desconfio que essa tarefa inacabada e contínua acaba mantendo o cinza dos meus dias. Seja o que for, essas serão as últimas palavras de pelo menos esta carta.
Continuarei a te escrever e a rabiscar essas folhas. Seguirei no meu rio aqui nesse apartamento, mandando mensagens em garrafas gaveta adentro.

Afetuosamente, sua vizinha de cima.

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