15.12.15

O alquimista


Se destas pipetas saíssem o líquido que me inebriasse tanto quanto o teu sorriso, eu custearia essa produção com a perda de minha sanidade após infinitas noites insones. E se o bico de Bunsen incendiasse o demônio que me afasta das cócegas dos teus pés, eu verteria litros de gasolina por toda essa sala. Entretanto permaneço aqui, envergado como o Pensador, e acharia graça dessa comparação não estivesse aqui sozinho. Um Pensador de jaleco em meio a uma oficina de vidrinhos finos como asas de borboletas.

***

Ninguém verá o que eu sonhei. Nesta sala, na última bancada, há um espelho ladeado por duas luminárias. Sempre que chego ao laboratório, é defronte a ele que me sento e repasso minha fala, concentradíssimo e ansioso por qualquer erro que venha a me acometer no palco. Ensaio a impostação, a velocidade da fala, o comportamento das mãos, meu olhar ardente e teimoso. Às vezes rasgo o texto e choro por tanta dor que o personagem me inflige. (Aqui dentro vejo teus olhos baixos de tristeza.) Minhas mãos coçam e o sol varre a parede em direção ao teto à medida em que se põe. É preciso preparar as cortinas para o início do espetáculo. Calço as luvas com esmero e colho os substratos que preciso da estante: fenolftaleína, eritrócitos, semblantes. Paracetamol, catecismo, radiação beta. Cepas, -90mV, teus rabiscos no tênis. É hora.
Não saberia dizer outro lugar onde eu poderia estar, além de aqui, tentando achar graça em ser o Pensador (Aqui dentro vejo teus dedos escorregarem uma mecha de cabelo atrás da orelha). Aqui, nessa bancada de azulejinhos, com as pipetas balbuciantes em minhas mãos, iluminadas pela luz de Bunsen. Estou no palco e confesso estar nervoso. Nunca vi tanta gente assim antes. O holofote é caloroso e ofuscante, a cessão das conversas ao abrir de cortinas é sentencioso.
Te procurei.
- Retirai a faca da minha garganta, sede indócil! - Disparo, em voz presente. - Abandonai teu refém que nada tem mais a te oferecer!
Derrubo sete gotas em cada uma dessas membranas de vidro como se adubasse pequenos acres de terra. Com elas construo a alquimia do futuro que projeto com o coração.
Erlenmeyer, Cadinho, Beaker, meus amigos, essa peça me consome muito. Ainda estamos no primeiro ato e sinto os olhos arderem por tanto esforço em mirar além da luz dos holofotes. Às vezes choro por tanta dor que eu sinto e rasgo a interpretação. Se de meus gritos no palco o fulgor de minha paixão te alcançasse aonde estivesses, perderia as cordas vocais. A plateia permanece tão inerte e atenta que posso ouvir algumas respirações, algum farfalhar de roupas. Estou desgastado pelo personagem, catártico do início ao fim, e sinto as pernas falharem.
Com minha falha, ouvi o baque estilhaçante consequente: duas peças espocaram no chão à minha esquerda. Não pude suportar, não pude suportar.
Sentindo o teto mais longe de mim, aqui no chão, fui envolto pelo aroma volátil liberto com a queda: estou feliz, te tenho comigo. Da bancada ao piso, a chama percorre a trilha etanóica passo a passo. Ela dança como danço contigo, em passos lentos, em mãos conjuntas, em sorrisos. Eu permaneço deitado, possuído pelo personagem, rendido e inebriado entre isótopos e beleza (Aqui dentro te vejo). Alucinados, somos apenas eu, a luz e o silêncio no centro palco. 
A cortina decai, a plateia irrompe em aplausos. Só você, meu amor.

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