sábado, 11 de outubro de 2008

Doença e cura (II)

2.

(poderia ter quarenta anos, poderia ter cinquenta, poderia ser católico, poderia ser ateu, poderia ter dois filhos, poderia ser filho único, poderia ser corretor, poderia ser prefeito, poderia morar na periferia, poderia trabalhar no centro, poderia ir embora, poderia pedir pra que ninguém fosse, poderia, poderia. mas não podia)

Alguns dias depois deparei com um sujeito fitando a imagem de Nossa Senhora que ficava no corredor que desemboca no balcão de admissão de pacientes. Reconheci como sendo o filho de uma senhora que também aguardava ser operada naquela semana.
Armava as mãos na cintura e repousava olhar perdido nos olhos da estatueta. Quando os pensamentos tiravam-lhe os pés do chão, o olhar estancava numa única direção indefinida no sentido à imagem; quando era reconectado à realidade, passava a analisar cada detalhe da vestimenta da santa, e a observar as cartas que se acumulavam ao pé de Nossa Senhora. Talvez imaginasse o que haveria nelas. Além disso, havia algumas fotos três por quatro anexadas às mensagens.
Agora dependia da estatueta sorridente de Nossa Senhora para enganar o medo de perder a mãe. Procurar quase desesperadamente um detalhe novo a cada segundo, isso mantém a mente ocupada. Religião, não, ele não era religioso. Suplicar por amor, rebaixar-se ante alguém ou algo, isso é para os submissos por natureza, não ele.
Mas aqueles quarenta centímetros de gesso instigavam-no a não pensar assim. A mãe dormindo no leito e ele ali, no corredor, conversando sozinho. Precisava de ajuda - não queria, mas precisava. Querer, poder, precisar. Nada disso é controlável. Não sabia se era pior depender de pessoas, deuses, ou do gesso. Não sabia por quê. Não sabia de nada, aliás. E se a mãe fosse embora? A mãe vai embora? É isso, acabou? Tudo isso pra acabar assim? Nossa Senhora, me diga.
Teu manto parece mais azul do que em cinco minutos atrás.

6 comentários:

Karoline disse...

Iei Mundico! Será possível, quando vou ter uma oportunidade pra conversar contigo. Arghhhh!!! ¬¬'

=P Bem, eu nao sei se vc já visitou meu bloguinhozinho (rss) Well, como sempre você continuaa pensando demaisss...
Eu tb penso demais, até demais do que eu deveria pensar, se bem que já diminui em muito. Graças a Deus.

As vezes eu penso que o lugar melhor para pensar é perante o céu... mas quando me coloco em céu aberto penso em algo que não deveria pensar... fujo completamente daquilo que eu ia pensar. talvez pq a falta de constume em disciplinar a minha mente, mas... deixa pra lá.

a velha historia ... o Sentido da vida. Fora isso os cuidados que tomamos para que ninguem influencie a gente e nem nos ataque brutalmente.

as pessoas só buscam esperanças...
e quando encontram a esperança
(ok, já não se tem mais nada alem da esperança)
mas, se a esperança for direcionada àquilo que é verdade...
sendo verdade é fim (ponto)
e nem sempre tudo é relativo.
as vezes o relativo entra no meio pra não criar confusão.

bem...[.............]

o que verdadeiramente importa?
[pausa]
o que verdadeiramente importa?
pausa pausa pausa

será que alguém aqui já pensou no proposito de Deus?

linhas...
linhas certas
linhas erradas

quam as pode dizer senão o criador.
quanta confusão.

mas bem...

[bemmmmmmmmmm].........

Karoline disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Karoline disse...

Ah...se vc for visitar o meu bloguinho...please don't think que eu sou religiosa >.<<<<<< Deus me livre!
mas queira saber o (?)

Digo. disse...

me identifiquei com esse texto...

rapá, pelo amor de Deus! Apaga essa galudice dos teus comentários!

iu!

AAHUAHAUAHUAHAU

Karoline disse...

hum...

Secoelho disse...

Já me vi várias vezes na situação de fitar uma estátua sem saber o que pensar, sem saber o que pedir e involuntariamente passando a mão por uns detalhes aqui e ali...